Revista "MUNDO e MISSÃO"
Testemunhos da Vida Missionária
Padre
Toucinho por Natércia Costa
RECONCILIAÇÃO NA CARIDADE A história de padre Werenfried começou em 1913. Ele nasceu na cidade de Mijdrecht, na Holanda. Seus pais eram professores, e além dele tinham mais 4 filhos. O patriarca da família sempre teve o sonho de se tornar sacerdote, porém todos seus irmãos faleceram e ele, único, precisou cuidar de sua família. Quando casou, pediu a Deus que, se algum dia tivesse filhos, gostaria que um deles se tornasse padre. E assim aconteceu. Os três filhos que nasceram, incluindo Werenfreid, tornaram-se religiosos. Em 1934, o jovem holandês entrou na abadia de Tongerlo, na Bélgica, e assumiu o nome religioso de Werenfried, que significa "lutador da paz". Depois do fim da Segunda Guerra Mundial, foram expulsos da recém nascida Alemanha Oriental cerca de 14 milhões de pessoas, entre elas 3 milhões de católicos e 3 mil sacerdotes. Em 1947, padre Werenfried, inspirado no mandamento "Amarás o teu próximo", clamou para ajudá-los, pregando a reconciliação e o amor. A situação daquele povo, após a guerra, era caótica: as cidades estavam completamente destruídas, as pessoas sofriam maus tratos e, além de passarem fome, eram vítimas de preconceitos quanto a sua origem. Ele se propôs a cumprir uma tarefa quase impossível: ajudar os padres alemães refugiados, expulsos da Europa central e do leste e principalmente as famílias que passavam fome. A aventura começou quando ele foi convidado para ser o pregador do encontro anual de camponesas e começou a falar do sofrimento dos sacerdotes alemães. Todos se comoveram com as histórias. Seu apelo ativou uma onda de generosidade: "Temos que dar de comer e de vestir a essa gente. Temos de tratar de seus filhos. Eles precisam ter condições para reconstruir a sua casa", dizia pe. Werenfried. Era um discurso desafiante porque a Holanda e a Bélgica tinham sofrido por cinco anos a dura dominação dos alemães e pedir ao povo que respondesse com a caridade não era uma coisa espontânea. Mas aconteceu o milagre da reconciliação. Quem não tinha dinheiro oferecia alimentos e todo tipo de ajuda. Os camponeses doaram toucinho e, em pouco tempo, o religioso ficou conhecido como "padre Toucinho". Como resultado dessa ação, os padres alemães receberam alimentos e roupas e sobreviveram. Padre Werenfried inventou as "capelas volantes", por meio das quais os sacerdotes iam distribuindo o alimento espiritual e material. Da Volkswagen conseguiu 140 carros e distribuiu a eles, para "dar rodas ao Evangelho", podendo assim desenvolver seus trabalhos pastorais nas comunidades distantes. Eram os "padres da mochila". UMA OBRA MUNDIAL Inicialmente, a obra era chamada de "Ajuda aos Padres do Leste" e na Itália era conhecida como "Ajuda à Igreja Sofredora". Após a tarefa cumprida com os padres de mochila, o padre Toucinho, em 1962, foi chamado a Roma pelo Secretário de Estado do Vaticano, por ordem do papa João XXIII, que lhe disse que deveria mudar o nome de sua obra para "Ajuda à Igreja que Sofre" (AIS). Nessa altura dos acontecimentos, a entidade inspirada em Nossa Senhora de Fátima, já prestava auxilio não só no Leste da Europa, mas em todas as partes do mundo. A partir daí, a obra atingiu a América Latina, e foi assim que a Igreja e os bispos do Brasil começaram a receber ajuda da entidade. Três anos mais tarde, as atividades se estenderam também à África. Na cidade de Bukavu (Ruanda), padre Toucinho fundou, em 1966, a Congregação das Irmãs da Ressurreição, a primeira congregação de irmãs exclusivamente africanas. Rapidamente a obra já alcançava o Japão e a China. A entidade estabeleceu-se no Brasil em 1997: em São Paulo e Rio de Janeiro foram instalados os escritórios. Só no ano de 2002 foram realizados 270 projetos, com mais de 80 religiosos e religiosas auxiliados com a ajuda dos benfeitores. A AIS foi reconhecida pela Santa Sé em 1969. E, em 1984, a Igreja, por meio de um decreto da Congregação para o clero, constituiu oficialmente a obra de assistência pastoral, uma associação pública de fiéis com caráter universal. Hoje, a entidade é reconhecida internacionalmente, com 16 escritórios espalhados pelo mundo, presente na Alemanha, Austrália, Brasil, Bélgica, Chile, Inglaterra, França, Irlanda, Itália, Canadá, Áustria, Portugal, Holanda, Suíça, Espanha e Estados Unidos. Mantém, anualmente, centenas de projetos pastorais em 140 países. Ao longo desses 55 anos, a função desta entidade católica tem sido a de angariar fundos para dar auxílio aos trabalhos pastorais dos religiosos, priorizando os projetos que auxiliam as necessidades da Igreja, particularmente nos lugares onde os católicos são oprimidos e perseguidos, e por isso não podem exercer a sua fé. Essa assistência resultou em centenas de vidas salvas e confortadas espiritual e materialmente. As atividades da AIS espalharam-se pelo mundo, o que possibilitou a inúmeros padres, religiosas, seminaristas e leigos realizarem e desenvolverem suas atividades evangelizadoras. Padre Werenfried foi um entusiasta, um trabalhador, um mendigo de Deus. Não se acanhava de pegar o seu "chapéu de milhões" e pedir em favor daqueles que realmente precisavam. Ele tinha um impulso de querer salvar o mundo, por isso nunca media forças, sempre arriscava tudo, com a autoconfiança e, principalmente, confiança em Deus e nos homens. Sempre acreditava que algo mais podia ser feito, que um pouco mais poderia ser dado, sem se preocupar com o quanto aquilo iria custar, pois tinha a certeza de que sempre encontraria a solução. PE. WERENFRIED "Recebendo a notícia da morte do fundador da Aju-da à Igreja que sofre, pe. Werenfried van Straaten, nosso coração experimentou uma dolorosa perda. Por várias décadas, a atividade do padre Werenfried foi um símbolo da caridade ao serviço do próximo e de abnegação na defesa dos valores da civilização cristã em um mundo que está perdendo suas bases espirituais".
Quem se expressou assim foi Alexios II, patriarca de Moscou. Num momento difícil das relações entre Moscou e o Vaticano, esta afirmação pode maravilhar, mas testemunha que nada está perdido no diálogo ecumênico se a base é a partilha e a escuta. A quem lhe perguntava se já não havia muito o que fazer com os católicos necessitados nos países saídos da ditadura comunista, pe. Werenfried respondia: "Devemos enxugar as lágrimas de Deus em qualquer lugar em que ele esteja chorando". A AIS ajudou católicos e ortodoxos em obras das respectivas Igrejas e no sustento de sacerdotes e seminaristas. Mas destinou também uma grande quantia de dinheiro para programas comuns, de caráter ecumênico, como apostolado através de rádio, TV e jornais. |
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