Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

Pe. Aldo Marquesini, 62 anos, é um cirurgião que vive há trinta anos em Moçambique e se infectou numa sala operatória. Não escondeu sua doença, mas a transformou num motivo para animar 200 doentes de Aids

issionário com Aids! Poderia ser uma situação bem embaraçosa, mas pelo contrário, Pe. Aldo Marchesini, encarou-a com coragem, comunicando a todos, numa espécie de carta aberta: “Escolhi não esconder de ninguém a minha situação de soropositivo. Falo em público e todos sabem que sou um padre soropositivo que está fazendo terapia”. Pe. Aldo, dehoniano, é missionário, médico cirurgião, há mais de vinte anos no hospital de Quelimane, em Moçambique, do qual é diretor clínico.

Contraiu a Aids na sala operatória, como ele mesmo explica: “Como cirurgião, é fácil se picar por distração ou fazer pequenas feridas nos dedos, enquanto se opera. Considerando que 20% dos meus pacientes são soropositivos, é fácil se ferir e se infectar. Por mais de cinco anos, também, trabalhei na maternidade do hospital e a ocasião de entrar em contato com sangue de soropositivas era muito freqüente”. Com esta doença, Pe. Aldo não somente transformou a sua situação numa oportunidade de crescimento espiritual, mas também idealizou um projeto de desenvolvimento para muitos soropositivos africanos.

Trabalhando em Moçambique desde 1974, em diferentes hospitais do país, ele praticou a cirurgia de emergência, como discípulo de um outro grande médico missionário em Uganda, o comboniano Pe. José Ambrosoli. Além de ter um caráter alegre, Pe. Aldo é também um bom e vivaz escritor, autor de vários livros, onde recolheu episódios de sua experiência. Criou uma espécie de “comunidade mística internacional” que troca experiências espirituais e contatos via Internet.

Com essa personalidade ativa, Pe. Aldo descreve aquela que chama de sua “aventura interior”, causada pela comunicação de sua doença: “O primeiro sintoma foi a canseira física, agravada pelo clima úmido de Quelimane. O calor me triturava. Estava oprimido, transtornado, preocupado. Não entendia o que estava acontecendo”. Depois veio a febre, mas diferente da costumeira, decorrente da malária. “Será uma virose africana como tantas outras”, dizia a si mesmo.

Indo à Itália, para férias, fez exames mais completos e os resultados vieram logo: “No seu hospital na África, pegou todas as doenças. Faltou só hepatite C e sífilis. Agora, a respeito do Hiv, ainda não veio a resposta e precisamos de mais uma amostra de sangue. Vamos fazer o exame amanhã mesmo”. No dia seguinte, a revelação do médico amigo foi embaraçosa: “O resultado é que você é soropositivo 1p24 e gp41”. O padre ficou sem palavras como seu colega.

O pedido de refazer o teste do Hiv já tinha sugerido uma probabilidade de ser soropositivo, mas a possibilidade que tivesse acontecido um erro nos exames tinha postergado uma preocupação existencial. Naquele momento, porém, a verdade estava lá, nua e crua. O padre-médico passou imediatamente à condição de paciente: “Tenho que dizer que não experimentei emoções particulares e nem desconforto. Na qualidade de médico, devia comunicar aos meus pacientes que eram soropositivos e que os sintomas eram causados pela doença.

Era uma responsabilidade e um dever muito grande para qualquer médico, ainda mais para mim como sacerdote, e várias vezes me imaginava na situação dos pacientes. Eu repelia o pensamento com certa angústia, porque, afinal, até então, eu não estava doente, enquanto eles já eram quase fantasmas em estado terminal.

Fiquei olhando aquela folha com o resultado por um instante, em silêncio. O paciente daquele momento em diante seria eu, e não podia mais me iludir. Todavia, não senti a angústia que me acompanhava diante dos outros doentes. Nem angústia, nem revolta, nem medo, mas uma mudança radical no meu íntimo. Tudo permanecia igual e tudo estava profundamente mudado e para ‘sempre’”.

Dados


Doentes de Aids

Conforme um relatório de 2003 da ONU a respeito de seu programa para a Aids (Unaids), a África abaixo do Saara, embora concentre apenas 2% da população mundial, contabiliza 30% dos doentes do mundo. Em 2003, a África subsaariana foi a região mais contaminada pelo vírus Hiv. Em 26,8 milhões de doentes de várias doenças, os aidéticos eram 3,2 milhões. Em 2003, a Aids matou cerca de 2,3 milhões de africanos, sendo a maioria mulheres.


Entre eles muitas crianças e jovens

O fenômeno é acentuado entre os jovens de 15 a 24 anos, com uma freqüência duas vezes maior entre meninas e moças. Na África, uma mulher grávida em cada cinco, já contraiu a doença. O grau de incidência da doença varia conforme os países: 1% na Mauritânia e 49 % em Botsuana e na Suazilândia. Apesar dos programas de prevenção e de informação, o número de doentes continua crescendo com regularidade, assim como os caso de morte. Apenas 50 mil africanos podem ter acesso aos modernos medicamentos.

Nos últimos anos, as terapias progrediram: existem remédios altamente eficazes, a esperança de vida residual e sua qualidade são boas e pe. Aldo começou a tomar o coquetel de remédios, procedimento que fará por toda a vida. Mas, para ele, isso não era suficiente: “Comecei a refletir que podia contar com uma vida provavelmente longa, devido também ao fato de ser italiano e ter possibilidade de acesso à cura. Mas, os meus pacientes de Moçambique que esperanças podiam ter?

Até então não havia uma terapia acessível: o custo estava acima dos recursos de quase todos. Percebi, então, que eu devia fazer algo para que eles também tivessem mais esperanças de vida”. Assim, entrou em contato com a comunidade de Santo Egídio de Roma, que estava iniciando justamente em Moçambique uma experiência piloto para oferecer, gratuitamente, o mesmo tratamento de excelência, disponível nos países ricos, aos doentes de Aids. Nasceu daí um projeto que une o Ministério da Saúde de Moçambique, a comunidade de São Egídio e outra associação dos dehonianos, a Onlus Projetos Moçambique.

Projeto Vida Sida

O título vem da tradução francesa para a palavra Aids, Sida, e significa “projeto que dá a vida”. O subtítulo do projeto é “Curar a Aids em Moçambique” e foi lançado em março de 2003 pela Onlus Projetos Moçambique, com os padres dehonianos e a comunidade Santo Egídio de Roma, que já opera em vários lugares da África, fornecendo os remédios. O projeto prevê a gestão de um day-hospital em Quelimane, para administrar os medicamentos aos doentes. A perspectiva é de que, no primeiro ano, oferecerá um serviço completo de diagnóstico a 1500 doentes e a cura para 200. No futuro, esses números podem chegar até mil. Haverá um serviço de informação para cinco mil famílias, com a ajuda de voluntários africanos. O projeto faz referência ao pe. Aldo Marchesini, à dra. Lucia de Franceschi e a outros médicos, voluntários internacionais. Na retaguarda, nos países europeus, haverá uma organização para coleta de fundos. O custo de um doente nesse projeto é de 360 euros/ano, ou seja, cerca de 10 reais/dia.

O tratamento com anti-retrovirais iniciou com 200 doentes e duas médicas italianas, voluntárias em Quelimane, para onde, em agosto passado, voltou pe. Aldo. Como ele escreveu: “Agora todo mundo sabe que sou soropositivo e estou fazendo a soroterapia; estou passando bem e continuo trabalhando.

Sabem também que a terapia está à disposição de outros doentes e que, portanto, não há razão de esconder-se, de não fazer o teste. Muitas pessoas vêm a mim, pedindo conselhos para serem encaminhadas”.

Assim, pe. Aldo conseguiu transformar sua desvantagem numa vantagem: “E a minha aventura interior continua junto com uma multidão de soropositivos de Moçambique.

Portanto, devo agradecer a Deus por ter-me colocado nessa situação e ter conduzido os eventos, de forma que uma pequena semente de esperança pudesse, em breve tempo, se transformar numa grande árvore”.

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