Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

A solidariedade dos
missionários

As Missionárias da Imaculada e os Missionários do Pime trabalham no sul da Índia.
Eles estiveram entre os primeiros a ajudar as vítimas do tsunami, desastre natural ocorrido no dia 26 de dezembro de 2004. Apresentamos dois relatos, o das irmãs e o de um missionário, que descrevem sua presença solidária desde o início da tragédia

Depoimento de Irmã Sebasti Amali Hirudaya Missionária da Imaculada

cidadezinha de Karingal (na região sul-oriental da Índia) está localizada entre 7 e 8 quilômetros do litoral, pouco acima do nível do mar, de maneira que o tsunami não a atingiu diretamente. Colachel, a área que sofreu os piores e mais sérios danos, encontra-se a 8 quilômetros de Karingal, em cujo hospital estão internados os feridos mais graves, enquanto as vítimas de ferimentos leves vêm diariamente para serem medicados e, em seguida, retornam, não para suas casas, que não existem mais, mas ao lugar onde existiam as suas casas, receosas de não receber nem o minguado auxílio que o governo continua distribuindo.

Porém, também isso está difícil, em vista do perigo de novas ondas anômalas:

a polícia afasta as pessoas para trás, ordenando-lhes a que não voltem, enquanto não receberem o comunicado oficial de que o perigo já passou. Pela mesma razão, foram fechados os hospitais próximos do mar. Continuamente descobrem-se cadáveres na praia. A polícia afirma que tais corpos devem ser sepultados na areia, mas é difícil cavar covas na praia e o perigo iminente de novas ondas impede a aproximação das pessoas que querem ajudar.

Visitando as aldeias, tivemos a oportunidade de reconhecer e aferir a amplitude da tragédia:

os sobreviventes choram a perda de seus entes queridos e de seus bens. E, diante de tal desespero, as palavras humanas perdem sentido, parecem vãs e, então, só nos resta chorar com quem chora. De todo lugar aparecem os sem-teto, que são alojados nas igrejas, nos templos, nos vários centros sociais. Também na nossa casa de Karingal acolhemos cerca de 30 pessoas, homens, mulheres e crianças que perderam tudo e agora vivem conosco. A partir do segundo dia após o cataclismo, nossas irmãs iniciaram o trabalho de assistência. O povo de Colachel, sobretudo o das aldeias de Kottipad e Alickal, perdeu absolutamente tudo e, no momento, está hospedado na igreja e nos ambientes da escola católica.

São milhares e milhares. Durante os dez primeiros dias, nossas irmãs, colaborando com uma equipe médica local, fizeram de tudo para atender as pessoas atingidas pela tragédia. Depois, o governo central organizou 40 campos de refugiados nas áreas mais flageladas da província de Kanyakumari. Em cada campo operam um médico, uma enfermeira e estudantes da faculdade de medicina. Nossas irmãs irão também para Manakudi e outras aldeias para ver quais são as principais necessidades daquela gente.

Comenta-se que há aldeias onde ninguém ainda pôde chegar para prestar auxílio:

há somente rios de lama onde existiam estradas, o que torna praticamente impossível atingir algumas regiões. Não se sabe com precisão quantos são os órfãos. Será possível definir sua quantidade somente quando todos se reagruparem em seus lugares de origem, pois, por ora, todos perambulam dispersos e em estado de choque. No momento, precisamos urgentemente de remédios, alimentos e água. Só num segundo momento, quando toda a região estiver saneada e for efetivado o cálculo total das perdas humanas e materiais, é que poderemos pensar na reconstrução das casas.

Pe. Anthony Thota é missionário
do Pime em Tamil Nadu, na Índia
Sul-oriental, o estado indiano
mais flagelado pelo tsunami.
Através de uma comunicação
telefônica, no início de janeiro,
ele nos deu o seu depoimento.

“No momento, sou o único padre missionário do Pime presente na região, mas em breve deverão chegar reforços de Andhra Pradesh (um estado-membro da região central da Índia). Por enquanto estou contando com a ajuda das pessoas de nossa paróquia de Madras (cidade principal do estado de Tamil Nadu). No dia do maremoto, corri imediatamente para Pattinappakkam, um dos lugares mais flagelados, muito perto da cidade; agora estou aqui já há três dias, mas continuo passando de aldeia para aldeia, fazendo o que posso”.

Em Pattinappakkam, o cenário da devastação é terrível. “Logo depois do tsunami, tudo estava arrasado, devastado – descreve pe. Anthony –. As casas dos pobres pescadores foram varridas, todas. Por sorte, ou pela própria experiência, alguém havia desconfiado que, depois da primeira onda não particularmente violenta, outras, ainda piores, iriam se seguir e conseguiu pôr-se em salvo”. Destruição total, cadáveres por todo lado.

Pe. Anthony aponta o dedo contra o Estado:

“O governo nunca dirá o número verdadeiro dos mortos e por um motivo muito simples: ele deveria doar 100.000 rupias (cerca de 7.000 reais) para cada vítima, por isso procura minimizar”. Na realidade, há 5.000 mortos e 2.000 feridos graves na região entre Nagappattinam e Vailankanni, a área mais flagelada. E mais de um milhão de sem-teto em todo o estado de Tamil Nadu. Não faltaram pequenos milagres autênticos a emergir do desastre. A salvação do Santuário mariano de Vailankanni tem algo de milagroso, na opinião do padre missionário (cf Notícias, p.7). Mas o maior milagre foi o despertar da solidariedade aos últimos da terra, os dalit ou párias, “intocáveis” e excluídos: os mais pobres entre os pobres.

Os sem-casta representam de 60 a 70% da população local e muitas vezes nem são computados entre as vítimas por duas razões básicas:

ou porque vivem em aldeias isoladas, totalmente destruídas pelas ondas; ou por mero desprezo humano. “A Constituição da União Indiana (promulgada em 1947) veta e condena a discriminação de casta, mas não é respeitada por ninguém – denuncia pe. Anthony –. Aqui há miséria, há analfabetismo. Com o dinheiro enviado pelo Pime compramos arroz, lentilha, água potável, colchonetes e remédios. Junto às irmãs da Imaculada, que trabalham no hospital, visitamos as aldeias, socorrendo quem quis ficar e, depois de vários dias de distância do desastre, ainda encontramos situações trágicas, como cadáveres insepultos, órfãos, pessoas feridas no corpo e no espírito, gente carente de tudo”.

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