Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

da Redação

No dia 8 de dezembro de 2002, festa da Imaculada, Giorgio Paleari nos deixou. Pouco antes, ele nos animava, entre dores, com a esperança de breve regresso, recuperado. Mas foi para os braços do Pai, deixando-nos a saudade e um vazio difícil de suportar. Em singela homenagem, publicamos breves reflexões, retiradas de seus originais sobre a Missão

Características da espiritualidade missionária:

A paixão pelo Cristo Vivo e pelo Reino

omente quem tem um vínculo e uma intimidade excepcional pelo Mestre pode percorrer o caminho da missão sem retorno. Os caminhos da proximidade com o Mestre podem seguir diferentes métodos, mas ninguém pode se aventurar no empreendimento da missão sem ter sido arrebatado pelo amor do Senhor.

A paixão pelo Cristo missionário é o eixo motivador da própria espiritualidade. Qualquer experiência de Jesus que não passa através da solidariedade com os abandonados, faz da experiência religiosa uma aventura romântica e intimista, mas não atinge o núcleo da experiência religiosa cristã.

O sentido do envio e da saída

O sentido do “sair da própria terra” significa a radicalidade de pertencer somente a Deus e ao seu projeto. Quem conduz a missão é Deus. É Ele que toma conta completamente da vida dos missionários e das missionárias, para conduzi-los aonde

Ele quer e segundo a maneira que Ele quer. Sem saída, não há missão. É preciso sair, mais do que tudo, da própria vida. Quem retiver a própria vida vai perdê-la, mas quem a oferecer, irá ganhá-la para sempre.

“Andar contra a corrente”

Missão é encontro das pessoas no caminho e não na segurança de uma casa. O missionário, nas trilhas de Jesus, rompe qualquer tipo de fronteira e passa todas as fronteiras, sobretudo institucionais. Não veste a roupa do já sabido e do já conhecido. Há um impulso que empurra os missionários a nunca se adaptarem a nenhum lugar e a nenhuma situação. Eles subvertem o estabelecido e qualquer casa lhes é estreita e limitada.

Pessoas de admirar, mas não a serem seguidas, tamanho o inconformismo que transmitem. A “loucura” missionária é parte integrante da sua espiritualidade. Neste sentido, a missão vive a polaridade de ser estimada e valorizada e, ao mesmo tempo, de ser controlada e exorcizada, pela carga de subversão que a envolve.

Opção evangélica pelos pobres

O profetismo e a opção pelos pobres andam juntos, e também o martírio, como conseqüência de uma vida radicalmente doada aos outros. Jesus nem tinha lugar para apoiar sua cabeça. Quem não tem um lugar para amparar-se é alguém que fez da rua e do caminho sua morada, cruzando fronteiras e margens, residindo além das razões civilizadas, preferindo a não-vida para desencadear a vida em abundância.

O sonho do Reino, que fervia e queimava na vida de Jesus, podia acontecer somente em sua proximidade histórica e humana com os oprimidos. A radicalidade na vivência da pobreza e no serviço aos mais pobres fez com que muitos missionários e missionárias “perdessem a própria vida” pelos outros. O profetismo, neste caso, está muito mais na doação da própria vida do que na denúncia explícita dos mecanismos de opressão.

Quando alguém, como Damião de Molokai ou João Bosco Burnier, chega a testemunhar, até as últimas conseqüências, dando a própria vida, é porque a causa dos outros, leprosos ou torturados, passa a ser a lógica conseqüência de uma entrega total à causa missionária. Alguns, sem ter tido uma morte violenta, seguiram a trilha do martírio na entrega total de sua própria vida.

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