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EQUADOR: 18/08/2008
CAM 3
Dom Erwin Kräutler “Os pobres são os destinatários
privilegiados da missão”
Cantando o refrão “Vai ser tão bonito
se ouvir a canção”, os brasileiros, até então
bastante contidos, receberam com entusiasmo o bispo do Xingu (PA), dom
Erwin Krätler, para conferência que proferiu na manhã
desta sexta-feira, 15, em Quito (Equador), durante o 3.º Congresso
Americano Missionário e 8.º Congresso Latino-americano Missionário
(CAM3-Comla8). “Saúdo com alegria os brasileiros aqui presentes
e lhes peço permissão para fazer um ato de amor, uma obra
de caridade para com outros irmãos latino-americanos. Peço-lhes
permissão para falar em espanhol”. Assim o bispo iniciou
sua conferência sob os aplausos dos mais de 3 mil participantes
do Congresso. Destacando que a Igreja é por natureza missionária,
o bispo do Xingu afirmou que a “missão é o coração
da Igreja”.
“E esse coração tem dois movimentos,
envio e convocação; envio à periferia do mundo e
convocação, a partir dessa periferia, para a libertação
do centro. Sob a senha do Reino propõe um mundo sem periferia e
sem centro”. Para ele os destinatários privilegiados da missão
“são os pobres, os mal empregados e os desempregados, os
migrantes, os que morrem antes do tempo por não terem um serviço
de saúde que os ampare”. “Como ser feliz no meio de
um mundo sofrido?”, perguntou o conferencista para, em seguida,
lembrar o cantor Gonzaguinha, viver e não ter a vergonha de ser
feliz, refrão que os brasileiros cantaram com vibração,
admirados pela assembléia. “O nosso otimismo missionário
não foge da realidade, do sofrimento e dos pobres, vítimas
das cinco grandes crises do nosso planeta terra que são a crise
do modelo econômico, a crise social, a crise ecológica, a
crise cultural e a crise democrática”, disse.
Segundo dom Erwin, diante das conseqüências
destas crises, há 5 tarefas a cumprir:
“criar ou sustentar um certo bem-estar econômico
(material) de todos seus cidadãos; promover a coesão e solidariedade
social interna; garantir o reconhecimento cultural (étnico, religião,
gênero, faixa etária) do outro num pacto de tolerância;
zelar pela liberdade e participação política de todos
num sistema democrático cujo funcionamento não depende do
tráfico de influência do grande capital; instalar um sistema
jurídico que garanta a aplicação da lei para todos
e iniba a corrupção em todas as instâncias, inclusive
no próprio aparelho de justiça”. Com seu estilo profético,
dom Erwin fez uma veemente defesa dos direitos dos pobres e excluídos.
“Não devemos entrar no jogo de alternativas
perversas:
- democracia com fome e miséria, ou bem-estar
material sem participação, sem liberdade política
e sem horizonte de sentido, ou prosperidade econômica do país
com ditadura e fome (o país vai bem, o povo mal), ou prosperidade
política e econômica para as elites e miséria para
o povo”, disse arrancando aplausos da multidão.
Ele condenou os sistemas que tentam impedir a Igreja
na sua missão de defender os pobres. “O poder seja expressão
de regimes coloniais, imperiais, ditatoriais ou até democráticos,
procurou sempre transformar a missão em ideologia e neutralizar
a presença da Igreja junto aos pobres cuja existência denuncia
a violação de seus direitos e culturas pelos respectivos
regimes”. O bispo do Xingu insistiu que o compromisso da missão
é com a universalidade, a unidade na diversidade e a gratuidade.
“É bom lembrar, Jesus não foi pedreiro.
Não construiu muros. Ele foi carpinteiro, fez portas e janelas”,
disse ao se referir à unidade que deve caracterizar a missão.
“Ao contar a parábola do bom samaritano, Jesus propõe
derrubar não só o muro étnico entre samaritanos e
judeus, entre mestiços impuros e judeus puros, o muro clerical
entre sacerdotes e leigos, mas também o muro entre seita marginalizada
e religião oficial, entre justos e pecadores, entre discurso e
práxis, entre verdade e amor”, completou.
Ao concluir sua conferência, dom Erwin
lembrou que a Igreja da América Latina tem diante de si três
alternativas:
- amedrontada, enterrar os muitos talentos que recebeu;
inserir-se no sistema capitalista e propor pequenas melhorias ou intervir
com sinais de justiça no mundo injusto e lançar as sementes
do Reino “A Igreja de Aparecida assumiu essa intervenção
e ruptura como serviço aos pobres.
Ela prometeu não apenas ser advogada dos pobres,
mas a sua casa. Como casa dos pobres, a Igreja será casa de esperança”,
concluiu. Nas arquibancadas, no meio do povo, o arcebispo de Tegucigalpa
(Honduras), cardeal Óscar Maradiaga, vibrava a cada afirmação
de dom Erwin. “Bravo, muito bom, belíssimo”, dizia
acompanhando os contínuos aplausos dos congressistas que interrompiam
dom Erwin a todo momento.
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