Revista "MUNDO e MISSÃO"
Testemunhos da Vida Missionária
Contraiu a Aids na sala operatória, como ele mesmo explica: “Como cirurgião, é fácil se picar por distração ou fazer pequenas feridas nos dedos, enquanto se opera. Considerando que 20% dos meus pacientes são soropositivos, é fácil se ferir e se infectar. Por mais de cinco anos, também, trabalhei na maternidade do hospital e a ocasião de entrar em contato com sangue de soropositivas era muito freqüente”. Com esta doença, Pe. Aldo não somente transformou a sua situação numa oportunidade de crescimento espiritual, mas também idealizou um projeto de desenvolvimento para muitos soropositivos africanos.
Com essa personalidade ativa, Pe. Aldo descreve aquela que chama de sua “aventura interior”, causada pela comunicação de sua doença: “O primeiro sintoma foi a canseira física, agravada pelo clima úmido de Quelimane. O calor me triturava. Estava oprimido, transtornado, preocupado. Não entendia o que estava acontecendo”. Depois veio a febre, mas diferente da costumeira, decorrente da malária. “Será uma virose africana como tantas outras”, dizia a si mesmo. Indo à Itália, para férias, fez exames mais completos e os resultados vieram logo: “No seu hospital na África, pegou todas as doenças. Faltou só hepatite C e sífilis. Agora, a respeito do Hiv, ainda não veio a resposta e precisamos de mais uma amostra de sangue. Vamos fazer o exame amanhã mesmo”. No dia seguinte, a revelação do médico amigo foi embaraçosa: “O resultado é que você é soropositivo 1p24 e gp41”. O padre ficou sem palavras como seu colega.
Era uma responsabilidade e um dever muito grande para qualquer médico, ainda mais para mim como sacerdote, e várias vezes me imaginava na situação dos pacientes. Eu repelia o pensamento com certa angústia, porque, afinal, até então, eu não estava doente, enquanto eles já eram quase fantasmas em estado terminal. Fiquei olhando aquela folha com o resultado por um instante, em silêncio. O paciente daquele momento em diante seria eu, e não podia mais me iludir. Todavia, não senti a angústia que me acompanhava diante dos outros doentes. Nem angústia, nem revolta, nem medo, mas uma mudança radical no meu íntimo. Tudo permanecia igual e tudo estava profundamente mudado e para ‘sempre’”.
Nos últimos anos, as terapias progrediram: existem remédios altamente eficazes, a esperança de vida residual e sua qualidade são boas e pe. Aldo começou a tomar o coquetel de remédios, procedimento que fará por toda a vida. Mas, para ele, isso não era suficiente: “Comecei a refletir que podia contar com uma vida provavelmente longa, devido também ao fato de ser italiano e ter possibilidade de acesso à cura. Mas, os meus pacientes de Moçambique que esperanças podiam ter? Até então não havia uma terapia acessível: o custo estava acima dos recursos de quase todos. Percebi, então, que eu devia fazer algo para que eles também tivessem mais esperanças de vida”. Assim, entrou em contato com a comunidade de Santo Egídio de Roma, que estava iniciando justamente em Moçambique uma experiência piloto para oferecer, gratuitamente, o mesmo tratamento de excelência, disponível nos países ricos, aos doentes de Aids. Nasceu daí um projeto que une o Ministério da Saúde de Moçambique, a comunidade de São Egídio e outra associação dos dehonianos, a Onlus Projetos Moçambique.
O tratamento com anti-retrovirais iniciou com 200 doentes e duas médicas italianas, voluntárias em Quelimane, para onde, em agosto passado, voltou pe. Aldo. Como ele escreveu: “Agora todo mundo sabe que sou soropositivo e estou fazendo a soroterapia; estou passando bem e continuo trabalhando. Sabem também que a terapia está à disposição de outros doentes e que, portanto, não há razão de esconder-se, de não fazer o teste. Muitas pessoas vêm a mim, pedindo conselhos para serem encaminhadas”. Assim, pe. Aldo conseguiu transformar sua desvantagem numa vantagem: “E a minha aventura interior continua junto com uma multidão de soropositivos de Moçambique. Portanto, devo agradecer a Deus por ter-me colocado nessa
situação e ter conduzido os eventos, de forma que uma pequena
semente de esperança pudesse, em breve tempo, se transformar numa
grande árvore”. |
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