Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

por Márcio Martins

alvador, capital da Bahia, contagia o visitante com a hospitalidade do seu povo, a culinária e sua riqueza cultural e artística. A cidade possui um conjunto arquitetônico de irrefutável importância, tendo o Pelourinho como seu principal ponto turístico, considerado pela Unesco “Patrimônio Histórico e Artístico da Humanidade”.

O bairro abriga mais de 800 casarões dos séculos 17 e 18, igrejas, museus e alguns badalados bares. Suas igrejas guardam histórias e relíquias que remetem o visitante a um passado onde a fé e a arte ocupavam um só espaço. Porém, toda essa beleza cultural, artística e religiosa está ausente da vida de grande parte dos cidadãos. A poucos quilômetros, encontra-se uma periferia suja e maltratada, onde a vida comprova um cotidiano miserável e um futuro sem perspectivas.

INÍCIO E METAS DO GRIMPO

O crescimento totalmente desordenado da cidade gerou favelas e invasões, que originaram bairros paupérrimos, com infra-estrutura que agride os direitos humanos. Entre eles está o gigantesco bairro de Cajazeiras, com cerca de 600 mil habitantes. A Obra católica de caridade internacional Ajuda à Igreja que Sofre (AIS) visitou o bairro e constatou a terrível situação de abandono que as famílias atravessam. Contrapondo o descaso do governo municipal, a Obra encontrou o Grupo de Religiosas Inseridas no Meio Popular (GRIMPO), projeto apoiado e adotado pelo fundador da AIS, o Pe. Werenfried Van Straaten, numa visita que ele fizera a Salvador, em 1965.


Irmã Miriam e Irmã Beata com as funcionárias da padaria

Na ocasião, o padre Werenfried encontrou um grupo de freiras engajadas num serviço junto às comunidades pobres. Porém, as religiosas estavam incapacitadas de prestar o auxílio por tempo integral, pois se sustentavam com as funções de professoras, enfermeiras e assistentes sociais. Assim, o trabalho pastoral com as famílias carentes era feito somente à noite e durante os fins de semana. Padre Werenfried achou injusto irmãs tão empenhadas em ajudar o próximo necessitarem de outro trabalho e, com o então arcebispo de São Salvador da Bahia, dom Eugênio Salles, criou o projeto do GRIMPO. As religiosas receberiam ajuda financeira mensal para se manterem; em contrapartida, poderiam dedicar-se integralmente ao trabalho com as comunidades mais pobres.

As metas do GRIMPO são:

– manter uma reflexão atualizada sobre o processo sócio/político/religioso em que vive o povo empobrecido;
– desenvolver a consciência crítica, no que se refere ao direito à cidadania;
– fortalecer a caminhada das religiosas inseridas num processo de apoio e partilha nas lutas e esperanças.

ATIVIDADES DO GRIMPO

O bairro de Cajazeiras é constituído por famílias que vivem na maior pobreza, totalmente excluídas da sociedade. Falta atendimento médico e saneamento básico, as moradias são precárias, o desemprego impera, idosos estão abandonados, jovens roubam, adolescentes estão fora da escola e crianças se prostituem. É neste sofrido contexto que a AIS acompanhou as religiosas Mirian Heinzen e Beata Fenski (Instituto Coração de Jesus) nas suas atividades do GRIMPO. As duas religiosas mantêm uma espécie de cooperativa formada por padarias caseiras. Mulheres aprenderam, com as religiosas a fazer pães em suas próprias casas, e assim, podem vender a produção pela vizinhança, garantindo o sustento de suas famílias.

“Antes, passava o dia inteiro em casa. Não sabia fazer nada. Hoje, graças às irmãs, estou aprendendo uma profissão e já consigo sustentar minha filha de 1 ano e 7 meses”, afirmou Lucileide, 20 anos, umas das moradoras do bairro. Um trabalho junto à Terceira Idade começou em 1999, com a intenção de ocupar os idosos através de trabalhos manuais. Antes deprimidos, hoje eles têm sede de aprendizado e muitos vendem o artesanato feito em grupo. Além de carinho e atenção, recebem refeições gratuitas e praticam atividades diversas. Tudo isso sem custo, pois a maioria nem sequer recebe os benefícios da aposentadoria. Outro projeto é a gráfica.

As irmãs ensinam jovens a produzirem trabalhos gráficos como cartões de visitas, convites, etc. Por ora, esse é um sonho que se inicia, pois, apesar de possuírem um local, as irmãs dispõem somente de um computador. A oficina de velas é outra atividade promissora. O projeto começou quando as irmãs perceberam um menino (Luciano) muito ativo na Igreja, que chegava faminto aos encontros, sem ter como se sustentar. Morava na rua, abandonado pelos pais. Não sabia ler nem escrever. As irmãs o ajudaram a se alfabetizar e o ensinaram a fabricar velas e terços. Ele já conseguiu até construir uma pequena e aconchegante casa. “Se não fossem as irmãs, ainda estaria na rua. Hoje tenho uma profissão”, afirmou.


Irmã Laurencia Merz com crianças que são atendidas pelo projeto "Famílias Unidas"

As irmãs afirmam que o mais bonito em seu trabalho é ver como as pessoas crescem pessoal e espiritualmente. O mais gratificante é saber que elas não recebem alimentos, mas conhecimentos e habilidades para que possam se sustentar. A AIS acompanhou também o trabalho da irmã Laurencia Merz (da Congregação das Irmãs de Santa Cruz), coordenadora geral do GRIMPO. A religiosa, que veio da Suíça há mais de 30 anos, trabalha no município de Simões Filho (vizinho de Salvador) e desenvolve, há cinco anos, o projeto “Famílias Unidas”, com o objetivo de evitar que as famílias se fragmentem (mães abandonadas, obrigadas a criarem a prole sozinhas).

Hoje, o “Famílias Unidas” atende 75 famílias por mês e conta, esporadicamente, com o trabalho voluntário de profissionais, como advogados e psicólogos. Laurencia concilia evangelização com socialização, preocupando-se com o bem-estar da família e com o conforto espiritual. Também há o projeto das promotoras de Saúde. Nesse trabalho, as voluntárias recebem formação na área da saúde e ensinam a comunidade a se prevenir de doenças e a ter melhor cuidado com a higiene. A irmã Laurencia encontra, em geral, “famílias sem futuro, pois o desemprego é grande; os pais estão despreparados para enfrentar a problemática dos filhos; as famílias não dialogam; além de existir um exército de adolescentes grávidas”.

Ela acrescenta:

“Ninguém tem nada, exceto fome. É preciso que o povo se levante, mas é preciso também dar a mão para ele se levantar (...) A minha recompensa é ver uma criança feliz, um idoso entusiasmado, ou uma mãe com menos problemas”. O GRIMPO precisa de ajuda urgente, para que se dedique integralmente a todas essas


Luciano em sua casa que conseguiu construir graças à Oficina de Velas iniciada pelas irmãs

obras necessárias à população carente de Salvador. Ante tais dificuldades e sensibilizada com a dedicação com que as irmãs trabalham – confortando os mais necessitados e levando a eles o Evangelho de Cristo – a AIS atenderá aos seus pedidos de ajuda.

Hoje, o GRIMPO conta com mais de 120 religiosas. O desejo da AIS é prover de um salário mínimo mensal o maior número possível de irmãs, para que elas continuem sua missão. Para isso, conta também com a generosidade e colaboração de todos os benfeitores e amigos.

Contato:
AJUDA À IGREJA QUE SOFRE
Rua Carlos Vítor Cocozza n.º 149 - Vila Mariana
São Paulo - SP - 04014-090
Tel.: 0800.7709927
www.aisbrasil.org.br

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