Revista "MUNDO e MISSÃO"
Testemunhos da Vida Missionária
Uma vida de por Hélio Pedroso
A DOAÇÃO AOS POBRES No começo - ela confessa - tudo e todos lhe eram contrários. Era jovem, portanto, não digna de ser ouvida nem respeitada. Era branca, portanto, desprezada por aquela raça que se considerava superior a todas as outras. Era cristã, portanto, temida, ultrajada e recusada. Era solteira, portanto, um absurdo naquele mundo em que o celibato é considerado um contra-valor. Mas ela não cedeu, não recuou, nem nos momentos de desânimo, e se transformou, tornando-se a mãe de todos aqueles que salvara das doenças. Apesar das dificuldades e das contradições, tentava transmitir uma mensagem de solidariedade e união; apesar de religiões, culturas, valores tribais diferentes e da guerrilha, estimulava a concórdia e a paz entre as tribos em guerra há décadas. Para isso, insistia no perdão recíproco, uma virtude que os muçulmanos, em geral, pouco praticam. Mas, para Annalena, o único sentido da sua vida era amar a todos, em especial os doentes. Os seus trinta e três anos de África foram quase todos de guerra, razão pela qual passou sua vida no meio de muitos perigos. Mesmo nas situações de maior risco, continuava com sua louca esperança, porque a caridade ainda lhe dava razões de sobra para viver e amar as pessoas. Dos tuaregues muçulmanos, homens do deserto, ela dizia ter aprendido o total abandono nas mãos de Deus, a se entregar sem fatalismo, mas certa de que tudo o que começa, acontece e termina em Deus. O CAMPO DE TRABALHO
Annalena trabalhou trinta anos na Somália, ausentando-se para ir ao Quênia acompanhar seus doentes que tentavam escapar da guerra e da fome. A Somália é um dos países socialmente mais atrasados do mundo. Nos últimos quinze anos, foi devastada pela fome, seguida de uma guerra civil que durou, oficialmente, uma década, mas ainda continua no caos constitucional, nas mãos de senhores da guerra sem escrúpulos que conhecem somente a força das armas e da corrupção. Um país que, pela sua insignificância no quadro internacional, se jogou totalmente em situações trágicas para sobreviver, ou melhor, para que os vários chefes dos clãs sobrevivessem, sacrificando o povo. Há tráfico de armas, de droga, depósitos de resíduos tóxicos do urânio que as nações jogaram, pagando aos chefes em detrimento do povo. Houve até homicídios de jornalistas estrangeiros que ousaram levantar um pouco mais os cantos desse tapete que escondia e esconde muita corrupção e injustiça. Até as forças da Onu sofreram uma derrota humilhante e ignóbil em luta contra os tribais mal armados. A doença epidêmica é a tuberculose e, ultimamente, a Aids, que se juntam num coquetel mortal. Como não existe governo, não existem médicos nem hospitais, a não ser os de entidades da solidariedade internacional, como Médicos sem Fronteiras e Cáritas. Um relatório dos Médicos sem Fronteiras denunciava, tempo atrás, a indiferença dos chefes tribais que, praticamente, matava por fome uma criança em cada quatro, com menos de cinco anos.
Nos anos 92/93, morreram de fome 10% da população e 90% dos refugiados sofriam de subnutrição. Annalena contava que, às vezes, ela mesma doava seu sangue para prolongar a vida de alguém e convocava seus alunos a fazerem o mesmo, tentando superar a desconfiança, estimulando um ambiente de solidariedade. "Uma experiência tão traumática que coloca em perigo a própria fé", escrevia Annalena: por 13 meses, contratou duas pessoas para sepultarem os mortos abandonados. Mais de mil crianças morreram de fome e de tuberculose. Na casa-orfanato, havia 600 crianças, assistidas dia e noite e, a cada dia, procurava matar a fome de outras três mil com as ajudas que recebia do exterior. Além disso, havia a guerrilha cruel e insensata, todos contra todos, o que tornava difícil a sobrevivência até dos agentes da Cáritas. Numa região, eles foram obrigados a deixar o território, para não serem transformados em mercadoria de chantagem entre os vários bandos. Mas nem todos conseguiram escapar: a doutora Graziella Fumagalli foi morta por guerrilheiros. Em 1996, Annalena recomeçava sua luta contra a tuberculose, a doença dos somalis que registra a mais alta taxa de mortalidade, em Borama, em Somaliland, região que se declarou autônoma da Somália e onde parecia tudo tranqüilo. Há suspeitas de que toda a população estaria infectada, mas somente uma parte, embora grande, desenvolve a doença. Lá, Annalena criou o Tb.Center, hospital contra a tuberculose. "A doença" - escreveu Annalena - "é parte das pessoas, da sua história, de sua luta, de sua sobrevivência. Continua a ser considerada uma maldição divina, uma punição por pecados, tanto que alguns doentes recusam o tratamento. A doença joga sobre o doente um sentimento de vergonha que requer um tratamento psicológico, antes da cura terapêutica, É um tabu, tanto que os doentes não respondem se têm a doença. Em Borama, luta-se diariamente para libertar as pessoas da ignorância, da vergonha e da escravidão do preconceito". Annalena recorria a um pequeno estratagema, perguntado se o doente estava com frio. A relativa tranqüilidade de Borama permitiu-lhe ampliar o Tb.Center, que passou a ter 200 leitos, mais algumas casas para atender pacientes que vem de longe acompanhados por parentes e mais 300 doentes externos. O Tb. Center mantém outras atividades como curso de somali, sobre o Alcorão, de inglês, de trabalhos artesanais; há ainda uma escola para surdos, deficientes físicos, vítimas da guerra, doentes mentais e uma obra de persuasão e luta contra as mutilações genitais femininas, muito praticadas nas tribos da Somália. Uma campanha anual entregava óculos, dando a muitos
a possibilidade de ver. Dois tiros assassinos no hospital precipitaram
tudo isso na incerteza do futuro, porque com a morte de Annalena, desapareceu
a alma e inteligência que fazia funcionar a obra em favor dos somalis. Uma atitude dos muçulmanos, contada pela própria Annalena, porém, pode expressar toda a grandeza e estima por essa mulher: "Aqui são todos muçulmanos, mas começaram a dizer que, embora eu seja cristã (portanto infiel), certamente também irei ao paraíso, porque, para eles, sou uma pessoa enviada por Deus. Todos sabem, com absoluta certeza, que sou cristã, mas rezam, até em voz alta na mesquita aqui perto, para que eu me torne muçulmana".
Em 2000, uma reunião entre chefes das tribos e outros, com representantes da Onu, escolheu um governo provisório para restabelecer as instituições de Estado. Grande parte dos habitantes trabalha no pastoreio de camelos. O país possui o maior rebanho do mundo desse animal típico dos desertos. FOME ASSOLA O PAÍS A Somália é o país com o maior número de subnutridos no mundo: 75% da população, conforme dados do Fundo das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), de 1997/1999. Nos últimos anos, a situação piorou pela prolongada guerra civil, pelas secas devastadoras em 1997 e 2000 que destruíram as lavouras e deixaram homens e rebanhos sem alimento nem água. Nessas condições, nem a ajuda alimentar internacional conseguiu chegar. NA ÁFRICA No fim de 2002, a Onu estimava em 38 milhões o número de pessoas com grave falta de alimentos. Os paises mais afetados além da Somália, foram e ainda são: Etiópia, Sudão, Eritréia, Zimbábue, Zâmbia, Malaui, Moçambique, Angola, Lesoto e Suazilândia. Conforme denúncia das organizações internacionais, a causa da fome na África não é somente a seca, mas também fatores políticos e econômicos como a pobreza, as guerras, a corrupção dos governos. Defendendo mais recursos para as ações internacionais de ajuda alimentar, James Morris, diretor executivo do Programa Mundial de Alimentos, disse em dezembro de 2002: "A fome é uma invenção política e temos de usar meios políticos para eliminá-la". "Parti decidida 'a anunciar o Evangelho com a minha vida' a exemplo de Charles de Foucauld que tinha incendiado minha existência. Trinta e três anos depois, anuncio o Evangelho somente com minha vida e queimo de desejos em continuar fazendo isso até o fim". Annalena Tonelli |
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