Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

Este mês, tempo que a Igreja reservou para uma reflexão mais profunda sobre a missão universal, entrevistamos o Pe. Paulo De Coppi – P.I.M.E., diretor do Jornal MISSÃO JOVEM e coordenador da Animação Missionária na Arquidiocese de Florianópolis, Santa Catarina


Pe. Paulo de Coppi
Diretor do Jornal MISSÃO JOVEM e coordenador da Animação Missionária na Arquidiocese de Florianópolis - SC

Pe. Paulo, quando foi que o senhor começou a se envolver com a animação missionária?

á faz 30 anos que me ocupo com esta atividade. Certo dia, quando trabalhava como missionário no Amapá, chegou-me da Direção Geral do meu instituto, o PIME, um convite para voltar para a Itália. Dizia a carta do superior geral: “Chegou a hora de você também dar sua parcela de colaboração no serviço de animação missionária aqui na Itália”. Isso aconteceu em 1973. Mas, com a necessidade de concluir alguns trabalhos, voltei à Itália somente dois anos depois e fui destinado a Belluno, diocese onde já trabalhou, como vigário geral, o saudoso papa João Paulo I. Naquela diocese, situada nos vales das maravilhosas Dolomites, realizei minha primeira atividade de Animação Missionária.

Quando e por que nasceu o Serviço de Animação Missionária na Igreja?

– A pastoral não tem ainda uma história longa. Praticamente nasceu com o Vaticano II, quando os bispos reunidos se deram conta que as comunidades cristãs, diante do boom econômico e da modernização, estavam esfriando na fé, nas tradições e, como conseqüência, perdendo seu entusiasmo missionário, a ponto de questionarem a própria validade da atividade missionária entre os não-cristãos. Neste novo clima, os padres conciliares, no documento “ad gentes”, afirmaram com força que “a Igreja é por sua natureza missionária”. Foi para reanimar o ardor missionário nos cristãos e nas comunidades, sobretudo da Europa, protagonistas do envio de milhares de missionários para a evangelização do mundo não-cristão, que nasceram os Centros de Animação Missionária, entre nós os COMIDIs, em sua maioria impulsionados por missionários com longa experiência em outros continentes. Somente o testemunho e o entusiasmo destes homens e mulheres podiam ressuscitar o ardor missionário tão essencial na vida da Igreja.

Quais os maiores obstáculos que o animador missionário ad gentes encontra?

– “Mais uma Pastoral!”. É uma expressão que o animador missionário freqüentemente ouve dos párocos ou das Comissões Paroquiais, quando os convida a formarem um grupo missionário ou quando propõe realizar atividades de Animação Missionária. Devemos, no entanto, admitir com humildade que nem sempre os animadores têm idéia suficientemente clara do que seja mesmo a Animação Missionária e, diante dos que dizem: “todos somos missionários e tudo que se faz é animação missionária”, embora suas preocupações e sua visão não passem os limites da comunidade paroquial, nem sempre respondem à altura.

Contudo, não podemos negar que, nos últimos anos, pelos grandes eventos de caráter missionário como os COMLA’s (Congressos Missionários Latino-americanos) e, em seguida, os CAM’s (Congressos Missionários Americanos), como pelo devotamento de uns apaixonados pela causa missionária, grandes passos foram dados. Já existem boas estruturas missionárias nos três níveis: nacional, regional e diocesano. Muitas congregações já possuem comunidades trabalhando em áreas carentes do Brasil e além-fronteiras. Os regionais da CNBB também já enviaram missionários para Angola, Moçambique e Timor Leste. Sem dúvida, isso é fruto de um longo trabalho de Animação Missionária.

Quais são as realidades onde mais aparecem os resultados de uma boa Animação Missionária?

– Constata-se uma progressiva mudança de mentalidade nos bispos, sacerdotes, religiosas e lideranças em geral quanto a uma visão de Igreja mais aberta, universal. Fortificou-se a consciência da responsabilidade que cada Igreja tem com a Evangelização do mundo. Constatou-se também o crescente número de cristãos que desejam realizar uma experiência missionária em outros continentes. Na Arquidiocese de Florianópolis, por exemplo, diversas pessoas, até aposentadas, com boa experiência profissional, pastoral e com certa independência econômica, exercem atividades missionárias em regiões carentes do Brasil. Seus exemplos contagiam outros, que já pensam em seguir o mesmo caminho. Todo ano, em julho, 45 missionários da arquidiocese, sacerdotes, diáconos, religiosos e leigos, realizam uma Missão Popular na Igreja irmã da Barra, BA. Numerosos são os que desejam participar novamente desta missão.

E como vem se desenvolvendo a Infância Missionária (IM)?

– É mais uma promissora realidade que se espalha rapidamente pelo Brasil. Seu lema diz tudo: “IM é crianças ajudando e evangelizando crianças”. Isso é o que se propõe a elas. A metodologia é ótima, pois envolve a pessoa toda: mente, coração, braços e pernas (reflexão, espiritualidade e ação). Na Arquidiocese de Florianópolis, acabamos de realizar o IX Congresso da Infância Missionária. É ver para crer: está nascendo uma garotada maravilhosa, entusiasta, de mente e coração abertos aos problemas do mundo e à necessidade de anunciar o Evangelho. Não há dúvida: desses grupos nascerão boas lideranças e missionários para o mundo. O mesmo podemos afirmar dos Adolescentes Missionários, sempre que forem acompanhados por assessores devotados e devidamente preparados.

De tudo o que o senhor realizou neste campo, quais as experiências mais gratificantes?

– Primeiro, não fui sozinho, mas tudo foi realizado pelo COMIDI (Conselho Missionário Diocesano) e outras equipes criadas ao longo dos anos. É uma atividade onde a criatividade pode e deve continuamente criar asas e aproveitar todas as oportunidades. São muitas experiências. Vou apresentar algumas realidades que muito contribuíram para o crescimento do meu espírito missionário nestes últimos anos: a criação da Equipe Missionária Inter-congregacional; a Equipe Missionária dos Movimentos, que promoveu encontros com a juventude e debates na própria UFSC durante a comemoração dos 500 anos da América Latina; o nascimento do Jornal Missão Jovem para interligar os grupos missionários do Brasil e alimentar o espírito missionário nas lideranças; a organização da BANE (Bandas para uma Nova Evangelização) com a finalidade de unir as bandas da cidade para a realização de shows que reflitam os problemas do mundo e da evangelização; as dezenas de Santas Missões Populares; o acompanhamento dos missionários arquidiocesanos em missão; entre tantas outras.

Uma mensagem final.

“Não podemos calar o que vimos e ouvimos” (At. 4,20). A vocação missionária nos desafia a avançar para águas mais profundas. Inquieta-me ver muitos cristãos, e até consagrados, fecharem-se sobre “sua vida privada” e não viverem sua catolicidade. Reanimemos os nossos cristãos e as comunidades para que reassumam aquele ardor missionário que impulsionou os primeiros cristãos. Não se trata de fanatismo, mas daquele entusiasmo que prova a existência de uma fé viva e consciente de sua responsabilidade de passar adiante a Boa Nova do Salvador. Muitos e muitas esperam por nós.

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