Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

rmã Paula Vizzotto foi enviada aos Camarões em 1992, com um projeto bem definido de trabalho na diocese de Yaoundé. Por motivos diversos, o projeto não deu certo e ela foi transferida para uma outra missão, totalmente diferente e inesperada, que mudou completamente sua vida, sua maneira de rezar e de acreditar.

Com um grupo de seis missionários e missionárias de diferentes institutos, ela foi destacada para trabalhar na prisão central de Yaoundé, serviço que a ir. Paula chamaria de ministério da compaixão e da conso-lação. E não é para menos.

O cárcere de Kondengui, um edifício construído ainda no tempo da colonização francesa para quinhentos presos, não tinha o mínimo conforto, era insuportável até para animais. O ambiente era de desprezo, injustiça, miséria moral e material, violência e abandono. Um lugar que parecia até esquecido por Deus, impotente diante da tanta crueldade. Estar preso naquele lugar já era uma agravante da pena, aumentada pela corrupção da polícia, da ineficácia e lentidão dos tribunais.


Time de futebol com a camisa do Milan (clube de futebol italiano

Nos tempos em que a equipe da compaixão começou a trabalhar naquela antecâmera do inferno, havia 3445 presos, entre os quais, uns quarenta condenados à morte, 110 menores e 120 mulheres, algumas com seus bebês. Inicialmente, a equipe pensava marcar somente uma presença de consolação para testemunhar o amor de um Pai que teve seu Filho inocente morto como o pior dos bandidos daqueles tempos mas, que pendurado no mesmo patíbulo, conseguiu salvar o que nos chamamos de bom ladrão. Essa ternura e compaixão que a equipe queria levar para aquele inferno, primeiramente, transformaram os próprios missionários e depois os presos. Nem sempre conseguiram mudar os destinos dos detentos mas, muitas vezes, conseguiram mudar o coração deles.

Libertar o coração

Os casos de libertação interior, antes mesmo das profundas mudanças até no contexto geral da prisão que a equipe conseguiu realizar, foram muitos e ir. Paula lembra algumas histórias entre tantas que conheceu.

Grace, católica, mãe de 8 filhos, foi presa, torturada para que revelasse o esconderijo do marido e de um filho, acusados de participação numa revolta contra o governo, condenados à morte. Mais tarde, soube-se que seu marido e seu filho já estavam presos, mas ela continuou a ser torturada. Grace resistiu, apesar da tuberculose, das privações desumanas e torturas. Na prisão, conseguiu aprender o francês, língua oficial mas desconhecida para ela, tornou-se a “mãe” das jovens encarceradas, mandava parte da sua já miserável comida para seu filho e seu marido, livres da pena de morte por uma intervenção da Anistia Internacional.

Corinne foi presa para que revelasse o esconderijo de seu namorado, membro de uma quadrilha de assaltantes. Ela namorava esse jovem que morava no mesmo bairro e a levava aos bailes; desconhecia suas atividades criminosas, porém não gostava da companhia que ele freqüentava.


Irmã Paula Vizzotto

A polícia prendeu-a e torturou-a, mas, como nada sabia da vida de seu namorado, ela não podia dar nenhuma indicação que satisfizesse seus torturadores, cada vez mais enfurecidos. Tudo isso despertava em Corinne num profundo ódio contra todos:

polícia, namorado, colegas de prisão e a sociedade em geral. Ir. Paula tentava passar-lhe o que ela recusava por desespero, sabão, comida e roupa, até conseguir mudá-la, fazendo com que Corinne quisesse viver e voltar a ser a moça bonita e alegre de antes. Acusado de violentar turistas suíças, o namorado morreu fuzilado num choque entre o bando e policiais, e Corinne voltou ao desespero e ao silêncio, mas, depois de algumas semanas, pediu a ir. Paula que a preparasse para o batismo. Na carta em que ela desabafa, após ter confessado todo seu ódio contra todos e desespero de sofrer inocente, mostra também que decidira firmemente entregar-se a Cristo, ressuscitando para uma nova vida.

No corredor da morte

Charly, 24 anos, condenado à morte por assalto e homicídio, tinha até medo de entrar no corredor onde viviam acorrentados os 40 condenados, tanta era a violência e o desespero desses homens.

Pe. Gabriel, da equipe, procurou mudar a situação. No espaço de dois anos, o estreito corredor não se chamaria mais o corredor da morte, mas o corredor da esperança. Charly tornou-se catequista, ensina os companheiros a ler e escrever, ocupa-se dos doentes e, agora, é possível entrar-se tranqüilamente onde, antes, nem os guardas ousavam.

Charly era o Cirineu e dizia que queria ajudar o Cristo que estava nos seus companheiros condenados à morte a levar sua cruz, enquanto a vida lhe permitisse. Quando a situação de angústia, desespero ou a violência dos guardas lhe oprimia o coração, cantava a música dos condenados à morte: “Ele virá. O Senhor da Vida virá e nos tomará”. Copiava muitas vezes o jornalzinho intitulado “Ovelhas atrás das grades”, em que ele e outros colegas tentavam animar a esperança e alegria num corredor de condenados.

Tarefas e sentimentos

Naturalmente, numa missão como esta, tendo ao lado presos, torturados, desesperados, condenados à morte e outras tantas histórias de dor, até a vida dos missionários mudou. É o que testemunha a própria ir. Paula:

“O meu nome é Paula, mas aqui me chamam de “mamãe ou cúmplice” e lá fora de “irmã dos bandidos”. Custou muito para eu ser digna desses nomes, mas confesso que chorei quando os ouvi, espontâneos e carinhosos.

Na equipe, sou encarregada de acompanhar os menores, meninos e meninas de 10 a 16 anos, para os quais reservamos, no interior da prisão, um espaço para ocupações que os ajudassem a reencontrar sua verdadeira identidade e seu coração de adolescentes. Com pe. Maurizio Bezzi, voluntários externos e presos adultos que se responsabilizaram por seus colegas menores, organizamos e sustentamos várias atividades como alfabetização, escola, artesanato, esporte e outras atividades. Muitos dos menores aprenderam o francês, completaram a escola primária e as mãos que, outrora, furtavam e feriam, agora, aprenderam a habilidade e a delicadeza da arte de esculpir no laboratório da cadeia.

Formamos um respeitado time de futebol com as camisas do Milan e do Inter que os próprios times nos enviaram e eu, que nada entendo de futebol, fui escolhida como a presidente honorária, mas afirmo que sou exigente sobre a lealdade e a honestidade nos jogos. O esporte é uma grande escola de disciplina e união. A estes adolescentes, acostumados a se defender com violência ou a querer tudo sempre com violência, o esporte ensina a descobrir o valor e força do trabalho em equipe, o respeito ao outro e a saber perder com honra.

Como tutora, acompanho os processos dos menores sem família e das mulheres abandonadas. Contato advogados, juízes e familiares, se existissem. Muitas vezes, sou chamada a testemunhar, a assumir a responsabilidade e a defender esses adolescentes. Uma experiência forte de justiça e verdade que marcou profundamente toda a equipe. Não foi fácil sentar entre os acusados sob a escolta da polícia, desafiando o julgamento do público e dos magistrados. E depois, sentada no caminhão entre os presos, sentirmo-nos unidos na mesma ansiedade por causa dos processos, partilhando a raiva, a angústia, o desespero por uma condenação ou a alegria de uma absolvição.

Tudo isso fica sendo tão normal e simples, quando se ama e não existem diferenças porque somos amigos. Estive junto deles em condenações e libertações, mas as mais bonitas de que fui testemunha são as do coração”.

Depois da prisão

O trabalho mais difícil é acompanhar os adolescentes, quando saem da cadeia, para que não caíam novamente na criminalidade da rua. Isso é duplamente difícil para eles diante da pobreza, do vazio da sociedade totalmente à deriva, tanto política como economicamente, sem seus valores tradicionais.

No fim, para muitos deles, só existe a morte ou por ação da polícia ou da população que se vinga, linchando esses menores.

“O difícil – confessa ir. Paula – é criar um espaço dentro de nós para esses adolescentes e isso se resume na atenção pessoal, na paciência para conhecer, compreender, confiar, esperar ou reencontrar a confiança. Espaço de ternura, compaixão e compreensão, embora seja muito difícil chegar lá no fundo do coração desses jovens, quase sempre já queimados pela dor, angústia e rejeição. Os meninos nos estudam, nos provocam, nem sempre é fácil amá-los, mas sempre há um momento, ainda que não programado, do esperado gesto de amizade, do desabafo libertador, do contato sereno e confiante.

São adolescentes que não têm a noção clara do próprio futuro, que se sentem usados, pisados, condicionados por situações que não querem e das quais são vítimas. Não é fácil ajudá-los a reencontrar a esperança, a alegria com todas as características da idade que lhes foi destruída, roubada, violentada.

Na cadeia, descobri mais intimamente Maria, a mãe de Cristo, na imagem do Calvário, lá de pé, diante da cruz. Apesar do sofrimento e das lágrimas que dilaceravam seu coração de mãe, ela continuava a viver o mistério do seu sim no abandono e na confiança em Deus que vence a morte. Por isso, as nossas lágrimas (porque todos nós da equipe somos tomados pela emoção, desânimo, medo diante das ameaças de morte, tortura, punição e fome que nos fazem), não são lágrimas de desespero, mas cheias de esperança, de profunda paz pela presença do mistério da cruz, do rosto de Cristo desfigurado, mas iluminado e triunfante.
Quantas vezes foi difícil controlar a revolta e o desespero interior.

Quantas vezes gritei dentro de mim: “Por quê?”, até encontrar uma outra pergunta: “Com quem?”. Assim entendi um pouco mais as bem aventuranças. Não bem aventurado porque chora, mas porque, nessa situação extrema, Deus está presente, amando e forte. Esta é a nossa fé”.

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