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BRASIL: 05/03/2010
Campanha da Fraternidade
Uma Política Econômica do poder do dinheiro para o dinheiro

Num mundo cada vez mais governado pelo dinheiro e orientado para o lucro, a Campanha da Fraternidade traz ao presente a advertência feito por Jesus quando o dinheiro ainda não era o ídolo maior:

- Não podeis servir a Deus e ao dinheiro.

Tal afirmação pode provocar reações superficiais de rejeição ou levar a um questionamento:

Para que é que vivemos? O que é que queremos na vida?

Neste mundo de confusão de valores existe um valor que ninguém questiona: - O dinheiro.

Quanto a Deus, muitos duvidam até da sua existência e não têm certeza que é aquele que existe por si mesmo, que não é feito por outro e é o criador do mundo e do homem que dele recebeu a missão de colaborar na obra da criação.
Tal verdade parecia conquista definitiva da filosofia dos gregos e da revelação da Bíblia, mas agora prevalecem as teorias do ateísmo, as práticas do materialismo, e as dúvidas do agnosticismo e do relativismo que negam a possibilidade de certezas e perguntam com Pilatos: - O que é a verdade?

O Depósito Compulsório dos Economistas que têm medo do Crescimento

Não sou economista, mas não tenho medo de questionar os argumentos apresentados por doutores em economia. O mais arrogante deles costuma chamar de ignorantes a todos que não concordam com suas teorias fabricadas para defender os interesses do capital financeiro que é o patrão dos economistas. Depois de aliviar um pouco o freio do compulsório diante da crise econômica mundial, o Banco Central já está aumentando de novo esse confisco de dinheiro. Por que será que os bancos não reclamam? Para que deixar mais 71 bilhões parados? Vejo uma confusão entre causas e objetivos, entre razões alegadas e motivos reais.

Alegam os donos da política econômica que precisam "enxugar o mercado" para controlar o bicho papão da inflação. Economistas do atraso querem segurar o consumo em vez de incentivar a produção. Investimentos na produção precisam de juros baixos, mas o capital financeiro quer o lucro maior dos juros maiores. Será que algum economista não sabe que o dinheiro é sujeito à lei da oferta e da procura, como outra mercadoria qualquer? Não é por isso mesmo que fazem de tudo para segurar o valor do dinheiro e poder cobrar os juros que querem?

Temos aqui o pior do capitalismo, aquele que faz o dinheiro produzir dinheiro para quem já tem, em vez de fazê-lo produzir desenvolvimento com investimentos a juros viáveis. Alegando que os juros precisam ser altos para limitar o crescimento e proteger o povo contra o espantalho da inflação, o Copom já quer aumentar seus juros de novo. Na realidade, o interesse maior do capital está no juro real, na distância entre inflação e juro nominal. Gostam do Real forte que ajuda a preservar o valor do seu dinheiro e pode ajudar a segurar a inflação atual, mas é caminho seguro para novos apertos no setor produtivo e novos problemas nas contas do país.

Jornais de hoje trazem duas páginas inteiras de propaganda do Banco do Brasil. Recebendo tanto dinheiro dos bancos, a imprensa vai ter interesse em publicar algum texto que venha questionar a política econômica que favorece os bancos e outros donos do dinheiro? Num ano de crise financeira, o BB teve um lucro acima de dez bilhões, e o Itaú e o Bradesco também. Diz a propaganda que o BB é o único banco que tem a maior parte do seu lucro investido no país. Para onde vai? A outra parte, e o lucro de outros bancos "estatais", para onde vai?

Apesar do lucro fabuloso, o BB ainda quer aumentar o seu capital em 8 a 10 bilhões com a venda de novas ações. Qual será a parte que vai para estrangeiros? Temos uma desnacionalização progressiva da indústria, dos bancos, do agronegócio e de propriedades rurais, do comércio e de outros serviços. Não sei qual é a participação dos estrangeiros em outras Estatais, mas na "nossa" Petrobrás já está acima de 30%. Qualquer Estatal existe para o povo, mas para certos economistas o Banco do Brasil precisa primeiro garantir o lucro dos acionistas.

Empresas devem aprender a arte difícil de servir a dois senhores, ao povo e aos donos, mas o Governo e as empresas públicas precisam estar a serviço do bem comum. O Governo Lula tinha necessidade de um freio de arrumação, para superar uma desvalorização exagerada do Real. Mas foi eleito para mudar e já podia ter mudado as prioridades. Ajudou a melhorar a vida de milhões de pobres pelo Bolsa Família, mas entrega dez vezes mais aos ricos, em juros sobre a dívida pública interna, uns 150 bilhões por ano, muito mais do que investe em educação, na infraestrutura e na saúde. Está na hora de mudar. A Campanha da Fraternidade quer provocar reflexões sobre os problemas da economia e da ecologia, na esperança de contribuir para que o dinheiro seja para o homem, e não o homem para o dinheiro. A humanidade inteira precisa enfrentar o esgotamento iminente dos recursos naturais.

Países e pessoas devem aprender a superar a mentalidade egoísta que diz: - Farinha pouca, meu pirão primeiro.

As palavras economia e ecologia têm a mesma raiz: - Conhecimento da casa e administração da casa.

Devemos unir as forças para enfrentar os desafios do presente e preservar nossa casa comum para o futuro. Desenvolvimento sim, desperdício não.

Clique aqui para abrir em PDF a Cartilha da Campanha da Fraternidade

Jequié, 26 de Fevereiro de 2010

Dom Cristiano Krapf *

* Bispo de Jequié, Bahia

Deus irrompe na história

Ao contrário do pensamento dualista e essencialista, que vai de Platão e Aristóteles até a Escolástica Medieval de Santo Tomás de Aquino, passando por Santo Agostinho e pelos demais Santos Padres, Deus não é aquele que é, uma espécie de "motor imóvel" que, sem se mover, tudo põe em movimento. Se seguirmos a linha de raciocínio dos teólogos e místicos contemporâneos, Deus é antes aquele que vem, que chega de improviso, que irrompe na história pessoal e coletiva. Que, a partir do futuro, convida a avançar, pois Ele mesmo nos projetou para uma superação contínua de nossas próprias limitações.

Sempre nos convida a um passo a mais na caminhada da perfeição, seja ela de caráter individual ou sócio-política. É o que procura mostrar a grande obra de Joseph Moingt, sobre o Homem que vinha de Deus. Notória e cômoda é a tendência humana à lei física da inércia. Chegamos a um determinado estado e facilmente nos instalamos aí, felizes e satisfeitos de ter alcançado esse patamar. Perdemos de vista que cada ponto de chegada constitui um novo ponto de partida. Ou esquecemos nossa condição de peregrinos sobre a face da terra. Fazemos de nossa tenda uma casa sólida, vale dizer uma fortaleza, com raízes fixas e muralhas intransponíveis.

De estrangeiros que somos, tornamo-nos cidadãos do mundo e da história "aqui e agora", sem darmo-nos conta que estamos fora da pátria. Olvidamos que nosso coração e nossa alma só repousam plenamente em Deus, como já nos alertava a espiritualidade Santo Agostinho. Deus irrompe para sacudir essa inércia e esse torpor. Para tirar as teias de aranha de nossos braços e pernas embotadas pela vida sedentária. Lembra-nos que toda formação sócio-econômica é provisória e contextual, que a história humana está em permanente vir a ser, em constante aperfeiçoamento.

Com isso, impulsiona-nos à marcha que só termina no Reino de Deus, o qual não se esgota em nenhuma realização terrena. A trajetória judaico-cristã está recheada de exemplos desse processo, que nada tem de estático, mas mostra-se de natureza eminentemente dinâmica. Deus vem não para lembrar o saudosismo do passado, mas para apontar novas encruzilhadas e a necessidade de novas opções. O "paraíso perdido" não está atrás, na memória do berço, mas é preciso buscá-lo nos desafios da fronteira. Deus nos desinstala e nos põe novamente a caminho. Tomemos dois testemunhos bem conhecidos e emblemáticos.

O primeiro é do patriarca Abraão, o "arameu errante":

- "Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei.

Eu farei de ti um grande povo, eu te abençoarei, engrandecerei teu nome; sê uma benção" (Gen 12, 1-2).

Depois, o de Moisés:

- "Agora, o clamor dos filhos de Israel chegou até mim, e também vejo a opressão com que os egípcios os estão oprimindo.

Vai, pois, eu te enviarei ao Faraó, para fazer sair do Egito o meu povo, os filhos de Israel" (Ex 39-10).

Vale o mesmo para o discurso poético, inflamado e veemente dos profetas: - "Ele julgará as nações, ele corrigirá a muitos povos.

Eles quebrarão as suas espadas, transformando-as em relhas, e as suas lanças, a fim de fazerem podadeiras. Uma nação não levantará a espada contra a outra, e nem se aprenderá mais a fazer a guerra" (Is 2, 4). Os exemplos poderiam repetir-se à exaustão. Todos convergem para a experiência de um Deus não impassível e indiferente aos dramas humanos, mas que caminha na história com o seu povo, abrindo possibilidades de libertação.

Tomo emprestadas algumas observações de Joseph Moingt que nos ajudam a entender o significado mais profundo do Mistério da Encarnação, o qual leva à plenitude as palavras do Livro do Êxodo e do Livro do Deuteronômio, o chamado credo histórico do povo israelita:

- "Eu vi, eu vi a miséria do meu povo que está no Egito, ouvi o seu clamor por causa dos seus opressores, pois eu conheço as suas angústias; Por isso, desci a fim de libertá-lo da mão dos egípcios, e para fazê-los subir daquela terra a uma terra boa e vasta, terra que mana leite e mel" (Ex 3, 7-10; Dt 26,5-10).

O Deus invisível, que vê, ouve, conhece e desce, revela-se plenamente no Filho visível para abrir-nos o sentido oculto da vida e da história. O Espírito Santo passa a ser o motor vivo do amanhã que se descortina e se renova. Seguindo o pensamento do autor, o Verbo encarnado é o projeto de Deus para todo ser humano, o desenho que Deus traçou para a felicidade de cada um de nós. É também a gratuidade do amor do Pai oferecido em oblação a toda humanidade. Deus irrompe da vida de cada pessoa e no mundo, como possibilidade de nova alternativa ao rumo da história, simbolizada na construção do Reino de Deus.

E essa irrupção divina rompe com os esquemas estáticos, cerrados. Abre opções distintas para a trajetória da humanidade, através da ação do Espírito Santo. O evento constituído pela vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo revela uma nova relação entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo. A comunidade da Santíssima Trindade propõe caminhos novos às relações humanas e à história como um todo. Caminhos que passam, necessariamente, pelas coordenadas da ação humana. Por fim, a presença de Jesus entre nós manifesta a predileção de Deus pelos pobres, indefesos e desvalidos, pois são esses que, no fundo e mesmo inconscientemente, anseiam por mudanças substanciais.

Os ricos tendem a estacionar no tempo, mas os que estão à margem procuram formas de inclusão social, cultural e política "(Cfr. MOINGT, Joseph. L’home qui venait de Dieu, Éditions du Cerf, Paris, 1993). À lista dos pobres, não custa acrescentar os (i)migrantes, refugiados, prófugos, marinheiros, nômades e itinerantes como protagonistas privilegiados das transformações necessárias.

De fato, o ato mesmo de ( i )migrar, de sonhar e deslocar-se em busca de um futuro mais promissor, de um lado, revela estruturas pesadas e injustas que impedem a permanência na terra natal; de outro lado, aponta para a necessidade de profundas mudanças, em nível nacional e internacional, de ordem econômica, política, social e cultural. Os migrantes são como que anjos de Deus que relembram a todos a urgência de marchar, de construir "novos céus e novas terras" (Ap 21,1).

A Casa de Deus tem assim dupla dimensão: - por um lado, é tenda, que se faz, desfaz e refaz no esforço terreno de superação das contingências históricas, das desigualdades sociais e das injustiças que vitimam a tantos seres humanos; por outro lado, é a perspectiva permanente do Reino de Deus, que nos aponta para um horizonte sempre desconhecido e fugidio, mas que orienta nossos passos.

Tenda provisória, própria de estrangeiros que somos sobre a terra, e que nos vai antecipando o oxigênio vivo da Casa definitiva.

Clique aqui para abrir em PDF a Cartilha da Campanha da Fraternidade

Pe. Alfredo J. Gonçalves




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