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A convivência possível: 04/04/2007

A origem e diversidade da vida intrigam o homem desde os tempos pré-históricos. Praticamente todas as tribos humanas já se perguntaram de onde viemos e se existe Deus ou vida após a morte. Como fruto dessas indagações, várias culturas desenvolveram mitos que explicam como o mundo surgiu e como os seres vivos passaram a viver nele. A ciência também investiga algumas dessas questões, por meio da observação de fatos e fenômenos, propondo hipóteses que são testadas e eventualmente descartadas ou substituídas por outras melhores. As semelhanças e diferenças entre os seres vivos, por exemplo, são estudadas pelos biólogos de várias maneiras. Comparam-se comportamentos de diferentes animais, os ambientes onde eles vivem, e suas semelhanças na forma do corpo, dentre outros aspectos. Esses estudos sustentam que, dentre as várias hipóteses para explicar a origem e diversidade da vida, a mais robusta é a de que todas as espécies descendem de ancestrais comuns que viveram no passado.

Nós, por exemplo, somos descendentes dos mesmos ancestrais que deram origem aos chimpanzés e gorilas. As Ciências Biológicas defendem, ainda, que a vida surgiu no nosso planeta há mais de 3,5 bilhões de anos e, ao longo das sucessivas gerações, os seres vivos vêm se modificando. Sob a perspectiva científica, portanto, não é possível sustentar que os seres vivos foram criados independentemente uns dos outros, em seis dias, e há poucos milhares de anos atrás. É importante ressaltar, entretanto, que a ciência não possui explicações para todas as nossas perguntas, pois há várias questões que simplesmente não são testáveis pelos métodos científicos tradicionais. Embora a Biologia explique a origem do homem (de onde viemos), ela não nos informa para onde vamos, nem sobre a existência ou inexistência de Deus ou da vida após a morte. Como disse o ilustre paleontólogo Stephen Jay Gould, essas questões se referem a problemas morais a respeito do valor e do significado da vida e seu debate deve ser conduzido por um magistério diferente, muito mais antigo que o da ciência.

Trata-se da religião, que não se baseia no uso de métodos científicos, mas em dogmas de fé. Para citar antigos clichês, a ciência se interessa pelo tempo, a religião pela eternidade. A ciência estuda como funciona o céu, a religião como ir para o céu. O impacto da morte recente do Papa João Paulo II, que emocionou profundamente povos com as mais diferentes culturas, é um exemplo do reconhecimento da importância da religião para a humanidade. Algumas religiões, as chamadas fundamentalistas, interpretam as escrituras literalmente, e por isso são incompatíveis com as proposições defendidas pela biologia. Outras entendem que a Bíblia reúne reflexões sobre condutas humanas, sob a perspectiva da ética e da moral e que, para compreender o significado das escrituras, é necessário interpretar as mensagens e não as palavras concretas. Essas interpretações, mais flexíveis, permitem considerar os seis dias da criação como eras geológicas, por exemplo, e não dias com 24 horas.

Sendo assim, torna-se possível conciliar a ciência com a religião desde que se respeite a autoridade e limitações de cada uma. As ciências têm ferramentas poderosas para nos ajudar a entender como funciona o mundo. A religião nos ajuda a viver nele com sabedoria. Cada um tem de ter a liberdade de escolher qual religião quer seguir, e respeitar os que fizeram opções diferentes; afinal trata-se de fé. Se respeitarmos a diversidade, que os biólogos não se cansam de mostrar, teremos condições de contribuir para a construção de uma sociedade mais tolerante, inclusive com relação às diferentes convicções. A tolerância, segundo a Unesco, é o respeito, a aceitação e o apreço da riqueza e da diversidade das culturas de nosso mundo, de nossos modos de expressão, e de nossas maneiras de exprimir nossas qualidades de seres humanos. É fomentada pelo conhecimento, pela abertura de espírito, pela comunicação e liberdade de pensamento, de consciência, e de crença. A tolerância é a harmonia na diferença. Não é só um dever de ordem ética. É igualmente uma necessidade política e jurídica. A tolerância é uma virtude que torna a paz possível e contribui para substituir uma cultura de guerra por uma cultura de paz. A Biologia nos ensina de onde viemos, e nos mostra que somos diferentes uns dos outros. A religião, desde que acompanhada pela tolerância, pode nos ajudar a decidir com sabedoria para onde queremos ir.

Assessoria de Comunicação da UnB

Rosana Tidon

São Paulo
Previsão para 04 de Abril
[atualização: 04/04 - 08h.00]


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