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VATICANO: 07/08/2008
Testemunho
Paulo VI: corajosa testemunha da Verdade de Cristo
Há 30 anos, a 06/08/1978, festa da Transfiguração
do Senhor, tornava à Casa do Pai, o Papa Paulo VI. Humilde e corajosa
testemunha da Verdade, apóstolo da paz, homem do diálogo
entre os povos e as culturas, que soube levar a cumprimento, com sabedoria
e abertura de espírito, o Concílio Vaticano II. Vamos evocar
hoje, nesta rubrica dedicada a “factos e personagens da história
da Igreja”, esta nobre figura de homem de Deus.
E começámos por evocar as palavras
com que se lhe referiu o actual sucessor, Bento XVI, domingo passado,
ao meio-dia, em Bressanone, nos Alpes italianos, onde se encontra de férias:
- “Como supremo Pastor da Igreja, Paulo VI guiou
o povo de Deus à contemplação do rosto de Cristo
Redentor do homem e Senhor da história. Esta amorosa orientação
da mente e do coração para Cristo foi precisamente um dos
pontos centrais do Concílio Vaticano II, uma atitude fundamental
que o meu venerado predecessor João Paulo II herdou e relançou
no grande Jubileu do ano 2000.
No centro de tudo, sempre Cristo:
- no centro das Sagradas Escrituras e da Tradição,
no coração da Igreja, do mundo e de todo o universo”.
“Fidem servavi” (conservei a fé):
- nesta expressão paulina, pronunciada poucos
dias antes da sua própria morte, está condensado todo o
pontificado de Paulo VI.
Um Papa sereno e firme, enamorado da Verdade, que guiou
a barca de Pedro em anos tempestuosos para a Igreja e para o mundo.
Eleito a 21 de Junho de 1963, o Papa Montini
confrontou-se desde lado com um desafio histórico:
- levar ao seu cumprimento o Concílio Vaticano
II, nascido de uma intuição profética de João
XXIII, mas que após os entusiasmos iniciais corria o risco de se
bloquear.
Na Missa do início do pontificado, a 30
de Junho de 1963, Paulo VI não esconde as suas preocupações
e propõe aos fiéis a sua visão da Igreja:
- “Defenderemos a santa Igreja dos erros de doutrina
e de costumes, que dentro e fora dos seus confins ameaçam a sua
integridade e desfeiam a sua beleza; procuraremos conservar e incrementar
a virtude pastoral da Igreja, que a apresenta livre e pobre, na atitude
que lhe é própria, de mãe e mestra, amorosíssima
com os seus filhos, os fiéis, respeitosa, compreensiva, paciente”.
Três meses depois, a 29/09, Papa Montini preside
à solene abertura da segunda sessão do Concílio.
No seu discurso, enumera as quatro finalidades
deste extraordinário acontecimento:
- o aprofundamento e a exposição doutrinal
do mistério da Igreja; a sua renovação interior;
o incremento da unidade dos cristãos e o diálogo da Igreja
com o mundo contemporâneo.
Paulo VI, que tomara parte, como arcebispo de Milão,
à primeira sessão conciliar, não se limita a ser
um mero, digamos assim, “notário do Concílio”.
Segue com cuidado e paixão os trabalhos conciliares, intervém
do melhor modo nas circunstâncias mais delicadas. E no discurso
de encerramento do Concílio Vaticano, o Pontífice exprime
sentimentos de alegria e comoção.
“Este Concílio confia à história
a imagem da Igreja católica representada por esta assembleia, cheia
de Pastores que professam a mesma fé, que respiram a mesma caridade,
associados na mesma comunhão de oração, de disciplina,
de actividade, e – aspecto admirável – todos desejosos
de uma só coisa – oferecerem-se a si próprios, como
Cristo nosso Mestre e Senhor, pela vida da Igreja e pela salvação
do mundo”.
Nos seus quinze anos de pontificado, Papa Montini empenhar-se-á
decididamente a favor da paz no mundo, também pelo reforço
da dimensão missionária da Igreja, sublinhada na Exortação
“Evangelii nuntiandi”. Institui uma Jornada da Paz, a celebrar
no primeiro de Janeiro de cada ano. E faz-se apóstolo da paz até
aos confins da terra, com as suas nove viagens apostólicas internacionais
que o levarão a tocar todos os continentes.
Memorável o seu discurso à assembleia
das Nações Unidas, em Nova Iorque, a 04/10/1965, com o seu
vibrante apelo contra a guerra:
- “Nunca mais a guerra, numa mais a guerra!
É a paz, é a paz que deve guiar a sorte
dos Povos e de toda a humanidade!” Paulo VI não é
indiferente ao sofrimento das nações africanas dilaceradas
pela miséria. Em 1967 publica a Encíclica “Populorum
progressio”. “O desenvolvimento – escreve – é
o novo nome da paz”. Mas – explica – há-de ser
um “desenvolvimento integral”, visando “a promoção
de cada homem e do homem todo”. Com o Concílio, a Igreja
actualiza-se (“aggiornamento”), renova-se profundamente.
Muitos, porém, querem dar uma interpretação
ou progressista ou conservadora, sem captar o autêntico significado
do acontecimento. As turbulências pós-conciliares muito farão
sofrer Paulo VI, que nunca deixará de testemunhar a Verdade, convencido,
como Santo Agostinho, de que a felicidade… é precisamente
“a alegria da verdade” (“gaudium de veritate”).
O caso mais evidente, neste sentido, é a publicação
em 1968 da “Humanae vitae”.
Esta Encíclica, centrada sobre o amor conjugal
responsável, reafirma o “não” da Igreja ao uso
dos sistemas artificiais de contracepção. Naquele 68 –
ano símbolo da contestação – Paulo VI torna-se
objecto, mesmo no interior da Igreja católica, de críticas
cáusticas, que por vezes degeneram mesmo em insultos. E contudo
tinha sido, para o Papa Montini, uma decisão bem pesada, longamente
meditada.
A 04/08/1968, por ocasião do Angelus,
o Papa expõe com límpida coerência, as respectivas
razões:
- “A nossa palavra não é fácil,
não é conforme a um uso que hoje em dia se vai difundindo
como cómodo e aparentemente favorável ao amor e ao equilíbrio
familiar.
Queremos recordar que a norma por nós reafirmada
não é nossa, mas é própria das estruturas
da vida, do amor e da dignidade humana”. Promotor da “civilização
do amor”, Paulo VI aliará aos seus esforços pela paz,
um constante e frutuoso empenho ecuménico, na convicção
de que, só unidos, os cristãos poderão ser factor
de reconciliação entre os povos. Histórico o seu
encontro em Jerusalém com o Patriarca de Constantinopla, Atenágoras,
em 1964. O seu abraço fraterno comove tanto os católicos
como os ortodoxos.
No ano seguinte, é finalmente revogada a excomunhão
que as duas Igrejas tinham cominado uma à outra em 1054. Passos
em frente se deram também no diálogo com os anglicanos.
Em 1966, Paulo VI encontrou-se com o arcebispo de Cantuária, Michael
Ramsey. Três anos depois, em Genebra, de visita ao Conselho Ecuménico
das Igrejas. Dotado de grande sensibilidade, em 1978, precisamente nos
últimos meses da sua existência terrena, Papa Montini vive
um momento especialmente dramático de seu amigo Aldo Moro.
Numerosos e vibrantes foram os apelos que dirigiu
directamente aos “homens das Brigadas Vermelhas”, a começar
pelo Angelus de 19 de Março, três dias depois do sangrento
sequestro de Via Fani:
- “Rezemos conjuntamente por todos os que nestes
dias sofrem, sentindo bem funda em si mesmos a marca da paixão
de Jesus:
- pelas famílias que choram os seus mortos, dizimados
no exercício do seu dever por um insensato ódio homicida
que mais uma vez quis minar a pacífica convivência social;
rezemos pelo presidente do conselho Aldo Moro, a nós tão
caro, sequestrado numa vil emboscada, com o mais vibrante apelo a que
seja restituído aos seus familiares”.
Homem de grande cultura, amante da arte e da literatura,
Paulo VI redescobriu o valor do mecenatismo, da Igreja que encomenda obras
de arte. O escultor Manzú e o arquitecto Nervi foram alguns dos
artistas mais conhecidos que trabalharam para a Santa Sé durante
o seu pontificado. O Papa Montini potenciou a Rádio Vaticano e
a Academia das Ciências, exortou os homens de cultura a servirem
a verdade, a promoverem a dignidade do homem criado à imagem de
Deus. De entre os tantos frutos do seu ministério petrino, há
que recordar também a reforma litúrgica na sequência
do Concílio Vaticano II, a reforma da Cúria Romana e a celebração
do Ano jubilar de 1975.
A 29/06/1978, a pouco mais de um mês da
sua morte, Paulo VI podia afirmar, como São Paulo, ter combatido
a boa batalha do Evangelho:
- “O nosso ofício é o mesmo de Pedro,
ao qual Cristo confiou o mandato de confirmar os seus irmãos:
- é o ofício de servir a verdade da fé…
Eis, Irmãos e Filhos, o desejo incansável,
vigilante, esgotante, que nos moveu nestes quinze anos de pontificado.
‘Fidem servavi’! (conservei a fé) podemos dizer hoje,
com a humilde e firme consciência de nunca ter atraiçoado
a santa verdade”.
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