P.I.M.E. - Missio
|
AS MISSIONÁRIAS E OS MISSIONÁRIOS BRASILEIROS ALÉM-FRONTEIRAS Pe. Giorgio Paleari, P.I.M.E. Uma pesquisa realizada pelo Conselho Missionário Nacional (COMINA) traça um primeiro perfil das missionárias e dos missionários brasileiros da Igreja Católica espalhados pelos cinco continentes. Resumo O material introduzido neste artigo insere-se no vasto campo de estudo das religiões. É uma pesquisa original e não existem estudos deste tipo, sobretudo a partir da ótica da Igreja Católica. Debates e aprofundamentos sobre a realidade religiosa brasileira deveriam incluir, a nosso ver, estudos de qualidade sobre a "identidade e o trabalho das missionárias e dos missionários brasileiros além-fronteiras". O artigo mostra a vitalidade e o reavivamento de forças religiosas que convidam a alargar os horizontes dos estudos sobre o "campo religioso" brasileiro para além dos critérios geográficos. Efetivamente o assim chamado "campo religioso", a partir desta perspectiva, expande-se e envolve variáveis que não são redutíveis a um determinado contexto. Abstract The sources that gave the basis to this article are original. They are part of the Religious Studies larg academic field. So far, there is no research of this kind on the subject, especially from the Roman Catholic Church point of view. Debates and deepennings on brazilian religious situation should include high quality studies on the identity and work of overseas brazilian missionaries, both men and women. The article shows the religious forces vitality and revival that encourage an widenning of horizons on the religious field studies beyond the geographic boundaries. Moreover, from this point of view, the so called "Religious Field" involves variables that cannot be reduced to a given context. INTRODUÇÃO São 1556 os brasileiros e brasileiras que atuam no exterior em frentes missionárias de evangelização ou de promoção humana, ligadas a obras e projetos da Igreja católica. Este é o primeiro dado de uma pesquisa realizada pelo Conselho Missionário Nacional (COMINA) durante o ano de 2001, através de um contato persistente junto a quase 1000 entidades entre congregações, projetos missionários e dioceses. Desde 1992, a CNBB estava tentando um cadastramento destes missionários, mas somente agora conseguiu um resultado bastante satisfatório. Das entidades contatadas, 85% contribuíram com suas respostas para levantar um primeiro perfil da presença missionária brasileira além-fronteiras. A pesquisa O trabalho de contato e de pesquisa recolheu informações junto aos responsáveis das entidades sobre as brasileiras e os brasileiros natos que atuam como missionárias e missionários fora do país. Foram pedidos dados referentes à identidade, origem, formação, envio, destinação, atividade e residência dos missionários. Também foi caracterizada como "missionária" a pessoa que está totalmente engajada num trabalho eclesial pastoral ou de promoção humana, sem outros importantes vínculos com Organizações Não Governamentais ou com projetos profissionais junto a instituições não-religiosas ou empresas. Desta forma, as entidades contatadas foram exclusivamente congregações religiosas, projetos missionários ligados à CNBB e dioceses que eventualmente enviam seus agentes como missionários para outras dioceses fora do país. Os membros destas entidades que estão no exterior exclusivamente a serviço da instituição (por exemplo, no governo geral da congregação), ou por motivos de estudo e formação, não foram contemplados nos resultados finais desta pesquisa. O trabalho direto de levantamento dos dados foi feito por Cristina Maria Galvão, contratada pelo COMINA, e teve a supervisão técnica de Pe. Estevão Raschietti, missionário Xaveriano. O incentivo do Presidente do COMINA, Dom Erwin Krautler, bispo do Xingu, como de toda a equipe executiva, foi de constante apoio e incentivo ao projeto. Uma primeira leitura dos dados O esquema para a sucessiva reflexão privilegia, antes, o caminho da missão (itens 1-4) e, sucessivamente, os sujeitos da missão (itens 5-10). Sendo que a missão é, antes de tudo, um deslocamento e um sair, preferiu-se mostrar, como primeiro passo, o "´para onde" e "o que fazem as missionárias e missionários brasileiros além-fronteiras" e, sucessivamente, visualizar a identidade e a origem dos mesmos. Sendo esta a primeira pesquisa de caráter sistemático sobre a realidade missionária dos que estão além-fronteiras, não foi possível realizar análises comparativas, pois não há dados ou análises anteriores. O que emerge, nesta primeira abordagem, é algo de surpreendente e revelador. A missão além-fronteiras é uma realidade que está tomando um rumo cada vez mais preciso na Igreja Católica do Brasil. Revela a maturidade de uma instituição que se abre, dando de sua pobreza, a outros povos do mundo. Uma Igreja amadurece quando se abre à dimensão missionária. ESQUEMA DA ANÁLISE 1. CAMINHOS DA MISSÃO 1.1 - Continentes e Países p. 03 2. SUJEITOS DA MISSÃO 2.1 - Identidade e gênero p. 15 1.1 - Continentes e Países
em %
A maciça presença na África e nas Américas A África e as Américas representam as áreas geográficas que mais absorvem os missionários brasileiros além-fronteiras. O Continente Americano absorve 39,53% dos 1556 (100%) missionários (América Central 7,65%, América do Norte 3,15% e América do Sul 28,73%). A presença nas Américas supera os 35,41% da África. Em valores absolutos, são 615 missionários nas Américas e 551 na África, perfazendo um total de 1166 unidades. Os 25,06% restantes, 390 missionários, estão nos outros continentes, incluindo a Europa com 19,02%. A Ásia e a Oceania absorvem, em números absolutos 94 missionários e em relativos 6,04%. Pode-se dizer que o "oriente" é o continente quase que esquecido pela Igreja Missionária do Brasil. A herança africana O grande número de missionários na África (35,41%) pode ser explicado por vários fatores, entre os quais, a "dívida histórica" com relação aos escravos negros trazidos para o Brasil, a "facilidade lingüística e cultural" em relação aos países africanos que foram colonizados pelos portugueses - Moçambique, Angola e Guiné Bissau acolhem bem 351 (63,7%) missionários brasileiros, sobre um total de 551 - e também a extrema pobreza de ingentes populações africanas que identificam a missão como um "serviço" e uma "presença" no meio dos mais pobres. Esta última consideração direciona a atividade missionária para uma certa perspectiva: o compromisso solidário com os pobres mais pobres. Sobretudo nos dias de hoje, a África é um continente esquecido pelas grandes potencias ocidentais. Guerras tribais (herança do colonialismo) e doenças endêmicas estão dizimando as populações da África. Somente os missionários e as missionárias acreditam na vida e na ressurreição da África. Estes e outros fatores parecem incentivar o caminho da missão para a África. No entanto, é importante avaliar profundamente e dar o devido peso a cada uma destas variáveis. A "pátria grande" As três Américas (sul, centro e norte) recebem o contingente maior dos missionários brasileiros: 615 unidades ou 39,53%. Na América do Norte (Estados Unidos 40 e Canadá 09) a presença de missionários brasileiros se restringe ao serviço dos migrantes brasileiros e hispânicos (40%). Os missionários se concentram sobretudo nas áreas de Miami, Nova York (EUA) e Toronto (Canadá) onde é significativa a presença de imigrantes brasileiros. Nesses países, a PBE (Pastoral para os Brasileiros no Exterior) é particularmente ativa. A PBE surgiu nestes últimos anos para acompanhar os imigrantes brasileiros. Outros missionários estão a serviço das congregações nestes países. A América Central e do Sul absorvem, pode-se dizer, a maior força missionária brasileira além-fronteiras: 566 missionários ou 36,38% das forças. Diferentes motivos podem explicar esta presença. Antes de tudo, a proximidade geográfica permite um intercâmbio rápido entre as forças das Congregações Religiosas. As viagens e os contatos permitem que não se separe o grupo das províncias, o contingente que está fora e o grupo que está no Brasil. É fácil trocar o pessoal e permite uma abertura maior também aos grupos sedimentados. Dos primeiros 20 países com presença missionária brasileira, a Bolívia acolhe 104 missionários (8,59%), a Argentina 82 (6,77% - NB representa o mesmo número de todos os missionários na Ásia), o Paraguai 74 (6,11%) e o Chile 59 (4,87%). Em síntese, considerando os vinte primeiros países na escala de presença de missionários brasileiros, a América do Sul e a América Central acolhem 481 pessoas (até Guatemala). É uma presença, sem dúvida, considerável. Também os fatores lingüísticos e culturais não podem ser descartados. Há uma proximidade lingüística entre o português e o espanhol, este último falado quase globalmente nos países latino americanos. A questão cultural aproxima também os universos simbólicos dos países. A América Central e a América Latina foram colonizadas pelos impérios hispânico e português (Brasil). O tipo de cultura popular, a religiosidade, a influência indígena e dos negros escravos perpassam a quase totalidade das áreas. É relativamente mais fácil uma aproximação a culturas homogêneas. O missionário trabalha mais com o eixo da continuidade e menos com o da diversidade-ruptura. Um fator que não pode também ser descartado é o símbolo da pátria grande que já estava nos sonhos de Bolívar e de outros que vislumbravam uma grande unidade latino-americana. A partilha dos grandes ideais de uma solidariedade continental pode representar um grande imaginário também para as forças missionárias. O oriente esquecido A Ásia e a Oceania representam os continentes quase que completamente esquecidos pela Igreja Missionária do Brasil. Somente 94 missionários (82 na Ásia e 12 na Oceania) ou 6,04% (5,27% na Ásia e 0,77% na Oceania) encontram-se nestes territórios. As Filipinas estão numa situação particular. Colonizadas primeiramente pelos espanhóis, as Filipinas são um país quase que completamente católico. É aqui que se encontra o maior contingente missionário brasileiro. São 33 pessoas ou 2,73% do total. Se considerarmos os dados, somente a partir da Ásia, sobre 82 missionários, 33 estão nas Filipinas, perfazendo 40,24% das forças missionárias brasileiras na Ásia. A proximidade cultural e religiosa com o Brasil permite aos missionários brasileiros, na maioria, viver numa linha de continuidade. O estilo de pastoral, a situação de pobreza e o mundo simbólico aproximam os dois contextos. Não pode ser deixado de lado, também, o aspeto de "busca" de vocações para as Congregações Religiosas que pode jogar um papel importante na escolha deste país. As Filipinas são um celeiro de vocações para a Igreja. No seu conjunto, porém, o Oriente permanece um mundo esquecido e longínquo das preocupações missionárias brasileiras. Determinados desafios que se experimentam hoje no campo missionário provêm principalmente da Ásia. O mundo das grandes religiões, o contato com as culturas milenares e a presença minoritária do Cristianismo na Ásia continuam sendo realidades longínquas do nosso contexto. O intercâmbio cultural com as grandes tradições asiáticas chega no Brasil através de alguns novos movimentos religiosos importados e, não tanto, da voz e da presença dos missionários brasileiros. A renovação missionária da Igreja do Brasil passa, necessariamente, pelo caminho da missão no Oriente, especialmente na Ásia, com toda a problemática inerente. Vale a pena considerar um projeto original, qualificado e pioneiro da presença missionária na Ásia, levada adiante pela CNBB e CRB: a missão no Timor Leste ou Timor Lorosae, país que há pouco tempo se tornou independente da Indonésia. As estatísticas gerais mostram que no Timor Leste vivem 7 missionárias e missionários, seguidos com atenção pela Igreja do Brasil. Estes formam uma comunidade intercongregacional, vivem no meio do povo e contribuem para a reconstrução do país dizimado pela guerra. 1.2 - Contexto de trabalho Onde estão as missionárias e os missionários brasileiros? Em que contexto estão atuando? A pesquisa indica um dado interessante: a maioria está presente no contexto urbano (56,68%). Outros estão no contexto urbano-rural (25%) e somente o 7,13% trabalha em áreas exclusivamente rurais. A emergência do urbano Como é também evidenciado em outras pesquisas, o mundo urbano está sempre mais emergindo como o lugar privilegiado da missão. Fala-se de "missão urbana", indicando o âmbito prioritário da atuação missionária. Há alguns anos que o fenômeno da migração, muitas vezes forçada, deslocou ingentes massas do campo para a cidade. As cidades continuam se inchando e concentram, como no caso do Brasil, até 80% da população de um país. Assim, o tradicional caminho missionário para o "interior" está sendo complementado por uma missão tipicamente urbana. Mesmo que continue o trajeto para as populações tradicionais, os povos indígenas, as culturas populares (muitas vezes com uma ênfase de romantismo), a verdade é que o âmbito para o qual os missionários brasileiros estão se dirigindo é sempre mais aquele urbano. É este o "locus" prioritário. O que significa este novo direcionamento ainda deve ser refletido e descoberto. Certamente trará conseqüências na maneira de preparar as forças missionárias, de desvendar caminhos de evangelização na cidade e de elaborar uma nova espiritualidade. Tudo isso indica que está se configurando no âmbito da missão uma nova "revolução copernicana" na qual as forças missionárias estão sempre mais se adentrando. Com séculos de missão rural parece que muitos métodos foram aprendidos e muita experiência foi adquirida. O urbano exige novos caminhos e se apresenta como desafio para a missão. João Paulo II, na Encíclica Redemptoris Missio (1990) já tinha vislumbrado a realidade urbana como sendo o novo âmbito privilegiado da atividade missionária. "Hoje, diz o Papa, a imagem da missão ad gentes talvez esteja mudando: lugares privilegiados deveriam ser as grandes cidades, onde surgem novos costumes e modelos de vida, novas formas de cultura e comunicação que, depois, influem na população" (RM, nº 37b). E, mais adiante, continua falando dos "novos areópagos" dos tempos modernos, incluindo o mundo das comunicações (RM, 37c). Levando em conta a especificidade de cada continente, emergem algumas diferenças nas porcentagens sobre a presença urbano-rural. A Europa têm 83,78% de presença missionária urbana e a África 45,19%. Evidentemente estamos diante de dois continentes completamente diferentes. Nos outros continentes a consistência da presença missionária na cidade supera os 50% (52,36% nas Américas; 68,29% na Ásia e 58,33% na Oceania). Entre os extremos rural e urbano há uma terceira categoria "rural-urbano", indicando ou o 'vai-vêm' dos missionários ou uma realidade híbrida em que o centro da missão se encontra na cidade e os missionários se deslocam temporariamente para as áreas rurais. Se elegermos a categoria "rural" para detectar o trajeto tradicional da missão, devemos concordar que está acontecendo uma significativa mudança. O trabalho missionário está voltado mais para as áreas urbanas. O continente africano tem 11,43% de presença missionária exclusiva nos ambientes rurais. Os outros continentes menos ainda: 8,46% nas Américas, 2,44% na Ásia e 1,01% na Europa (a Oceania não está especificada). Estes dados começam a se tornar significativos também para a questão missionária após as grandes variações demográficas dos últimos 60 anos. A Escola de Chicago nos anos 40 do século passado já discutia as teorias do "continuum folk" e das variações de comportamento entre rural e urbano. O caminho missionário vislumbra, com atraso, outro paradigma para a questão missionária. O que se entende por "âmbito urbano" ainda deve ser desvendado. Estão incluídas cidades pequenas e médias bem como as megalópoles. Estão incluídas, também, novas visões que extrapolam o ambiente específico da cidade e se difundem em contextos tradicionais, através dos meios de comunicação social. Além disso, ocorre detectar em que sentido houve mudança na atuação missionária e o tipo de renovação de métodos que estejam acontecendo. Os próximos dados são significativos para notar se, junto com a mudança de âmbitos, houve uma mudança de métodos, atividades e teologia missionária.
Especificidade dos contextos por Continentes
1.3 - Atividade Missionária Há cinco grandes áreas em que se concentra a atuação dos missionários. Outras áreas envolvem poucas pessoas. Visão paroquial de missão A área da "pastoral geral" envolve o maior número
de pessoas (27,92%), sendo 37,90% de sexo feminino e 37,99% de sexo masculino.
Neste sentido, a porcentagem por gênero parece se equivaler. Em
n´meros absolutos, 590 agentes estão em trabalho tipicamente
pastoral ou, como se costuma dizer em termos missionários, de "plantatio
ecclesiae". Às vezes, também, de "conservatio
ecclesiae". A catequese, a sacramentalização, a organização
interna, os cursos vários... tendem a centrar a igreja sobre si
mesma. Trata-se do tipo tradicional de presença paroquial. As variações, em suas diversidades, apontam para um compromisso no campo intra-eclesial. Missão, neste caso, significa criar, sustentar, conservar e manter a vida das comunidades cristãs, através dos caminhos normais da pastoral. O modelo privilegiado da atuação é a "paróquia" com todos seus desdobramentos. Há áreas em que as paróquias são consideradas como "comunidades de comunidades", ou como uma comunidade central, fortemente centralizada sobre si mesma. O modelo "paroquial" está sustentando substancialmente a presença missionária. Tudo gira ao redor da "pastoral geral". A partir do fato de que há uma presença substancial dos missionários além-fronteiras no mundo urbano, torna-se necessário avaliar novos caminhos na perspectiva da missão urbana. Esta característica "ad intra" é reforçada por outro contingente de missionários que trabalha no "projeto congregacional" (segunda área). Aqui nos encontramos diante de 17,80% ou 277 missionários que se distribuem nesta área. Trata-se de um serviço dentro da própria congregação seja na formação de novos quadros, seja assumindo cargos locais de direção. Trata-se de um trabalho restrito e funcional à Instituição. Não é um serviço diretamente para fora. É mais um gerenciamento e reprodução da instituição. Os missionários e missionárias que atuam em Projetos Congregacionais somados aos que atuam na Pastoral Geral perfazem um total de 767 pessoas. Isto quer dizer que 55,72% das forças missionárias brasileiras além-fronteiras estão trabalhando para a instituição "Igreja" ou "Congregação". Em determinados continentes o número absoluto dos que estão ligados à instituição é ainda maior. Na Ásia, são 67,07% e na América do Sul 63,98%. Um dado significativo é que o contingente masculino em serviços "institucionais" é ainda maior do que o feminino (59,09% x 54,89%). Compromisso e obras sociais O terceiro grande contingente de missionários atua na área "social". Esta envolve o campo da saúde (sobretudo hospitais), as diferentes obras assistenciais, o cuidado com as crianças (pastoral da criança, orfanatos, etc.) e a promoção da mulher. Os missionários/as envolvidos nesta área são 18,57% ou 289 pessoas. A missão tradicional se expressava e ainda hoje se expressa, através da prática das obras de misericórdia. O campo da saúde, com todas suas facetas, representou sempre o caminho complementar do processo missionário. Hoje, porém, ao lado da assistência, há também a busca das causas sociais do sofrimento e de sua superação. A missão penetra nos meandros da exclusão para implantar o sonho dos pobres e oprimidos. O caminho da missão, portanto, desdobra-se entre o assistencialismo e o compromisso de mudança. Vários missionários brasileiros deixaram o Brasil no momento em que a crítica à missão ocidental era mais intensa e, certamente, alguns deles absorveram uma visão mais crítica do processo da busca das causas da pobreza e do subdesenvolvimento. Não temos figuras de missionários brasileiros que se sobressaíram na elaboração desta crítica profética, como aconteceu com os combonianos Zanotelli ou Kizito Sezana na Itália. Em todos os casos, o caminho do compromisso ou do alívio do sofrimento indica o caminho de uma missão que se debruça sobre o sofrimento do ser humano. É uma perspectiva de dentro para fora. Visa o serviço abre o leque da evangelização no sentido de envolver também a promoção humana e a ajuda a quem sofre. O campo da pastoral específica A área da "pastoral específica" se caracteriza como um trabalho junto com grupos humanos identificados em sua especificidade como, por exemplo, os migrantes, os povos indígenas, as crianças de rua e as mulheres marginalizadas. Na Igreja do Brasil, estas atividades fazem parte das "pastorais sociais" e têm uma conotação precisa de contribuir para a organização, a defesa dos direitos e a luta pela cidadania. Diferentemente da "pastoral geral", a "pastoral específica" lida com os grupos humanos e as pastorais de fronteira. Distancia-se também das "obras sociais" porque tem uma visão mais crítica da exclusão social e do compromisso de mudança. Muitas vezes pode até se expressar no processo de alívio do peso da exclusão, mas tem como projeto o resgate da cidadania. A evangelização e a missão, neste contexto, alarga-se para uma perspectiva mais abrangente e global, incluindo o compromisso pela justiça e a dignidade humana. Das forças missionárias brasileiras além-fronteiras, 7,26% (113 pessoas) atuam nesta pastoral específica. Somente 4,97% das mulheres e 16,56% dos homens estão neste caminho. A diversidade por continente evidencia onde estas pastorais estão situadas: 4,88% na Ásia, 5,41% na Europa, 8,33% na Oceania, 2,72% na África, 10,07% na América do sul, 10,08% na América Central e 40,82% na América do Norte. O número elevado na América do Norte indica que muitos missionários brasileiros estão envolvidos com os grupos de migrantes hispânicos ou brasileiros. Como já foi dito, a PBE (pastoral para os Brasileiros no Exterior) tem uma significativa atuação na América do Norte. O primeiro anúncio A área do "primeiro anúncio" foi sempre o que caracterizou historicamente o caminho da missão "além-fronteira". Associado ao termo "ad gentes", o primeiro anúncio significava a presença missionária no meio dos não cristãos ou em países com reduzida presença de cristão formais. Tendo perdido o caráter de conquista e de conversão forçada, típico da época colonial, desdobra-se hoje no trabalho de inculturação, de diálogo inter-religioso e do serviço aos mais pobres. O anúncio explícito da mensagem de Jesus Cristo, mesmo com suas variantes, representou sempre a ponta de lança do caminho missionário além-fronteiras. Somente 92 missionários ou 5,91% estão nesta tarefa. É a área que caracterizamos como "Evangelização". Mesmo no continente asiático, com minoria cristã, somente 13,41% encontram-se no trabalho missionário do primeiro anúncio. Considerações conclusivas Diante da pergunta: "Onde estão situadas as missionárias e os missionários além-fronteiras?", a resposta foi: "A maioria está em contextos urbanos". Diante de outras perguntas como: "Que atividade estão exercendo?", vimos que há um grande leque de tipos e enfoque de presença. O maior contingente está situado, na tradicional forma de evangelização, na pastoral geral ou ordinária, nas obras da Congregação, nas obras sociais, no campo educativo e, somente, uma minoria na evangelização explícita do "primeiro anúncio". Tem-se a impressão que o caminho da missão além-fronteira deverá mergulhar um pouco mais nos desafios atuais da missão: a inculturação, o diálogo, a realidade do primeiro anúncio. Uma renovada teologia missionária deverá ser a base e o fundamento da perspectiva missionária.
em %
ATIVIDADE MISSIONÁRIA FEMININA
ATIVIDADE MISSIONÁRIA MASCULINA
ATIVIDADE MISSIONÁRIA POR CONTINENTES
EUROPA - ATIVIDADE MISSIONÁRIA
OCEANIA - ATIVIDADE MISSIONÁRIA
ÁFRICA - ATIVIDADE MISSIONÁRIA
AMÉRICA DO NORTE - ATIVIDADE MISSIONÁRIA
AMÉRICA DO SUL - ATIVIDADE MISSIONÁRIA
AMÉRICA CENTRAL - ATIVIDADE MISSIONÁRIA
1.4 - Estadia no além-fronteira
Muitas interpretações Para uma missionária e missionário o fato de ir além-fronteiras é sempre desafiador. Significa uma quebra e uma reformulação na visão da realidade, um distanciamento das situações familiares, a aprendizagem de uma nova língua. Muitas vezes exige uma reformulação global dos horizontes. Por quanto tempo um missionário permanece em outro país? Como está a situação atual? Que tipo de análise pode ser feita? O que estão indicando os dados? Um grande contingente de missionários saiu do Brasil nos últimos quatro anos, exatamente 507 pessoas ou 33% do total. Incluindo também os que estão a menos de um ano em territórios de missão (64pessoas), temos 571 ou 37% do total. Mais de um terço das forças missionárias deixaram o Brasil num brevíssimo espaço de tempo. Isto levanta alguns questionamentos e faz tecer algumas considerações. Antes de tudo, parece que a Igreja no Brasil ter acordado para a missão "além-fronteira". Os dados são claros e inequívocos. O caminho da abertura universal da Igreja brasileira está dando passos significativos a cada dia que passa. Não é mais uma Igreja que só recebe, mas também envia e se torna protagonista do caminho da missão. Junto com esta primeira observação, vale a pena adicionar uma outra. È nestes últimos anos que a Igreja acordou para a missão ou, após um determinado período, há um regresso significativo de forças com uma relativa desistência? Tentamos discutir melhor esta questão. Considerando os dados, os missionários que permaneceram além-fronteiras entre 5 e 9 anos são 386 (25%). Pode ser que tinham saído também os 33%, mas depois, voltaram 8%, correspondendo a 121 desistências. Parece que os números se repitam para a faixa etária superior. Os dados não são inequívocos como se parecem, mas não temos ainda termos de comparação suficientes para sustentar mais uma hipótese em detrimento da outra. Sendo a primeira pesquisa sobre as missionárias e os missionários brasileiros, não se têm ainda termos de confronto e parâmetros objetivos de avaliação. A única sugestão é que os dados sobre as forças missionárias sejam constantemente atualizados. Vale a pena, no entanto, averiguar algumas variáveis para este crescimento. A Igreja no Brasil e a abertura além-fronteiras Mesmo com as ressalvas da observação anterior, não há dúvida que nos 50 anos de existência da CNBB e nos 30 anos de vida do COMINA (Conselho Missionário nacional) muito trabalho missionário foi feito, dentro e fora do Brasil. Houve um tempo, por exemplo, em que os projetos "Igrejas Irmãs", ao interior do Brasil, foram particularmente insistentes. Para o que se refere ao processo de uma missão universal, deve ser dito que, nos últimos 30 anos, mais de 1340 missionários ou 86,12% saíram do Brasil. Isto somente na consideração dos dados. Foram certamente muito mais, se considerarmos quem já regressou. Ainda observando os dados: sendo que 136 ou 9% não se pronunciaram sobre a estadia, com certeza 80 pessoas partiram antes de 30 anos atrás e ainda permanecem firmes no além-fronteira. O que se deu para que a Igreja do Brasil, nos últimos 50 anos, ou o COMINA, nos últimos 30 anos, incentivassem significativamente a abertura além-fronteira? Quais foram os fatores significativos que podem ser tomados em consideração? Até que ponto a organização, a formação e a animação interna contribuíram para esta abertura universal? Que papel tiveram os COMIREs, os COMIDIs e os COMIPAs? Em que contribuiu o crescimento da Infância Missionária? Sendo que as Congregações Religiosas foram aquelas que mais enviaram missionárias e missionários, o que permitiu este despertar significativo? Há muitos elementos a serem considerados. É comum, ainda hoje, achar que o Brasil esteja carecendo de agentes de pastoral nas situações missionárias internas. Muitos se perguntam se não é mais oportuno que os missionários fiquem aqui colaborando para a evangelização. Há resistências significativas para a abertura universal. O fato é que se pensa em termos de eficiência e não se enxerga que a abertura missionária universal "não é conseqüência, mas condição para o amadurecimento de uma comunidade cristã". Não obstante estes obstáculos, o caminho da missão universal está dando passos significativos. Nos últimos anos, alguns documentos da Igreja conseguiram desinstalar e abrir caminhos mais ousados: O documento Ad Gentes do Concílio Vaticano II (1965), a Evangelii Nuntiandi do papa Paulo VI (1975), o Documento de PUEBLA no n. 368 com o famoso "chegou a hora de a América Latina se abrir para além de suas fronteiras" (1979), o Documento da CNBB, Igreja Comunhão e Missão, de 1988 e, por fim, a Encíclica Redemptoria Missio do Papa João Paulo II (1990). Todos estes documentos, comentados e refletidos nas bases, contribuíram certamente para esta abertura. Um pouco menor foi o impacto e a colaboração dos missionários além-fronteiras para suscitar uma mais profunda consciência missionária. Durante o período de férias e de descanso foram pouco aproveitadas as contribuições destes missionários. Ainda permanecem desconhecidos e a comunicação das experiências é ainda precária. Vale a pena, em vez, considerar o crescimento da imprensa e dos vídeos missionários, com todas suas realizações e iniciativas. As POM têm um destaque particular com a campanha missionária do mês de outubro. A Escola Missiológica de São Paulo, sobretudo nos últimos anos, tem contribuído na discussão da "universalidade" em contraposição com a globalização excludente. Algumas dissertações e teses, ainda tímidas, estão resgatando a questão da universalidade missionária. Estes e outros acontecimentos permitiram certamente maior tomada de consciência sobre a questão e um incremento da abertura além-fronteira. Há algumas resistências ainda sobre os fundamentos e a teologia que veicula a atuação dos missionários, mas não se pode duvidar do fato de que a missão além-fronteira está em sua fase de expansão. O problema do regresso das missionárias e missionários Considerando os dados sobre a estadia dos missionários além-fronteiras, é oportuno refletir sobre a questão dos regressos ou das desistências. Depois do entusiasmo inicial, quantos missionários conseguem permanecer "nos territórios de missão" por um longo período? Qual a média de permanência? As estatísticas não permitem detectar esta variável. Sabe-se, no entanto, que vários regressam por doenças e desânimo, outros por desencanto após os primeiros meses e, outros ainda, valorizam mais uma experiência temporária do que o apelo para a vida toda (ad vitam). Algumas Congregações Religiosas atuam segundo um rodízio de pessoal, focalizando mais o compromisso da Congregação que a vocação ad vitam de seu membro. De certa forma, os dados da pesquisa não permitem focalizar claramente esta problemática por falta de termos de comparação. É oportuno, no entanto levantar estas questões. |
|||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Visite
as outras páginas
[P.I.M.E.] [MUNDO
e MISSÃO] [MISSÃO JOVEM]
[P.I.M.E. - Missio] [Noticias] [Seminários]
[Animação] [Biblioteca]
[Links]