A Igreja no Mundo
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VATICANO: 08/07/2009 Bento XVI apresentou neste dia 7 de Julho a sua terceira encíclica, "Caritas in Veritate" (A caridade na verdade), um texto de 79 pontos, em que se mostra a um mundo ainda abalado pela crise financeira um conjunto de orientações para o mundo econômico e exigências de solidariedade. Lembrar os pobres e os mais desprotegidos no tempo da globalização é o fio condutor do documento, que procura apresentar caminhos para o "verdadeiro desenvolvimento de cada pessoa e de toda a humanidade". O Papa repete a palavra "caridade", que dava o mote à sua primeira encíclica abordando desta feita matérias ligadas ao mundo do trabalho, da economia e do desenvolvimento. Na abertura da encíclica refere-se que há um contexto social e cultural que "relativiza a verdade" e provoca um "esvaziamento" da caridade, o que pode fazer com que "a atividade social acabe à mercê de interesses privados e lógicas de poder". Justiça e bem comum são apresentados como critérios orientadores para o agir, também dos cristãos, embora Bento XVI reafirme que a Igreja não tem soluções técnicas para apresentas, mas "uma missão de verdade para cumprir". "Quando o empenho pelo bem comum é animado pela caridade, tem uma valência superior à do empenho simplesmente secular e político", pode ler-se. Alertas e preocupações O I Capítulo é dedicado à encíclica "Populorum Progressio" (1967), de Paulo VI, retomando "os seus ensinamentos sobre o desenvolvimento humano integral" e pedindo um "verdadeiro humanismo", aberto ao "Absoluto". "Deus é o garante do verdadeiro desenvolvimento do homem", escreve. Neste contexto, é dito que a Igreja tem um papel público a cumprir, "sem olhar a privilégios nem posições de poder", e propõe-se uma "ligação entre ética de vida e ética social", comprometendo cada pessoa "a fim de fazer avançar os atuais processos econômicos e sociais para metas plenamente humanas". A falta de fraternidade entre homens e povos é uma das preocupações apresentas: - "A sociedade cada vez mais globalizada torna-nos vizinhos, mas não nos faz irmãos". O capítulo II aborda a questão do desenvolvimento no nosso tempo, começando com um alerta de Bento XVI: - "O lucro é útil se, como meio, for orientado para um fim que lhe indique o sentido e o modo como o produzir e utilizar". "As forças técnicas em campo, as inter-relações a nível mundial, os efeitos deletérios sobre a economia real duma atividade financeira mal utilizada e majoritariamente especulativa, os imponentes fluxos migratórios, com freqüência provocados e depois não geridos adequadamente, a exploração desregrada dos recursos da terra, induzem-nos hoje a refletir sobre as medidas necessárias para dar solução a problemas que são não apenas novos relativamente aos enfrentados pelo Papa Paulo VI, mas também e sobretudo com impacto decisivo no bem presente e futuro da humanidade", indica. No contexto da crise, surgiu uma renovada avaliação do "papel e poder" dos Estados, com o Papa a pedir "novas formas de participação" na vida política nacional e internacional. A luta contra a fome merece uma chamada de atenção: - "É necessária a maturação duma consciência solidária que considere a alimentação e o acesso à água como direitos universais de todos os seres humanos, sem distinções nem discriminações", observa. Aborto, eutanásia e violações à liberdade religiosa são outras preocupações apresentadas, a que se juntam o "terrorismo de índole fundamentalista, que gera sofrimento, devastação e morte, bloqueia o diálogo entre as nações e desvia grandes recursos do seu uso pacífico e civil". Crise O Papa admite que "as grandes novidades, que o quadro atual do desenvolvimento dos povos apresenta, exigem em muitos casos novas soluções", considerando como prioritário "o objetivo do acesso ao trabalho". Fraternidade, desenvolvimento econômico e sociedade civil são o tema do Capítulo III, em que se alerta contra uma visão "meramente produtiva e utilitarista da existência". Regulação, legislação e redistribuição da riqueza são temas abordados num conjunto de reflexões em que se procura afastar a idéia de um mercado negativo por natureza e se fala da importância das "leis justas" nos Estados para a "civilização da economia". Esta secção conclui-se com uma nova avaliação do fenômeno da globalização, visto como mais do que um mero processo socioeconômico: - "Não devemos ser vítimas dela, mas protagonistas, atuando com razoabilidade, guiados pela caridade e a verdade". No Capítulo VI aparecem as questões direitos e deveres, da ecologia e da ética. Bento XVI fala de uma reivindicação do "supérfluo" que contrasta com a falta de água e alimento em certas regiões subdesenvolvidas. O Papa afirma também que é "errado" considerar o aumento da população como "primeira causa de subdesenvolvimento", lembrando que a queda dos nascimentos "põe em crise os sistemas de assistência social". "Nesta perspectiva, os Estados são chamados a instaurar políticas que promovam a centralidade e a integridade da família, fundada no matrimônio entre um homem e uma mulher, célula primeira e vital da sociedade", acrescenta a encíclica. A colaboração da família humana está no centro do Capítulo V, onde se lê que os cristãos apenas podem contribuir para o desenvolvimento "apenas se Deus encontrar lugar também na esfera pública". O Papa faz referência ao princípio da subsidariedade, como "antídoto" conta qualquer forma de "assistencialismo paternalista". Um maior acesso à educação e um compromisso internacional contra fenômenos como o turismo sexual são indicações de Bento XVI para um desenvolvimento integral, em que se incluem ainda as novas dinâmicas das migrações, impossíveis de resolver "por um país, de forma isolada". A reforma "urgente" da ONU e da atual arquitetura econômica e financeira mundial levam o Papa a defende uma nova e verdadeira "autoridade política mundial". O sexto e último capítulo é dedicado ao tema do desenvolvimento dos povos e da técnica, com aviso em relação à ideologias tecnocráticas. Neste contexto, é referido que "um campo primário e crucial da luta cultural entre o absolutismo da técnica e a responsabilidade moral do homem é o da bioética". Na conclusão, Bento XVI dirige-se aos cristãos e indica que "o desenvolvimento implica atenção à vida espiritual, uma séria consideração das experiências de confiança em Deus, de fraternidade espiritual em Cristo, de entrega à providência e à misericórdia divina, de amor e de perdão, de renúncia a si mesmos, de acolhimento do próximo, de justiça e de paz". Clique aqui para ler toda Carta Encíclica
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