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LIBÉRIA: 04/11/2004
Novos Conflitos
"Em Monróvia, explode a tensão
latente em anos de violências e frustrações"
"Parece que retornamos um ano atrás e estamos revivendo o
clima de violência e anarquia que há anos domina a Libéria"
- diz à Agência Fides, Pe. Mauro Armanino, superior regional
da Sociedade das Missões Africanas (SMA) de Monróvia, depois
dos atritos que provocaram ao menos 4 mortos e vinte feridos. "A
cidade está em calma, envolvida por um silêncio irreal, com
o toque de recolher. Os automóveis não circulam, e pelas
ruas vêem-se somente poucos pedestres" - diz o missionário.
A cidade está sendo patrulhada pela força de reação
rápida, constituída por militares irlandeses das Nações
Unidas, que deslocaram ao país 15 mil homens para controlar a manutenção
da paz e desarmar as milícias. O processo de desarme deve ser declarado
encerrado amanhã, 31 de outubro. Durante os atritos, entre a noite
de quinta, 28 de outubro, e a manhã de 29 de outubro, foram saqueados
diversos edifícios, entre os quais igrejas e mesquitas.
"Mais do que um atrito religioso, diria que se trata da explosão
de tensões latentes, derivantes de anos de violências e frustrações"
- diz Pe. Armanino. "Durante a presidência de Charles Taylor,
por exemplo, os Mandingas, que são em maioria muçulmanos,
foram expulsos de suas casas e seus terrenos foram confiscados e distribuídos
entre os correligionários do então Presidente. Não
é um caso que o principal grupo de guerrilha oposta a Taylor, o
LURD (Liberianos Unidos pela Reconciliação e a Democracia)
seja formado em grande parte por Mandingas.
Agora, aqueles que perderam casas e terrenos estão tentando reavê-los.
É claro que nascem tensões e violências". "Os
atritos de ontem têm três causas. O primeiro, como disse,
são as tensões do passado. Há também os novos
equilíbrios do poder, ainda em fase de estabilização.
Mas o fator mais importante são as condições da maior
parte da população. Não obstante o ano de trégua
e a presença de numerosas agências das Nações
Unidas, as condições de vida das pessoas melhoraram pouco.
Faltam casas, trabalho, e em algumas famílias, até comida"
- diz Pe. Armanino.
"Ao mesmo tempo, impõe-se um modelo inalcançável
para a maior parte dos liberianos. Faço somente um exemplo. Está
para ser lançada no mercado em Monróvia a segunda operadora
de telefones celulares. É possível que em uma cidade na
qual faltam água e eletricidade em vários bairros, exista
uma demanda de telefones celulares que justifique a criação
de uma segunda operadora telefônica?" pergunta-se o missionário.
"Os jovens que combateram na guerra civil vêem seus líderes
enriquecerem-se e querem também participar deste banquete, no único
modo que conhecem, ou seja, com a violência" - conclui Pe.
Armanino.
Fides
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