Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

ntardecia em 20 de julho de 2003. Jonathan De Guidi, 5 anos e poucos meses, e sua tia Margherita voltavam de um passeio de bicicleta, quando um automóvel atropelou-os e os matou. A morte de Jonathan transtornou familiares e amiguinhos. A dupla tragédia também deixou aturdido o tio do garoto e irmão de Margherita, pe. Davi De Guidi, missionário comboniano, há três anos na diocese de Beira, em Moçambique. A ele foi confiada a infausta tarefa de celebrar as exéquias de ambos.

Durante a homilia, Pe. Davi recordou a breve vida de Jonathan:

“Ao voltar da África, pedi a meu sobrinho para não comprar brinquedos só para si mesmo, pois ele precisava aprender a dividi-los com quem nada tem. Por exemplo, com meus meninos da África. E Jonathan pediu, então, à sua mãe que lhe comprasse um cofrinho, onde pudesse recolher o resultado de suas renúncias, destinado aos meninos do tio Davi, em Moçambique, pequenos órfãos da epidemia de aids, vítimas da pobreza extrema”.

Estimulado pelo generoso gesto de Jonathan (que, entre outras coisas, teve os órgãos doados, salvando três vidas) o tio missionário, ainda na homilia do funeral, abriu um caminho de esperança:

“A semente que morre no amor, pode renascer com frutos de amor”.

E acrescentou:

“Ajudem Jonathan a alimentar seu cofrinho. Continuem o que ele iniciou”. Entre a lutuosa multidão que se comprimia na Igreja, estava o presidente de um Banco local. “Senti-me no dever de dar seqüência ao gesto de Jonathan”, recorda hoje Lorenzo Soffiati, presidente da instituição. “Disse ao Pe. Davi que, como entidade de crédito, estávamos dispostos a fazer nossa parte”.

Desta forma, nasceu a iniciativa “Apoio ao cofrinho de Jonathan”:

- uma conta corrente, aberta com uma subscrição do próprio Banco, para as necessidades da missão de Mangunde, arquidiocese de Beira, onde o tio de Jonathan acompanha, com outros combonianos, mais de dois mil rapazes, dando-lhes de comer, estudo, escola e ocupação.

E a generosidade do povo, sacudido pelo exemplo do garoto, não demorou a manifestar-se:

“No primeiro ano de arrecadação recebemos 30 mil euros (mais de cem mil reais) – lembra Pe. Davi –. E os empregamos na adoção de 300 crianças em nossos quatro institutos, na compra de leite em pó e remédios, na aquisição de carrinhos-de-bebê”.

Os fundos do “Cofrinho de Jonathan” ajudaram também a construir um pequeno hospital para vítimas da aids, em colaboração com a Comunidade de Santo Egídio.

“Ele pode acolher 200 doentes por dia, apenas uma gota entre os 20 mil soropositivos da região – suspira Pe. Davi, apresentando uma nova iniciativa –. A região, chamada de ‘corredor esquecido’, precisa propor alternativas aos rapazes e moças.

Queremos construir o centro ‘Esperança’, um projeto de acolhida aos muitíssimos órfãos da aids, para ensinar-lhes um ofício que os torne autônomos e protagonistas do próprio futuro”. O missionário inaugurou recentemente a igreja dedicada aos Santos Mártires de Uganda, em Nhaliapua, uma das quatro missões dos combonianos na vasta área, marcada por 17 anos de guerra civil e atingida por desastrosas inundações. Ele se ocupa também com o trabalho pastoral dos jovens, acompanha as vocações e é responsável por 35 comunidades. Em seus olhos se lê a esperança que prolonga o sorriso apagado na fatídica estrada, mas que, graças ao amor, parece reacender-se em novas faces e em vidas novas.

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