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BRASIL: 09/11/2009
Teologia
Confissões teológico-existenciais de um padre que deixou a Igreja

Deixei o ministério presbiteral, na Igreja Católica Apostólica Romana, há mais ou menos dez meses. Do profundo de uma oportuna crise de identidade, emergiu incontida a pergunta decisiva: - qual a minha função na história? Sim, porque a história é o cenário dinâmico da existência, no qual nossos passos percorrem as sendas do mundo e recolhem as conseqüências de nossas decisões. Sou um manancial de dúvidas, cada vez mais lancinantes. Não tenho tantos absolutos para preservar, pois perdi seguranças que nunca imaginava perder. Elas se foram ao sabor das decepções que ainda me cercam. Senti-me traído por mim mesmo e pelos melhores sonhos que cultivei.

Meio sem rumo, ouso inquirir-me:

- a que sirvo neste universo, repleto de misérias e contradições, muitas das quais residem em meu pobre coração?

Eu me considerava feliz, muito feliz. Faltava-me, como a todo mundo, controlar impulsos, limitar espaços, dialogar mais, aproximar-se menos, enfim, humanizar-se. Uma certa falta de maturidade fez-me cair. Apesar da disciplina que sempre se impus, manifesta em mania de organização e devotamento aos estudos, prendi-me às artimanhas da malandragem afetiva e, mais tarde, do doce e cruel amor humano. Agora, vejo-o claramente. Reergui-me da queda e talvez já seja mais feliz. Aliás, um dos absolutos que fugiram de meus horizontes foi a tão propalada felicidade. Ela parece não existir na maior parte das circunstâncias e dos ambientes, mas tão somente nos arroubos dos poetas e nas melhores ilusões dos claustros. Há momentos alegres, eu sei, cuja soma, no entanto, não preenche nossos vazios nem responde suficientemente às nossas mais insistentes indagações. São instantes repletos de entusiasmo, cuja intensidade e seqüência encantam mais do que satisfazem.

Confesso sentir-me afastado de Deus. Ele tornou-se um estranho perto de mim. É uma presença inevitável, depois de muitos anos de rezas, cantos, liturgias, homilias e reflexões. Tenho a convicção de ser Ele mesmo a felicidade suprema. Só nos aparece através de lampejos, como intermitentes reflexos de lucidez, sem nunca se definirem plenamente num conceito nítido e distinto. Quem é Deus? É o fundamento do ser, um fundamento pessoal, todo simples e também infinito, único, imutável e eterno. É o que me diz a razão, educada na frieza da argumentação escolástica. E as provas da existência de Deus? Quanto rigor e habilidade na análise dedutiva! Motor imóvel, causa primeira, ser por si subsistente, perfeição suprema, inteligência ordenadora... Oh, Deus sublime! Viva Santo Tomás! Viva Jacques Maritain! Ninguém foi tão longe, a meu ver, no desvelamento das causas últimas, à luz da razão. A fé acompanha o raciocínio e acrescenta dados fundamentais, apontando para o Pai celestial, desejoso de nossa realização plena.

Mas a razão não para e não hesita em questionar. Entre a possibilidade metafísica de uma intervenção divina na história e a concretude da realização existencial de tal intervenção, parece-me haver um grande paradoxo. Deus é todo-poderoso, mas é Amor. É Amor onipotente, se assim quisermos nos expressar. Seu poder infinito e a conseqüente possibilidade de agir pontualmente no mundo são aceitáveis quando analisamos os pressupostos e as vias especulativas baseadas no estudo do ser enquanto ser, abstração feita de métodos experimentais e de quaisquer figurações imaginativas. Porém, ao confrontar a nua e crua realidade dos encontros e desencontros do cotidiano, o pensamento tematiza os famosos problemas do mal, da predestinação e da oração de petição. E o meu pensamento, em particular, tem-nos tematizado com insistência e certa rebeldia.

Por que pensar que Deus não quer o mal, mas o permite? Qual a diferença, para um ser que é causa total, onipotente e onisciente de todas as coisas, entre permitir um mal - que teoricamente poderia evitar - e ser responsável por ele? Para mim, é muito mais coerente afirmar: Deus não quer, nem permite, nem tolera mal nenhum, porquanto é Amor e somente Amor. Mas, não é todo-poderoso? Qual a razão de ele não evitar o mal? A resposta está na inevitabilidade de um mundo "parasitado" pelo mal, devido à sua radical limitação e imperfeição. A vida é assim, e eu o tenho experimentado sobremaneira.

Se Deus cria o universo, não pode senão dar a existência a seres carentes, tendentes a uma perfeição nunca alcançável por direito próprio. Se criasse um mundo sem mal, estaria fazendo a si mesmo. A única "culpa" que se poderia imputar ao Criador é a de ter criado o mundo, sabendo da radical imperfeição e afetação pelas mal implicadas no processo. Com o teólogo galego Andrés Torres Queiruga - muito me tem feito pensar esse inquieto e provocante esclarecedor da fé, pergunto-me: vale mesmo a pena a existência do mundo apesar do mal? A fé cristã responde positivamente, apontando para um plano de Deus, orientado completamente para a nossa salvação.

Falar de planos de Deus me incomoda. No tocante à predestinação, eu imaginava ser tomista. Nunca arrisquei ser calvinista, pois achava a idéia de uma eleição incondicional de alguns para a vida e da respectiva reprovação eterna dos outros uma ofensa ao amor divino. Depois, percebi que a diferença entre essa posição e a do tomismo é meramente verbal. De fato, uma reprovação negativa, segundo a qual Deus não predestina alguns para a condenação, mas simplesmente não os elege, não se distingue de uma reprovação positiva exceto por um jogo de palavras. Tanto num caso como no outro, veicula-se a imagem de um Deus seletivo, diametralmente oposta ao que tenho experimentado, apesar dos pesares, de sua discreta ternura.

Nem mesmo o molinismo, pelo menos em sua versão congruísta, consegue escapar do impasse. O molinismo, ao querer resguardar um pouco mais a liberdade da criatura, propugna que Deus, ciente de todas as várias possibilidades, prevê os méritos dos que, em determinada situação hipotética, optariam por Ele e se salvariam e, assim, decreta colocar alguns desses em condições tais que efetivamente se salvem. Porém, ainda são somente alguns os escolhidos, sem prévio chamado, diga-se de passagem, o que mantém a repugnante seletividade da decisão divina. Creio que um molinismo puro ou um arminianismo consigam se sair melhor na explicação desse mistério, fazendo-me entender, em todo caso, por que a Igreja nunca ofereceu uma alternativa cabal às teses predestinacionistas.

Por falar na imagem de um Deus seletivo, o que dizer da oração de petição? Aqui, a leitura de Queiruga me tem ajudado também. Discordo do teólogo espanhol quanto à possibilidade de Deus intervir pontualmente na história. Ele afirma não ser possível, pois uma tal intervenção de Deus reduziria sua ação ao nível das categoriais causas mundanas e anularia a autonomia do criado. Eu, em minha insignificância teológico-filosófica, creio ainda ser justificável a ação divina na história humana, por todas as razões deduzidas dos atributos entitativos e operativos desvendados na argumentação metafísica. Se Deus cria o categorial, por que não pode intervir nele, criando do nada interferências de linhas causais ou novas associações na matéria? Não se pode negar, contudo, a argúcia de Queiruga em outro plano, não o da possibilidade metafisicamente justificável do milagre, mas o da realização existencial dessa possibilidade.

Esse outro plano se mostra na pergunta: - quais os critérios de Deus ao atender nossas preces? Já fiz a experiência de não ser atendido por Deus. Coisa banal, poderiam dizer, mas mudou minha vida e me levou a questionar profundamente meu relacionamento com o sagrado. Seria realmente gratuito o amor de um Deus que nos ajuda somente se lhe pedimos, por vezes com sacrifícios extremos? E por que ajuda a uns e a outros não? Afinal, não se pode negar a "ineficácia" de certas preces, como as que fazemos na oração dos fiéis, na santa missa, suplicando pelas crianças famintas, pelo fim da violência e pela honestidade dos políticos. A experiência tem me mostrado que muita gente reza, e reza com fé - quem seria eu para negá-lo? -, mas não obtém retorno e até morre sem resposta, como os acidentados das estradas e os atingidos por balas perdidas. Nosso Deus é favoritista? Pior: seria Deus um mesquinho, tacanho, galardoando seus bens a quem lhe apraz e deixando os outros padecer os mais atrozes sofrimentos?

Tentei encontrar motivos para as escolhas divinas, mas nada me convenceu. Dizem que o sofrimento é um aprendizado, que a salvação, no fim das contas, é o que interessa, pouco importando se alguém passa por uma dor momentânea. Dizem também que Deus escreve certo por linhas tortas. Tudo isso me cheira a maquiavelismo. Não combina mais com o meu conceito de Deus. Santo Tomás de Aquino chega a dizer que a paciência dos mártires não existiria se não existisse a perseguição dos tiranos! Está lá, na primeira parte, questão 22, artigo 2º, de sua monumental Suma Teológica. Bonito, porém desumano. Prefiro acreditar na inevitabilidade do mal para todos, sem exceções nem favoritismos. Meu papel na história não é estar inserido em um plano especial, no qual haveria escolhidos e privilegiados por Deus.

A providência divina, para mim, identifica-se com a nossa atuação em busca do bem. No bem que praticamos, Deus-Amor atua no mundo e nos impulsiona a transformá-lo. Quanto a uma eventual intervenção de Deus na história, um milagre, não tenho solução. Quem é beneficiado tem todo o direito de sentir-se eleito ou coisa assim. Não acho que seja, pois isso significaria a rejeição dos outros, os quais, observadas as mesmas condições, pediram e não foram atendidos. Talvez Deus esteja, enfim, para além do bem e do mal, parafraseando Nietzsche. Além do bem criado e de todo mal, como um Bem totalmente transcendente, cujos motivos para agir seriam inacessíveis a nossos pobres juízos. Deus teria seus motivos, deixando-nos, quanto a isso, no mais dilacerante e terrível silêncio.

Ainda rezo, mesmo arriscando alimentar, com essa atitude, a imagem de um Deus que pode ajudar, mas que, por algum motivo desconhecido, não o quer ou não o pode naquele momento.

Esse Deus, eu o recuso com veemência. Meu Deus só quer o meu bem e tudo faz para consegui-lo. Se lhe dirijo súplicas por mim, pela minha mulher, pelo meu filho e pelas crianças famintas da África, tento concebê-lo em uma outra esfera de valores, transcendente a meus melhores critérios de bondade, solidariedade, comunhão, saúde e paz. Os valores de Deus seriam os mesmos, porém transcendentalizados, talvez expurgados de interesses imediatos e, sem dúvida, recobertos de segredo. Seriam os valores do Amor, que atua sem escolhas, salva sem privilégios e cura sem razões, pelo menos as nossas razões.

Falei demais de Deus. Pareço ter chegado ao ponto em que, conforme diria Wittgenstein, é preciso calar a respeito do que não se pode mais falar. Tratemos, então, da Igreja: dela há muito para dizer. Não tenho mágoas da Igreja. Em seu seio, aprendi a orientar minha existência segundo princípios basilares, os poucos ainda absolutos em meu tímido universo de discurso. O cristianismo me mostrou serem as circunstâncias meros detalhes, enquanto o essencial é o amor.

Penso ser a fé cristã uma força única na história, propícia para desmascarar o culto da superficialidade, da exterioridade e da aparência, tão espalhado em nossa sociedade pós-moderna. A fuligem das vaidades humanas e as futilidades da beleza transitória desmoronam diante do desprendimento de Cristo e da opção de Deus pelos pobres e perseguidos. Para mim, são esses os ideais característicos da Igreja cristã. Há, sem dúvida, uma distância nunca vencida entre o ideal e o seu cumprimento, e os próprios cristãos devem ser os primeiros a admiti-lo. A conivência com os poderosos opressores, a alienação impeditiva dos esforços libertadores e o contra testemunho do luxo e do poder têm deposto a favor do indiferentismo e do ateísmo.

Entretanto, não se pode negar a validade de um princípio por causa da hipocrisia de alguns "homens de Deus" e das incoerências experimentadas por todos nós, pobres pecadores. Malgrado os maus exemplos, a Igreja continua a ser uma referência da lei da alteridade, a única capaz de redimir a história. Em cada cristão morto por amor à justiça, brilha a verdade de que a missão humana é transcender e existir para o próximo, pois não devemos ser o centro de nós mesmos, sob pena de frustrar-nos eternamente. O bem deve ser feito, e o mal, evitado, eis a norma primeira da consciência expressa nos gestos de libertação dos bem-aventurados discípulos de Jesus. É o que admiro no cristianismo e me faz ainda sentir-me cristão. Impressionam-me as ricas e inspiradoras dialéticas presentes nos dogmas da encarnação (divindade-humanidade) e da redenção (morte-ressurreição), reveladoras do amor infinito de Deus e do caráter vitorioso da luta pela vida.

A Igreja não é só santa e nem pode sê-lo. Pecadores habitam essa casa, tornando-a sempre necessitada de purificação, para usar uma expressão do Vaticano II. Ademais, há coisas na Igreja que atestam não só falta de fé e caridade, mas também falta de inteligência. Não me refiro à capacidade intelectual de ninguém; refiro-me à caduquice de certos esquemas teóricos e disciplinares. São normas e proibições alheias às reais exigências do povo, sem qualquer nexo com o atual paradigma civilizacional, naquilo que ele tem de positivo e libertador.

Canonização de métodos naturais de planejamento familiar e demonização dos artificiais, condenação do divórcio, mesmo em casos de adultério, e quase toda a pregação de moral sexual católica estão afetadas de um imobilismo só explicável pelo desejo, talvez inconsciente, de dominar mais facilmente as consciências. É um desejo frustrado pelo visível dissenso, na maioria dos fiéis da Igreja Católica, em relação a essas questões.

O medievalismo da moral sexual é felizmente contrabalançado pela profundidade, consistência e adaptação da moral social. A doutrina social da Igreja e a teologia da libertação, embora em campos distintos e algumas vezes conflitantes, são exemplos dos benefícios que o cristianismo pode trazer para a melhoria das relações humanas e o desbaratamento das injustiças globais, e isso sem fixismos abstratos e discursos fundamentalistas.

E o tema do celibato? Não é o mais importante, mas tem ocupado um espaço considerável de minhas últimas divagações. Em si, é um carisma sublime e típico de corajosos. Respeito sobremaneira quem consegue vivê-lo numa sociedade tão erotizada como a nossa. A sexualidade é um dado irrenunciável; a vivência da genitalidade no ato sexual, uma opção.

Posso atestar: há homens verdadeiramente célibes, capazes de renunciar a uma vida sexual e a uma família para realizar a vocação de total entrega a Deus e aos irmãos. O problema não é o carisma em si mesmo. O problema é a obrigatoriedade do celibato para os presbíteros da Igreja de rito latino, que congrega cerca de 98% dos fiéis da Igreja Católica Apostólica Romana. O próprio fato de outros 2% viverem e celebrarem sua fé em ritos (igrejas de direito próprio) que deixam o celibato opcional para os padres, sem perder a comunhão total com o papa, manifesta o caráter meramente disciplinar do celibato compulsório. Sem ser dogma de fé, a vida celibatária dos padres tem sido, no correr da história do Ocidente, o ideal de relacionamento do clero, com as defecções e escândalos conhecidos de todos. Já passou da hora de mudar!

Recentemente, a Santa Sé aprovou a criação de ordinariatos pessoais para acolher na Igreja Romana uma leva de anglicanos conservadores dissidentes. Os ministros provindos dessa divisão na Comunhão Anglicana poderão, mesmo com família, ser ordenados como presbíteros católicos. Não precisarão ser celibatários. Mais uma demonstração da relatividade de uma disciplina cujas motivações mais profundas não são nada bíblicas. A Igreja ganharia muito mais em humanidade se adotasse, para todos os presbíteros de rito latino, o celibato opcional, como acontece nos ritos orientais e nas comunidades de ex-protestantes unidos a Roma.

Assim, quem sentisse dentro de si os sinais de uma vocação sagrada, aliada a um modo de vida conjugal, pensando em também constituir uma família, teria o seu espaço reconhecido na Igreja Latina:

- casar-se-ia e depois seria ordenado, colaborando na construção do reino de Deus.

Não se pede mais nada do que tornar livre o que hoje é obrigatório, por exemplo, para os padres do Brasil, com graves conseqüências pastorais, não só por causa do grande número de comunidades sem eucaristia pela carência de presbíteros. A meu ver, não é o fator numérico o mais importante. Penso em qualidade. A Igreja ganharia em qualidade caso pudesse contar com ministros presbiterais casados, pais de família, com a experiência necessária para orientar casais e aconselhá-los na vivência da paternidade, além de tornar o âmbito do sagrado algo bem mais "familiar" em nossas comunidades.

Quanto aos padres egressos do ministério, que constituíram família e foram privados de suas incumbências pastorais, a abordagem me parece mais delicada. Largaram a batina, como se diz ainda hoje em nosso país, mas não deixam de ser padres, segundo a própria Igreja. Mesmo quando perdem seu estado canônico clerical e se privam juridicamente de seus direitos e deveres de clérigos, permanecem ontologicamente clérigos, pois o sacramento da ordem, quando validamente administrado, confere um caráter indelével para os católicos. São padres e são casados, algumas vezes no religioso, caso recebam a difícil dispensa do papa, mas são freqüentemente alijados até da prática pastoral facultada aos leigos.

Sou desconfiado de supostos planos de Deus, já o disse, sobretudo, os excludentes. Não me considero um escolhido, pelo menos não mais que os outros seres humanos. Entrei no seminário com 13 anos de idade. Fiquei 3 anos no seminário menor e 7 anos no maior, cursando filosofia e teologia. Sempre fui ciente das exigências da missão sacerdotal, incluído o celibato. Quanto me ordenei diácono - é na ordenação diaconal que o clérigo latino faz a promessa do celibato, tinha meus 22 anos e experimentei um dos momentos mais alegres de minha vida.

Ordenei-me padre um ano e meio depois. Era, na época, reitor do seminário menor de minha diocese, onde pude colaborar na formação dos futuros padres. Sempre considerei a formação sacerdotal um tanto quanto deficitária no campo humano-afetivo. Nos seminários, fala-se pouco de sexualidade. Há um clima de desconfiança, e o próprio celibato é tratado mui superficialmente, sem o enfrentamento direto de assuntos polêmicos, como a masturbação e a homossexualidade. É uma deficiência estrutural, a qual decorre, em grande parte, da insegurança da instituição diante das novidades da psicologia, da sexologia e da própria ética sexual.

Meu afastamento do ministério não se deu de repente. Sentia-me realizado em minhas atividades pastorais. As pregações, as palestras, os vários artigos catequéticos, os encontros de formação com os leigos, os sacramentos, tudo isso me alegrava bastante. Porém, sempre tive problemas com o celibato. Fiz a promessa ainda jovem e sinto hoje o peso de uma decisão errônea. Foi uma decisão consciente e livre: não fui pressionado por nada. Só que consciência não implica sempre maturidade e, às vezes, sobra precipitação. Não culpo ninguém, só a mim mesmo e, é claro, a existência. Esta significa uma visceral possibilidade, é "poder-ser", é "ir-para-diante", conforme definiria Heidegger. Nada é seguro, a não ser a morte, cujo caráter inexorável revela a nulidade dos projetos humanos. Meu projeto de vida celibatária falhou.

Mudei de vida e de opção fundamental. Não me arrependo nem um pouco, pois descobri dimensões novas da existência, como a fascinação de sentir-me genitor. Minha companheira tem sido um facho de luz em meu caminho, ensinando-me, mais do que qualquer livro já fez, a experimentar as alegrias do mundo com assertividade e coerência, sem as dissimulações e escapatórias de uma vida dupla, da qual hoje me enojo. Penso em tantos colegas ainda presos a tal duplicidade, dolorosamente divididos entre uma paixão e um ideal, ambos legítimos, porém irreconciliáveis na disciplina eclesiástica. Tornar opcional o celibato não eliminaria todas as vicissitudes da existência sacerdotal, freqüentemente marcada pelas dúvidas e rupturas, mas valorizaria o carisma naquilo que ele manifesta de mais belo: a pura liberdade frente a qualquer imposição estabelecida.

Se me dessem a opção de voltar para o ministério, casado e com filhos, não sei se o faria. Torço sinceramente para que o dispositivo canônico do celibato obrigatório seja revogado, embora acredite que não viverei para ver isso. Muitas outras reformas pedem para acontecer na Igreja. Enquanto não acontecem, procuro guardar o bem que aprendi a realizar e fazer a minha parte na construção de um mundo melhor. Antes, inspirado numa eclesiologia à Karl Rahner, acreditava na mediação institucional da religião como algo antropologicamente necessário, suposta a sociabilidade do ser humano até em seu relacionamento com o sagrado. Hoje, esse é mais um princípio não tão absoluto para mim.

Tenho descoberto muitas luzes na vivência particular da fé. Constituí uma família e, quando penso na educação do meu filho, deixo a escolha de uma religião para minha mulher (atributo da sensibilidade feminina, eu acho), e eu prefiro escolher o time de futebol dele (será um são-paulino roxo, eu garanto!). Obviamente, considero a partilha da fé e do amor feita nas diversas comunidades cristãs um elemento importante para a espiritualidade. As igrejas são instrumentos fundamentais para a promoção integral do homem e da mulher.

Não conseguimos amar a Deus sozinhos, porquanto não podemos amar-nos uns aos outros sem a presença do próximo. No entanto, precisamos relativizar a institucionalização da fé, sobretudo em seus aspectos de centralismo e dominação. Somos capazes de organizar-nos para amar a Deus e os irmãos sem ter de estruturar-nos tão rígida e burocraticamente. A vitalidade e a criatividade do Espírito devem sempre prevalecer, não só nas organizações religiosas, mas também nas ONGs e nos movimentos sociais, expressões legítimas do empenho popular, imprescindível para a transfiguração deste mundo.

Resta-me procurar espaço na atual configuração da sociedade civil. Há trabalho abundante para as pessoas de boa vontade comprometidas com uma sociedade justa e solidária, pela qual todos nós ansiamos. Minha função história, já posso divisá-la. Não o sei com certeza matemática, mas me vem, quase sem querer, uma intuição arredia, denunciando a beleza e a insistência da vida. E aí se constrói uma resposta: estou aqui para amar, para fazer o bem, e isso me basta. É um consolo e um grande incômodo conhecer essa missão. Consolo, porque percebo uma sutil continuidade com o meu passado, tão trágico quanto sereno; incômodo, porque pressinto ter de transformar várias instâncias de meu ser, à medida que puder enxergar com mais nitidez as exigências de novos relacionamentos.

Tarcísio Bráulio Gonçalves - Bacharel em Teologia pela Universidade Católica de Goiás e especialista em Filosofia e Existência pela Universidade Católica de Brasília




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