A Igreja no Mundo
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IRÃ: 15/06/2010 Visto que os cristãos fogem em grande número do Irã, tanto por razões políticas como religiosas, a comunidade cristã corre verdadeiro perigo de extinção, afirma o jornalista e observador das Igrejas do Oriente Médio Camille Eid. Nesta entrevista, o especialista explica como é a vida para um cristão que vive no Irã. - O Irã tem 99% de muçulmanos e o islã é a religião do Estado. As raízes da Igreja no Irã são muito antigas e remontam ao século II. O cristianismo é a religião mais antiga do Irã? - Eid: Não, temos duas comunidades mais antigas que o cristianismo. Em primeiro lugar, temos a comunidade zoroástrica, que remonta a vários séculos antes da chegada do cristianismo e do islã. Em segundo lugar, temos a comunidade judaica. A comunidade zoroástrica soma cerca de 20 mil pessoas, e a judaica, entre 20 e 35 mil. Estas duas comunidades são mais antigas que a cristã. - Hoje, o Irã é mais de 99% muçulmano. Como o islã permeia a vida cotidiana? - Eid: Se você estiver nas ruas de Teerã, ou em qualquer parte do país, verá o retrato dos mártires, do Aiatolá. Se você usar o telefone de uma cabine pública, escutará a voz do imame Hussein lhe dizendo o que fazer. - Assim que você tira o telefone do gancho, ouvirá imediatamente uma voz (gravada) do imame? - Eid: Sim. E nas escolas são permitidas diversas disciplinas, mas por meio da perspectiva que se baseia no Alcorão e no Hadit e outras ciências islâmicas. - A imagem do Aiatolá está estampada na capa dos livros de catecismo? - Eid: Exatamente. E pode ser uma forma de mostrar que os cristãos estão sob a proteção do regime e são considerados dhimmis (pessoas protegidas) na shariah islâmica. É uma forma de dizer que vocês (os cristãos) estão sob nosso regime (islâmico). - Eu ia lhe perguntar sobre as patrulhas que fiscalizam se as mulheres se vestem de modo adequado. - Eid: É assim. Algumas vezes utilizam a linha dura e outras, não, dependendo do regime. Sob Khatami, por exemplo, foram um pouco mais liberais porque as crianças podiam mostrar um pouco de sua cabeça. Sob Ahmadinejad é mais restrito. - Atualmente a restrição é maior com a vestimenta completa? - Eid: Sim. Só se deve mostrar o rosto. Há mulheres que cobrem as mãos e o rosto. - O número de cristãos é de cerca de 100 mil em uma população de 71 milhões. Como são vistos os cristãos no Irã? - Eid: Os cristãos são vistos como minorias étinicas porque são predominantemente armênios, e siro-caldeus. Temos 80 mil armênios ortodoxos que também são chamados de armenios gregorianos ou apostólicos, 5 mil católicos armênios, e cerca de 20 mil siro-cadeus, e mais outras comunidades como igrejas latinas, protestantes, que, todas juntas, somam entre 100 e 110 mil cristãos. São vistos como minorias étinicas e, como tais, não é permitido que celebrem seus ritos em parsi, mas sim em armênio ou caldeu. - Para distingui-los como estrangeiros? - Eid: Não só por isso, mas para evitar que sejam atrativos e compreendidos pelos iranianos locais. - Para evitar que os iranianos se sintam atraídos pela fé? - Eid: Sim, para evitar que os iranianos compreendam o que os cristãos dizem. Só houve um caso; foi em Teerã poucos dias depois da morte do Papa João Paulo II, e o sacerdote leu as Escrituras em parsi na presença das autoridades. Este foi um caso excepcional. - Mas ainda assim o Parlamento reserva três assentos para os cristãos. Portanto, os cristãos têm voz dentro da estrutura parlamentarista? - Eid: De fato, a República Islâmica conservou a Constituição de 1906, que reserva cinco assentos para as minorias - três para os cristãos, um para os zoroástricos, e outro para os judeus. - Os direitos cristãos estão garantidos pela Constituição? - Eid: Não. No artigo n.º 13, é mencionado que todos os iranianos são iguais pela raça e pela língua, mas não se mencionada nada pela religião. No artigo n.º 14, se me permite lê-lo: - "todas as comunidades não-muçulmanas se absterão de tomar parte em conspirações contra o islã e contra a República islâmica do Irã". E por último, o artigo 19 estabelece: - "todos iranianos de qualquer grupo étnico devem gozar dos mesmos direitos e a cor, raça ou língua não oferecem privilégio algum". Aqui também não há nenhuma referência à religião. - Mas não diz, dentro do artigo n.º 13 da Constituição, que os cristãos são permitidos de expressar seus desejos e praticar sua fé? - Eid: Sempre que não formem parte de conspirações contra a República do Irã. O que significa isso? Significa protestar contra o regime? O problema do Irã é ser um regime teocrático. Assim a oposição ao regime como uma ação política pode ser interpretada como agir contra a República Islâmica. Dentro da comunidade islâmica, estão os liberais e os conservadores. Ao protestar contra o Aiatolá Khamenei estão protestando contra o corpo político do regime ou contra o religioso? Quando têm a mesma formação o regime político e religioso, um ataque contra o corpo político é considerado um ataque a um aspecto religioso do regime teocrático. - Quais as restrições que os cristãos enfrentam em sua vida diária? - Eid: Bem, para os cristãos é difícil encontrar trabalhos na administração pública. Mesmo diretores de colégios cristãos são muçulmanos, mas com uma exceção. Em Ispahan, há três ou quatro anos, quando o governo nomeou um armênio para o Colégio Armeno. Mas na maioria dos casos os diretores das escolas cristãs são muçulmanos. Isso para os poucos colégios cristãos que ficaram após os confiscos de 1979 e 1980. Outro exemplo no Exército. Há alguns anos descobriram que um oficial, o coronel Hamid Pourmand, havia se convertido ao cristianismo. Foi processado e foi levado à corte marcial, mas graças à pressão internacional pôde abandonar o Irã. É muito difícil que os cristãos estejam em cargos altos do governo no Irã. - Que vida tem um muçulmano convertido? - Eid: Nada pode confessar sua fé dentro do Irã. Só é possível se for ao estrangeiro. Conheço duas famílias iranianas na Itália que são convertidas. Uma das famílias cruzou a fronteira entre Irã e Turquia no inverno. Foi difícil, mas conseguiram asilo. Dentro do Irã não podiam expressar ou mostrar sua fé porque enfrentariam a morte. Não é Fácil. - Queria tocar na questão da fuga de cristãos do Irã após a revolução islâmica de 1979. Cerca da metade da população cristã abandonou o país e existe, até onde pude ler e entender, cerca de 10 mil famílias que abandonam o Irã a cada ano. O que significa isso para a comunidade cristã no Irã? - Eid: Tanto os muçulmanos quanto os não-muçulmanos sofrem com a pressão política, mas os cristãos sofrem o dobro, porque é o aspecto político do regime que é questionado pela maioria dos iranianos e, sobre este fato, há a pressão religiosa para os não-muçulmanos. Essa é a razão desta fuga massiva e, de fato, há um verdadeiro perigo de desaparecimento, de uma extinção do cristianismo no Irã. Esta entrevista foi realizada por Mark Riedemann
para "Deus chora na Terra", um programa semanal produzido por
Catholic Radio and Television Network (CRTN), em parceria com a organização
católica Ajuda à Igreja que Sofre. Zenit
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