Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

 

por Pe. José Antônio de Oliveira

uito se tem falado sobre a globalização, fenômeno que tem provocado mudanças rápidas e radicais em toda a sociedade, e exige de todos, também dos presbíteros, maior clareza quanto aos seus desdobramentos e conseqüências. Seria uma irresponsabilidade de nossa parte ficarmos alheios às questões que afligem o ser humano e ferem a sociedade.

O Concílio Vaticano II afirma que a Igreja precisa estar em constante diálogo com o mundo, partilhando suas “alegrias e esperanças, tristezas e angústias” (cf. GS, 1). Somente conhecendo mais a fundo a sociedade, poderemos com ela dialogar, para sermos uma verdadeira boa-nova.

Desafios

Foi pensando assim que a Comissão Nacional de Presbíteros colocou na pauta de estudos do 10.º Encontro Nacional de Presbíteros (ENP) o tema “O presbítero no mundo globalizado”, procurando discernir o que, na globalização, é incompatível e o que pode contribuir com a proposta evangélica do Reino de vida digna para todos. O objetivo foi buscar “uma visão crítica das mudanças em curso, superando o medo e a ingenuidade”, além de “despertar maior sensibilidade para com os excluídos e sofredores, vítimas do sistema neoliberal”, que globaliza as desigualdades, mas não a solidariedade.

Um primeiro desafio é o de compreender a “globalização”, concebida como a internacionalização das relações entre povos, culturas, religiões e, sobretudo, entre blocos de poder e mercados. Para muitos, não passa de um mecanismo perverso de exclusão, empobrecimento e destruição; outros, porém, a aceitam como algo necessário para o crescimento dos países e desenvolvimento humano, embora reconhecendo limites e falhas a serem corrigidos. Porém, mais do que definir, é necessário saber como lidar com esse fenômeno: como viver e atuar numa sociedade globalizada?

De que maneira podemos ser agentes de transformação, e não meros espectadores desse processo tão excludente? Como ser padre ou leigo(a) engajado(a) na Igreja, sem se deixar levar pelos fortes apelos do individualismo exacerbado e do consumismo insaciável, da ética subjetiva, do modismo, do virtual, da superficialidade?

Há uma série de elementos que nos inquietam: o crescimento do narcotráfico, do poder paralelo do crime organizado e do terrorismo; guerras e tensões internacionais, desinteresse pela política, corrupção em todos os níveis, permissividade sexual, relativismo ético, fanatismo religioso, imediatismo e narcisismo, degradação da família, exclusão crescente, confusão entre o real e o virtual, perda do senso do sagrado.

No campo da fé, há milhões de fiéis insatisfeitos que deixam a própria religião ou Igreja e migram para outras. Muitos são os que buscam uma religião de sentimento, sem precisar necessariamente de Deus, doutrina, templo. Diante disso, podemos ceder à tentação de também anunciar uma religião mais light, sem tanto compromisso, onde os sinais externos substituem o testemunho.

Ou, pior ainda, trair o Evangelho para atrair adeptos. Sem contar aqueles para quem o fiel passa a ser considerado apenas como um consumidor e a religião uma mercadoria a ser vendida. Nesse cenário, cresce, a cada dia, a privatização do religioso, o fundamentalismo, a busca de comunidades emocionais, o esoterismo e pentecostalismo. Surge também uma nova figura de padre, não mais o irmão entre irmãos, amigo de todos, sobretudo dos mais pobres e sofridos, discípulo do Mestre e da comunidade; não o presbítero pastor do rebanho, profeta que defende a vida, o pai que atende cada pessoa, mas o padre carismático da TV, da rádio, do show, da música, das massas.

Um outro fenômeno que nos incomoda é a chamada “destradicionalização”, uma fase de transição, onde os costumes e valores tradicionais são questionados e, muitas vezes, substituídos. São símbolos, vínculos, muitos deles considerados até então como sagrados e intocáveis. Esse confronto entre o já definido e o novo a ser construído exige discernimento pessoal, clareza e maturidade nas opções, consciência ética. As reações diante desse confronto podem ser de insegurança, medo, crise, desistência.


Padre e irmã missionários na Filipinas

Como pode ser também a oportunidade para valorizar o ser humano, a emoção e os sentimentos, as expressões corporais e afetivas, superando o excessivo racionalismo, tão comum entre nós. Dentro desse contexto, o 10.º ENP trouxe para a reflexão alguns assuntos que merecem atenção especial. O primeiro deles foi a afetividade e sexualidade, área complexa e desafiante. “A vivência do celibato e da afetividade equilibrada numa sociedade hipersexualizada e erotizada é exigente.

A sexualidade tanto pode ‘configurar’ como ‘desfigurar’ a pessoa”. O ideal é encontrar na afetividade uma forma de “saborear os encantos da amizade, do amor, da espiritualidade, da mística”; uma fonte geradora de “alegria, paz, serenidade, generosidade, desprendimento”. Por outro lado, a afetividade mal trabalhada pode provocar o jogo duplo, “a inveja, o desejo doentio de mando, o carreirismo, o egoísmo, a rispidez, o mau humor, a indiferença, a agressividade, a inflexibilidade, a rigidez, o autoritarismo e o sectarismo”.

Espiritualidade e relacionamento

Um segundo aspecto diz respeito à espiritualidade. Os presbíteros são “administradores dos mistérios de Deus” (1 Cor 4,2). Têm por missão lidar com o sagrado e sustentar a espiritualidade do povo. Contudo, muitos presbíteros são ou se consideram “espiritualmente subnutridos”. É comum o relaxamento no que diz respeito à escuta da Palavra, à oração, à vivência dos sacramentos, à caridade pastoral, ao espírito de comunhão e disponibilidade missionária.

Outro elemento é a relação dos presbíteros entre si, com o povo e com o bispo. É preocupante o isolamento e a superficialidade nas relações. Espera-se que o presbítero saiba relacionar-se com seu povo com respeito, transparência, diálogo e misericórdia; que demonstre espírito de comunhão e disponibilidade para o serviço em relação ao bispo; e que, com os companheiros tenha um relacionamento marcado pela abertura, cooperação e verdadeira fraternidade.

Diante de toda essa complexidade do mundo globalizado, soa em nossos ouvidos a palavra de Jesus: a sociedade tem sua maneira de agir, mas “entre vocês não será assim” (Mc 10, 42-43). Somos chamados a ser sinais de algo diferente. Desafiados a assumir “um estilo de vida não-consumista e não-hedonista”, de maneira sóbria e coerente com o que pregamos. Conscientes de nossa fragilidade, dos medos e incertezas que nos deixam inseguros, somos convidados, na fé, a construir relações adultas e saudáveis com as pessoas, com Deus e com o mundo.

Numa atitude humilde de quem se reconhece “apenas servo”, aprendemos a buscar na espiritualidade o caminho para viver o ministério na sua dimensão profética e pastoral, que é também o caminho de nossa realização e do encontro com a alegria. Superando a tentação da sociedade neoliberal, precisamos entender que nossa missão, muito mais do que garantir lugar de destaque no mercado, é a de sermos sinais do Reino.

Contato: E-mail: oliveira@uol.com.br

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