Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

As Missões:
“O sonho de minha vida”

por Grígory Mendes

“Fiz o meu trabalho na resistência e sentia que não tinha mais força para continuar,
andava nervoso por achar que
o país precisa é de sangue
novo” (Dom Ximenes Belo)

O Homem

arlos Felipe Ximenes Belo nasceu em fevereiro de 1948, em Viacalama, uma aldeia do Timor Leste. Em 1968, partiu para Lisboa para freqüentar o Liceu Salesiano do Estoril. Regressou a Dili em 1974, para ensinar no colégio Salesiano.

Voltou a Portugal, em 1976, para estudar teologia na Universidade Católica de Lisboa. Três anos depois, prosseguiu os estudos eclesiásticos em Roma. De volta a Portugal em 1980, foi ordenado padre. Um ano depois, hei-lo novamente em Timor, como diretor do colégio salesiano. O trabalho favoreceu-lhe o contato com a juventude sedenta de liberdade, fornecendo-lhe as bases de uma relação duradoura com os que iriam desempenhar um papel histórico no futuro do país.

Sua paixão por música e futebol perde apenas para a paixão pela intransigente defesa da liberdade e da paz de seu povo. Corajoso, condenou publicamente a crueldade e o abuso das forças armadas, a guerra psicológica e as constantes violações dos direitos humanos. Pela condenação pública da violação dos direitos humanos, e na defesa do seu povo, foi-lhe atribuído o Prêmio Nobel da Paz, em 1996, junto com José Ramos-Horta, outro defensor da causa timorense.

O Bispo

Ao receber o Nobel,
Dom Ximenes Belo proferiu: “O homem é um ser para a liberdade. Isso significa que
a realização individual está completa quando se é
capaz de decidir sobre as próprias ações e assumir a responsabilidade das suas ações, sem estar sujeito a qualquer tipo de intimidação”

Em 1983, o Papa João Paulo II nomeou-o administrador apostólico da Diocese de Dili e, em 1988, foi sagrado bispo. Sua personalidade dócil e jovial atraiu logo a confiança dos mais humildes. Adquiriu experiência na administração da diocese e livre trânsito em todas as esferas de poder, pois domina os idiomas tétum, português, inglês, italiano, bahasa Indonésia.

Com o tempo, tornou-se a única voz apelando para a liberdade do Timor. Declarou: “O mundo não sabe de nada! Timor é um caso de desconhecimento mundial, exatamente como foram os campos de concentração na época da Segunda Guerra. Depois, todos se chocaram, mas já era tarde”. Dom Ximenes Belo suportou a vigilância diária da polícia secreta, que a tudo anotava. Seus telefones estavam sob escuta, o fax foi controlado e as visitas, observadas.

Em duas ocasiões foi alvo de emboscada, felizmente frustradas. Dizia: “Há muitos militares no Timor Leste e isso não contribui para desanuviar a situação”. O dia 12 de novembro de 1991 passou à história do Timor como a data do massacre de Santa Cruz. Na ocasião, 271 timorenses foram mortos; 103, hospitalizados e 270, desaparecidos. O prelado deu abrigo a mais de 250 fugitivos, e os acompanhou de volta à casa, na esperança de que estariam em segurança. Entretanto, muitos deles nunca mais foram vistos. Sua coragem na defesa da justiça, da paz e da dignidade de seu povo, levou-o a fomentar o diálogo com Jacarta, na salvaguarda dos interesses timorenses.

O Superior dos salesianos, padre Pascual Chávez,
afirmou que o ex-administrador apostólico de Dili
“dará sua contribuição à evangelização, juntamen-
te com seu testemunho em favor da justiça e da
paz, com estilo salesiano, naquela terra com
tama-nhas necessidades. Sua presença será
também um estímulo à comunidade salesiana”.

Transformou-se em símbolo de resistência e fascinava até os adversários indonésios que, no entanto, pressionaram o Vaticano pelo seu afastamento. Ao ouvir de Jacarta as promessas de independência, declarou: “Gostaria de ver primeiro. Não apenas promessas”. Finalmente, em maio de 2002, o Timor Leste obteve sua total independência e se transformou no 191.º membro da ONU. Em novembro desse mesmo ano, Dom Carlos Felipe Ximenes Belo, com problemas de saúde, renunciou ao cargo de Administrador Apostólico do Timor Leste, evocando o parágrafo 2 do art. n.º 401 do código do Direito Canônico (renúncia por questões de saúde).

Ao renunciar, deu uma exemplar prova de prudência, ao declarar à Agência Lusa: “Como vamos ter um novo administrador apostólico, é melhor que eu me cale sobre os assuntos importantes do território e da diocese porque depois, se falo, o novo bispo pode ficar em maus lençóis. É melhor que ele fale, porque ele terá a visão dele e da Igreja”.

O Missionário

Dom Ximenes Belo, bispo salesiano, ficou afastado das suas principais funções até recentemente. Agora, restabelecido em Portugal, recebe outra missão. Será missionário em um país africano, também vítima de longa guerra civil. Dom Belo trabalhará na diocese de Maputo, Moçambique. Ele declarou: “Tenho a vocação teológica de que todo bispo, todo padre, deve unir as pessoas e não dividir”. “Finalmente, chegou o momento, – entusiasmou-se –, de pôr em prática o que sempre ensinei aos cristãos de Dili, obedecendo ao Senhor: ‘Ide por todo o mundo e anunciai o Evangelho a todos’. Com alegria e muita esperança quero dar minha humilde colaboração à construção do Reino e ao desenvolvimento do povo moçambicano, realizando um sonho longamente acalentado: ir para as missões”.

Timor Leste, encruzilhada de Cultura
Uma crônica de Dom Ximenes Belo*

(...) Com a independência, em 20 de maio de 2002, Timor Leste torna-se membro da ONU, da Comunidade de Países da Língua Portuguesa, do Movimento dos não-Alinhados, observador da Asean. Por tudo isto, Timor Leste aparece como uma “tapeçaria” com vários coloridos e motivos. Várias são as culturas que aí coexistem: sub-culturas locais (fataluco, makassai, tétum galole, mambai, bunak, kemak, baikeno, etc) compenetram-se com tradições luso-cristãs, influências indonésias e novos elementos culturais do mundo moderno (ciência, tecnologia e informática).

Aos timorenses apresenta-se o problema de defender a sua cultura e a exigência de abertura às culturas do “Malai”. Nos meios indígenas, assistimos a um fervilhar de construções de Uma Luliks (monumento onde se guardam objetos, que testemunham a história da família), a intensificação de cerimônias “gentílicas”, como estilos e funerais. Novos intelectuais fazem-se paladinos da “cultura maubere”, defendendo tradições dos ancestrais, lançando críticas injustificadas contra o cristianismo, a presença portuguesa e a Indonésia.

Por outro lado, os timorenses estão abertos às influências de outras culturas. (...) Para nós, o mais importante é que os timorenses saibam conservar a sua cultura e façam o esforço por cultivá-la e enriquecê-la. Mas também desejamos, e estejamos abertos às outras culturas, contanto que saibam aproveitar os aspectos positivos que possam levar os timorenses a serem mais homens e mulheres. (...) Os timorenses têm a possibilidade de, no campo da cultura, competir com os seus irmãos lusófonos (povos que falam a língua portuguesa), e de apresentar ao mundo as riquezas das suas tradições, folclore, usos e costumes, que ainda constituem um campo virgem a ser explorado. Para isso, o domínio do português será a chave do sucesso. Mas também uma necessidade.

* Crônica publicada no “O Semanário”
jornal timorense – 08/12/2003

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