Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

Missão vida

Destino Birmânia

Piero Gheddo

Padre Ângelo Di Meo (1907-2000) completou 69 anos (1932-2000) de missão em Mianmá (ex-Birmânia), excetuando os breves retornos à pátria para tratar da saúde. A missão da Birmânia foi uma verdadeira epopéia para os missionários que lá passaram a maior parte de suas vidas, entre povos e etnias pobres das montanhas, na fronteira com a China comunista. Era considerada uma das missões mais difíceis que o P.I.M.E. tinha, mas constituía um desafio para os padres e muitos desejavam trabalhar naquele lugar. Ali, o P.I.M.E. deixou vários mortos...
Quando Pe. Di Meo e outros missionários, como Pe. Vismara (do qual foi iniciada a causa de beatificação), começaram a missão, não havia cristãos naquelas terras. Pe. Di Meo tomou conta de uma extensa área de montanha, onde havia trezentas aldeias animistas de carianos vermelhos, vivendo de uma agricultura de subsistência, com muito ópio e muitos órfãos.
No começo, os sacerdotes foram impedidos pelo representante inglês que não via com bons olhos a entrada de missionários católicos, mas um chefe local chamou os padres e as freiras para abrir escolas e dar assistência sanitária aos nativos. A partir de 1932, foram sessenta e nove anos de cansativas visitas às aldeias, a pé ou a cavalo, para instruir, ajudar, curar, batizar, recolher, resgatar os órfãos e as crianças, muitas vezes vendidas pelo pai, em troca de ópio, e submetidas a trabalho escravo, nos campos em que, geralmente, cultivava-se ópio.
Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-45), os padres foram internados em campos de concentração na Índia, pelos ingleses. Houve poucas exceções e Pe. Di Meo foi um dos que ficou dando conta do trabalho dos outros sacerdotes e irmãos que tinham sido levados. Nesse período, incentivou escolas de formação de catequistas para substituir, onde era possível, a ausência dos padres.
Quando a Birmânia se tornou independente, instalou-se o caos com a guerrilha entre facções étnicas, tropa irregular chinesa e exército. Foi naqueles tempos que cinco padres do P.I.M.E. foram mortos violentamente.
Um fato curioso que revela os momentos trágicos e incertos daqueles dias foi o do Pe. Clérici que, levado por guerrilheiros e dado por morto, reapareceu, depois de sua missa de sétimo dia, tendo fugido dos guerrilheiros.
Logo em seguida, um golpe militar (1962) colocou no poder um partido único de orientação comunista. A partir daquela data, a ex- Birmânia tornou-se o país mais fechado à qualquer influência e comunicação com o exterior. Todos os missionários, que para lá foram enviados depois da guerra, foram expulsos (1966). Ficaram somente os que tinham entrado no país antes da guerra de 1940, já bastante idosos, todos com mais de trinta anos de missão naquelas regiões difíceis.
Alguns padres expulsos da Birmânia estabeleceram-se perto das fronteiras, em Laos e na Tailândia, para manter algum contato com os cristãos deixados do outro lado e iniciaram as missões católicas locais. Os padres que ficaram, embora fossem de idade avançada, foram praticamente impedidos de sair do país até para tratar da saúde porque, em caso de saída, o governo marxista retirava definitivamente o visto de permanência e eles não podiam mais voltar. Assim todos, apesar da idade, preferiram renunciar a voltar para a pátria e ficaram sem comunicação com as famílias e o instituto, por anos a fio. As notícia limitavam-se ao anúncio da morte de algum padre.
A partir dos anos 90, a situação ficou mais fácil para sair e voltar, mas ainda hoje não é permitida a entrada de novos missionários estrangeiros para um trabalho apostólico. A semente semeada pelos religiosos e religiosas, porém, frutificou tanto que hoje existe uma Igreja organizada com nove dioceses e milhares de cristãos. Nessa mesma década, a Birmânia abriu-se também para o turismo e alguns turistas puderam trazer notícias dos poucos padres que ainda estavam por lá trabalhando com um ardor juvenil, embora as forças não fossem as mesmas.
Uma turista, que esteve lá em 1996, conta: "Durante a nossa viagem à missão de Kalaw, encontramos Pe. Di Meo, pessoa excepcional com um espírito incrivelmente jovem, apesar dos quase noventa anos. Estava construindo um pequeno hospital e um centro de espiritualidade para padres e leigos", e um jornalista, Paulo Moiola, que encontrou Pe. Di Meo em 1994, escreve: "(...) quanto ao Pe. Di Meo, é como um rio na cheia. Fluente, irônico, erudito. A única falha é que perdeu o costume de falar italiano e por isso, às vezes, faz perguntas para saber como se diz isso o aquilo em italiano.... excepcional!"
Em 1995, como havia apenas cinco padres, todos eles recusaram o convite do Superior Geral de voltar para a pátria e passar seus últimos anos descansando nas casas do instituto.
Os bispos, padres, religiosas, fiéis e todo o conjunto de obras sociais, especialmente os orfanatos que conseguiram criar num século de trabalho, demonstram que neles havia um ideal e um fogo interior que supria o isolamento e a falta de contato em que foram obrigados a viver, por longos anos, devido às situações políticas. Mas eles estiveram sempre fielmente ligados à Igreja, embora, por alguns anos, desconhecessem sua caminhada pós-conciliar.
Em janeiro deste ano, na capital Yangon (antiga Rangoon), Pe. Di Meo foi operado de cálculos renais, mas não agüentou e foi sepultado em sua missão: sinal de apóstolos que acreditaram e permaneceram fiéis, apesar das enormes dificuldades de suas missões até após a morte.

Dossiê Mianmá

Depois de tentativas de evangelização por padres portugueses e ingleses a serviço das tropas coloniais, o P.I.M.E. foi convidado a catequizar a zona norte do país, lugar de montanhas inexploradas. O instituto mandou alguns padres que se estabeleceram em Toungoo, o último posto avançado inglês, ao longo de vales que subiam e se coligavam com a China, embora as comunicações fossem praticamente inexistentes. Os padres e os irmãos leigos dedicaram-se a fundar escolas de todo tipo, tipografias e hospitais, com a ajuda das irmãs que cuidavam especialmente dos órfãos e das mulheres.
Em pouco tempo, surgiram naquele vasto e inóspito lugar de bosques e montanhas, várias dioceses, como Kengtung, Lashio, Loikaw e Taungy, e seus seminários, começo da Igreja local de hoje.
Em Mianmá, a maioria da população é budista; há uma presença considerável de muçulmanos no sul, enquanto, no norte e no leste, as tribos são animistas ou cristãs.
Hoje, apesar das dificuldades da guerrilha que ainda persiste, e sem a presença do clero estrangeiro, a Igreja birmanesa firmou-se com dioceses e um número considerável, embora ainda insuficiente, de sacerdotes e religiosas. O poder ainda está nas mãos de militares que governam com mão pesada; a Liga Nacional pela Democracia venceu as últimas eleições, mas os militares não permitiram a posse e prenderam os líderes, entre os quais, o Prêmio Nobel da Paz, Aung San Sou Kya.

O P.I.M.E., tem uma longa série de sacerdotes que foram mortos em terra de missão. Entre os 19 que deram sua vida, cinco foram mortos na ex-Birmânia, entre 1950 e 1955:

Pe. Mario Vergara e Pietro Galastri foram metralhados por rebeldes, em Shadow, e jogados no rio Salween, no dia 5 de maio de 1950;

Pe. Alfredo Cremonesi foi fuzilado por militares birmaneses, em Donuku de Toungoo, em 7 de fevereiro de 1953;

Pe. Pedro Manghisi foi morto por uma tropa irregular chinesa, em 5 de fevereiro de l953;

Pe. Eliodoro Farronato foi fuzilado por guerrilheiros, em Mong-yang, no dia 11 de dezembro de 1955.

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