Revista "MUNDO e MISSÃO"
Testemunhos da Vida Missionária
Missão é Do Peru à Republica Democrática do Congo, Hernán Romero Arias conta a sua experiência de 15 anos como médico missionário no hospital de Isiro, no Congo, durante os difíceis anos da guerra civil. Nativo de Huancayo, irmão Hernán agora é membro da direção geral dos combonianos em Roma por Vladimir Osório Uma mulher escolhida por Deus
– Foi certamente uma experiência positiva, rica de valores humanos e espirituais, embora, como acontece nessas situações, não faltassem preocupações e sofrimentos. Mas tudo foi bom e, se pudesse voltar à África, para mais quinze ou vinte anos, eu ficaria verdadeiramente feliz. Quais as dificuldades diárias no relacionamento profissional com os congoleses? – Não posso negar que, quando cheguei, o choque com a cultura e valores tão diferentes foi forte. Além do francês, precisei aprender mais duas línguas locais: o lingala e o zande. Um compromisso notável e indispensável para qualquer um que queira ser missionário é falar a língua local e, em seguida, adaptar-se ao clima, à alimentação e a uma diferente maneira de viver. Foi difícil, mas o desejo de nos aproximar do povo é o que nos sustenta. O sacrifício está implícito na nossa vocação. Nós nos consagramos para servir aos mais pobres e aos mais necessitados. Com as pessoas do lugar nunca tivemos dificuldades de relacionamento. Trabalhei com enfermeiros locais e, após conhecê-los melhor, entendi que eles eram mais disponíveis do que nós mesmos. Talvez nós pretendamos demais. São eles que tentam entender o que queremos, ainda que não saibamos nos expressar em sua língua, e isto facilita muito nosso trabalho... A saudade que tenho do meu Congo vai perdurar enquanto eu ficar longe dele. No dia da minha partida, as pessoas com quem trabalhava, organizaram uma festa e nós nos cumprimentamos assim: Tokomonana! até quando Deus quiser!
– Vivi, pelo menos duas vezes, em situações de guerra. Os soldados chegaram em nossa casa, roubaram tudo o que tínhamos e nos espancaram... Foi uma triste experiência; somente com profunda fé em Deus é que se pode superar o trauma e levantar a cabeça. Muitas vezes nós nos perguntávamos: “Por que as pessoas têm que sofrer tanto assim? O que provoca tamanha violência?” A resposta é obvia. O Congo é um país muito rico em minérios, como ouro e diamante; possui terras férteis, que tudo produzem, especialmente café de ótima qualidade. Obviamente, muita gente está interessada em explorar tais riquezas, seja do Congo como estrangeira. Grupos econômicos e potências internacionais estão envolvidas no comércio de armas que alimentam a guerra. Sem falar, além disso, das intervenções de outros organismos, até os patrocinados pela ONU. Não tenho medo algum de defini-los como escandalosos, pois permitem desperdício de dinheiro, sem beneficiar as populações locais ou as entidades mantidas pelos missionários. Dou exemplos: os professores, com os quais nos trabalhávamos, há mais de dez anos não recebiam salário algum. Mas os funcionários da ONU podiam se permitir o luxo de gastar diariamente 150/160 dólares. Um enfermeiro do nosso hospital ganha entre 25/50 dólares mensais e, portanto, ele tem que trabalhar, e muito, em miseráveis condições. Nenhuma guerra é boa. A vida missionária é comparável a uma belíssima rosa, cheia de espinhos; ou seja, repleta de satisfações e felicidades, mas rodeada de espinhosas aflições.
O seu compromisso foi principalmente como médico. Qual a relação entre missão e saúde? – No Congo, atendemos aos doentes que aparecem pelos mais diferentes motivos. Muitos vêm contagiados por doenças tropicais, outros precisam de cirurgia e assim por diante. Trabalho em hospital das missões é o que não falta. Mas posso dizer que estou satisfeito com o que fiz. Nosso hospital trabalhava em situações de extrema pobreza. Toda hora faltava luz, água, remédios... De outro lado, o meu desejo foi sempre o de trabalhar com os pobres e com os meios disponíveis nessa pobreza. Se, na assistência aos doentes ou nas intervenções cirúrgicas, eu contraísse alguma doença, aceitá-la-ia como conseqüência da minha vocação. Com grande sorte, nunca me aconteceu algo assim. Creio que ser médico já é uma missão, uma forma de apostolado e de caridade. Mas como religioso, tenho o dever de ouvir e ajudar as pessoas. É impossível “não sujar as mãos” por eles e com eles... e isso os pobres entendem, correspondem, reconhecem e agradecem. E nós devemos ser agradecidos porque eles nos dão seu afeto, do qual todo ser humano precisa. Os congoleses me ensinaram – como! – a ser mais tolerante, não apenas como médico, mas, principalmente, como ser humano. Eles me aceitaram com meus limites. Às vezes, eu ficava nervoso e exigente, mas eles entendiam, continuavam ao lado e ajudavam a me sentir melhor. Portanto, como missionário não só deu, mas também recebeu muito dos seus assistidos! – Sempre fui muito sensível e isso, às vezes, me criava dificuldades. Mas, percebendo como eles, congoleses, me toleravam, prontos a me aceitar, também eu me esforçava a me aproximar deles e a aceitá-los como eles são. Aprendi, pouco a pouco, a “perder” tempo com eles, sentar-me e falar com eles, a compartilhar. Em nossa sociedade ocidental somos obrigados a ser eficientes e rápidos. Trabalhamos feito loucos e caímos num ativismo desumanizador. Eles, não. Sempre encontram o tempo para se sentar e beber um copo d’água com as pessoas e, juntos, prosear. Eu também aprendi a me sentar com eles, falar e ouvir, e isso é muito importante. No começo, eu queria que eles fossem objetivos, rápidos, e que chegassem logo ao centro das questões. Eles, porém, me ensinaram quanto é importante sentar, refletir e compartilhar opiniões, antes de discutir um problema. Eles dão muita importância à palavra, ao diálogo, enquanto nós estamos acostumados à ação. Agora eu, antes de enfrentar um problema, paro, sento-me, escuto, embora isso possa parecer perda de tempo. São valores que o missionário deve aprender e lhes dar o justo valor. Às vezes, o nosso complexo de superioridade nos impede de reconhecer os valores africanos. Qual mensagem de esperança poderia transmitir? – Queria lembrar que Deus ama a todos, chama a todos, indistintamente: leigos, sacerdotes, religiosos, religiosas, a colaborarem com a missão além fronteiras, consumindo sua vida em favor dos mais pobres e necessitados. Se eu consegui trabalhar 15 anos num hospital africano, é porque muitos compartilharam generosamente nossa experiência recíproca. Hoje, há muitos peruanos ad gentes, entre os quais dez combonianos, que precisam do nosso apoio material e espiritual. Podemos ajudá-los de muitas maneiras, até com um singelo Pai Nosso. |
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