Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

por Emanuela Citterio

lguém pode sorrir, sabendo que em 2002, na era da internet e dos celulares, existem na Itália pessoas que ainda insistem em usar um aparelho radiotransmissor e receptor", diz o professor Andrea D'Agostino. "Porém, na Ásia, América e África, vivem milhões de pessoas que só podem se comunicar por meio de rádio e que se acham muito felizes quando podem ter um rádio transmissor, embora muito antigo, que às vezes deve ser alimentado com a modesta energia tirada de uma célula solar".

JOVEM DE 80 ANOS

O professor Andrea D'Agostino é um médico aposentado e um radio-amador meio especial. Todos os dia, às 17h30, sintoniza-se na freqüência 14317,5 para coligar-se, via rádio, com o pequeno hospital da missão de Sakalalina, uma aldeia perdida no meio da savana no centro-sul de Madagascar. Faz isso com o mesmo cuidado com que, por muitos anos, visitou seus pacientes durante sua longa carreira no hospital de Nápoles. Ele conta como sua vida mudou: "Sou um médico de oitenta anos que descobriu que uma grande paixão minha podia ser útil a alguém".

O professor D'Agostino é a alma do Grupo de Radioamadores Médicos, uma associação nascida em Roma cerca de vinte anos atrás, que usa o rádio como "ponte" para ajudar quem se encontra em dificuldade, sobretudo na África, por falta de médicos e de estruturas sanitárias. "Por cinqüenta anos me dediquei ao tratamento dos diabéticos - explica ele -. Meu trabalho foi um grande amor que nunca traí. A medicina e o relacionamento com os pacientes preencheram toda minha vida. Quando começou a se aproximar a idade da aposentadoria, senti que sem meu trabalho corria o perigo de acabar meus dias na tristeza. E assim decidi organizar minha velhice".

A paixão pelo rádio e a decisão de obter o diploma de radioamador deram uma virada decisiva em sua nova existência. Em 1998, foi ao hospital missionário em Sakalalina, onde modificou a maneira de enfrentar o tratamento dos diabéticos que antes morriam por falta de terapias adequadas. Quem lhe possibilitou este contato foram Maurício e Inês, dois missionários de Fides, uma associação de leigos consagrados presente em Zâmbia e Madagascar. Inês é obstetra em Sakalalina há trinta anos e Maurício trabalha há dez anos como técnico no mesmo hospital, construído com muito esforço pela Fides em uma das regiões mais isoladas do país.

SAKALALINA

Eles contam o incrível encontro com o professor D'Agostino e sua associação: "Quando chegamos a Sakalalina, não havia nada. Faltava luz, gás, até água. Em Madagascar, existe uma única estrada, asfaltada em parte, que atravessa o país de Norte a Sul. As outras estradas são de terra. Durante a estação seca, dá para passar mais ou menos, mas, na estação das chuvas, até com caminhonete você atola na lama e não sai mais". Sakalalina é uma aldeia isolada na savana à qual, até pouco tempo atrás, se podia chegar só a pé, depois de atravessar um rio. As duas mil pessoas que vivem na aldeia encontram-se numa situação de extrema pobreza, sem nenhum serviço.


Professor D' Agostinho com pessoal médico e pacientes do hospital de Sakalina

Até 1985, o pequeno hospital de Sakalalina não tinha nenhuma possibilidade de se comunicar, nem dentro do país. "A rádio era proibida pelo governo - explica Inês -. Nossa primeira rádio interna começou a funcionar graças a uma autorização especial do ministro da saúde. Com o decorrer do tempo, todos os missionários puderam se comunicar via rádio. Hoje, utilizamos três estações: em Sakalalina, Ihosy e na capital, Antananarivo". Vinte anos depois de Inês, chegou a Sakalalina Maurício, que tinha freqüentado uma escola para radioamadores. Foi aperfeiçoada a estação de rádio com uma antena particular para transmitir a longa distância.

E desde 1994, a missão começou a transmitir e receber do mundo todo. "Tornei-me radioamador por necessidade - conta Maurício -. No hospital me ocupo da manutenção e o rádio é indispensável para meu trabalho. Uso-o para pedir conselhos, quando devo resolver algum problema técnico, para solicitar material necessário ao hospital, para as emergências. A rádio foi o meio do encontro providencial com o professor D'Agostino". O primeiro encontro do médico italiano com o hospital de Sakalalina aconteceu em resposta a um S.O.S. lançado por Maurício. "Sou um médico", respondeu D'Agostino.

"Precisamos de médicos", disse Maurício. "E os diabéticos, como são tratados?". "Estão condenados a morrer", foi a trágica resposta. "Maurício me passou a comunicação" - lembra Inês - "e expliquei ao professor que conseguíamos prestar assistência aos diabéticos só quando chegavam ao hospital, mas quando voltavam para as aldeias encontravam dificuldades intransponíveis e não conseguiam mais tratar-se". D'Agostino não perdeu tempo.

Foi a Genebra falar com o responsável da Organização Mundial da Saúde pela diabetologia, encontrou médicos africanos e alguns meses depois partiu com a esposa para Madagascar. Em Sakalalina, organizou encontros com os médicos locais, os missionários e os doentes, explicando a diabetologia através de cartazes e folders. Os doentes e seus familiares começaram, assim, a aprender os tratamentos e encontraram até a maneira de manter em baixa temperatura as doses de insulina num vaso de barro.

DOENTES AJUDAM DOENTES

"O professor D'Agostino e os outros médicos continuam nos acompanhando da Itália" - continua Inês - "Eles organizaram uma parceria entre os diabéticos tratados num hospital de Nápoles e os do nosso hospital. Os diabéticos italianos criaram uma associação, nos enviam insulina e até adotaram alguns diabéticos malgaxes". Desde dezembro de 2001, os radioamadores de Rapallo, a cidade onde mora o professor D'Agostino, conseguiram inaugurar uma estação de rádio num hospital de Gênova, em colaboração com a clínica de doenças infecciosas e tropicais da universidade, que se tornou um ponto de referência para quem na África deve enfrentar os muitos e graves problemas causados por essas doenças.


Inês com alguns pacientes

O hospital de Gênova tem um departamento especializado no tratamento da lepra e todos os médicos especialistas estão disponíveis para dar consultas via rádio. Maurício tem um ampla lista de casos em que a rádio resolveu problemas médicos e questões técnicas. Como aquela vez em que os ratos tinham roído os fios da fotocopiadora e a assistência técnica foi fornecida da Itália por outro radioamador, ou quando Inês tinha problemas para renovar o passaporte e recebeu um conselho de um funcionário da embaixada que, por acaso, estava escutando. O professor D'Agostino dedica-se em tempo integral às necessidades de Sakalalina e das outras missões que conheceu através de seu aparelho radiotransmissor. Ele tem uma receita simples para manter a juventude: "É o amor que faz viver e que torna tudo muito mais leve".

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