Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária


Alunos aprendendo Serigrafia e o Pe. Maurílio

O que se pode oferecer aos adolescentes que ficam o dia inteiro na rua, sem ideais e sem interesses? No mês de abril deste ano, pe. Maurílio Maritano, do Pime, recebeu o diploma de cidadão honorário de São Paulo pelos serviços que, há mais de 20 anos, vem prestando em favor dos pobres e marginalizados da periferia, na região sul da cidade. Ultimamente, ele dedica grande parte de seu tempo ao CESPAT (Centro Social Pe. Aldo da Tófori) do Pime. Mundo e Missão entrevistou pe. Maurílio sobre sua atividade

por Alberto Garuti

Fale-nos do trabalho que agora está realizando.

Sou responsável pelo CESPAT, fundado com este nome com o objetivo de prestar um serviço à população carente da região. Nosso trabalho quer ser um serviço para esta população, especialmente para adolescentes (de 14 a 17 anos) em situação de risco. Isto é, damos preferência absoluta a gente que corre risco de perder a vida, por exemplo, por terem se envolvido em tráfico de droga.

Em que consiste esse trabalho?

- O trabalho consiste em promover cursos de iniciação profissional. Temos dois cursos: o primeiro de informática, que compreende o básico e a internet. No segundo semestre, começamos um curso de manutenção e montagem de micros. O segundo é o curso de serigrafia (estampa em camisetas ou adesivos), e estamos preparando o curso de quadricromia, que nada mais é do que um curso de serigrafia mais perfeito. Além desses cursos, temos o de cidadania, que eu considero o fundamento dos demais: se a informática e a serigrafia se preocupam mais com a aprendizagem técnica, a cidadania visa a uma formação humana e social dos adolescentes.

Você disse que escolhe adolescentes em situações particulares de risco. Não gostaria de descrever um pouco essas situações?

- São pessoas, especialmente meninos, que vivem em estado de pobreza, de abandono, que a família não tem condições de acompanhá-las, por isso passam grande parte do tempo na rua. Todos sabem muito bem o que é droga, alguns já usaram, outros estão envolvidos. Um deles foi assassinado alguns dias atrás: era um verdadeiro líder, muito criativo e já tinha projetos para deixar essa vida.


Adolescentes aprendendo informática

Quantos são os alunos?

- Ao todo, são 200. Os da informática são divididos em turmas de 18, pois temos 18 micros. Cada turma trabalha duas horas e vem duas vezes por semana. O curso de informática funciona o dia inteiro. Eles vêm também uma vez por semana para o curso de cidadania. Os da serigrafia estão divididos em três grupos: a aula dura três horas. Com baixo custo, os alunos deste curso podem montar em casa seu próprio ateliê, e assim, tornarem-se autônomos. Eles vêm também uma vez por semana para uma aula de cidadania. Dar só a parte técnica, para nós, não seria suficiente.

Fale-nos um pouco do curso de cidadania.

- É um pouco o pano de fundo. A gente percebe que, desde quando começou, o ambiente melhorou muito. Antes vinham aqui, faziam seu curso e iam embora. Agora, na cidadania, há bate-papos sobre quem sou eu, o que é a sociedade. Falamos de aspectos religiosos, mas não a partir de uma religião em particular. Falamos de Deus, do Evangelho, de maneira profunda, mas sem falar de uma determinada Igreja, porque entre eles há pessoas de outras religiões. De início, eles reagiram um pouco, não aceitavam nada, mas com dinâmicas várias começaram a aceitar. Notei que melhorou muito a amizade entre eles, há mais alegria, cumprimentam os funcionários. Antes era uma frieza total.

Eles pagam?

- Nós pedimos uma colaboração de dez reais por mês, mas se alguém tem problemas e não pode, conversamos com ele. Que o curso seja totalmente de graça não parece nem justo nem pedagogicamente certo. Quem não pode dar 10, dá 5 ou até menos. E quem não pode dar nada se prontifica a fazer um serviço voluntário.

E os instrutores?

- São todos pagos e registrados. O CESPAT não se mantém pela colaboração dos alunos, mas por doações de amigos e pessoas que ouviram falar dele. Não arrecadamos, em mensalidades, nem uma quinta parte daquilo que gastamos.

Os cursos são reconhecidos?

- Para ter o diploma, os alunos devem passar pelos exames e ter um número mínimo de presenças. O diploma que damos é interno, mas, além do nosso, os alunos têm um diploma do SENAI que reconhece os cursos feitos aqui, tanto em informática como em serigrafia. Temos também outros cursos para adolescentes e adultos, como de espanhol, telemarketing, auxiliar administrativo, telefonista e atendimento ao público. Nesse caso, os alunos têm somente o nosso diploma.


Pe. Maurílio e o Prof. Eron com os alunos de informatica

E qual é a duração desses cursos?

- O curso de telemarketing dura dois meses. Espanhol, um ano, informática, serigrafia e os demais, 6 meses. Mas estamos estudando a possibilidade de ficar com os alunos mais tempo, porque para uma formação mais aprimorada é pouco. Estamos pensando em pelo menos um ano.

O que o motivou a dedicar-se a essa atividade?

- Andando pelas ruas do bairro, podemos ver uma grande multidão de adolescentes que ficam sem fazer nada o dia inteiro, não têm interesses, conversam e pensam em coisas que não prestam, caindo facilmente na droga. Quase todos tiveram contato com droga, pelo menos esporádico. Sabem tudo sobre droga, violência e o que acontece em certos ambientes.

E ninguém faz nada por eles. As crianças têm creches, os meninos têm casas-abrigo, mas os adolescentes nada. O abandono é total. Na periferia não se tem uma área sequer de lazer para eles. Ficam na rua assim, brincando e fumando. Queremos despertar neles a consciência de que amanhã serão líderes na sociedade e que devem se preocupar em transformá-la. Se não presta, temos que trabalhar para transformá-la.

Houve mudanças nesses adolescentes, depois dos cursos?

- Temos pessoas que reconhecem e agradecem. O interessante é que eles agora participam sempre e com interesse do curso de cidadania. É ali que eles podem conversar sobre seus problemas, sentir-se acolhidos e respeitados.

Esse é o primeiro trabalho que você realiza na periferia de São Paulo?

- Comecei nos anos 70, quando era pároco de Vila Joaniza. Minha prioridade, no início, era reunir e encontrar o povo de casa em casa. O esquema de trabalho era sempre o mesmo: anunciar o Evangelho, evangelizar, mas lembrando que a missão é lá fora. Eu digo sempre ao povo: não basta rezar e pedir a Deus que resolva os seus problemas. Ele nos dá força para trabalharmos. Tivemos que entrar nos movimentos sociais. Movimento forte foi o movimento de saúde que levou a construção do hospital da Pedreira.

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