Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

por Maria José Alves da Silva

evangelização de Uganda começou há pouco mais de 100 anos. O país foi protetorado inglês, entre 1894 e 1962, ano da independência. Golpes de Estado se sucederam até 1986, quando chegou ao poder o atual presidente, Yoweri Museveni. “Em uma guerra todos perdem alguma coisa”, escreveu Saint Exupéry. Nesta, porém, além da perda de entes queridos e propriedades, muitas pessoas perderam valores morais, cristãos e culturais.

Enquanto o mundo silencia e a mídia ignora que as guerras não são “tribais” na África, mas frutos de interesses econômicos e políticos externos e internos, pela disputa de seu rico subsolo, a AIDS faz vítimas e a juventude é seu alvo mais vulnerável. Assim, a formação dos jovens é a prioridade da Conferência Episcopal Ugandense, que exortou os agentes pastorais a investir mais tempo e energia nos 60% dos ugandenses que têm menos de 20 anos.

MISSIONÁRIA EM UGANDA

Como missionária, cheguei ao país na década de 80, quando se respirava insegurança e medo e eram claros os sinais da devastação causada pelos anos de guerra pós-independência. Durante muitos anos, dediquei-me à juventude em Campala, a capital. Eu levava na bagagem a motivação profunda do meu ser missionária, isto é, anunciar e testemunhar Jesus Cristo e seu Reino. Enfrentei desafios: nova cultura, nova realidade, pluralismo nos vários setores da sociedade, particularmente o religioso, etc.

Tomei um banho de inculturação até entender, com o coração, aquele mundo que me encantava, mas que também me desafiava. Apoiava-me na passagem bíblica: “...tira as sandálias dos pés porque o lugar em que estás é uma terra santa” (Ex 3,5). Cada pessoa era essa terra santa e, na realidade, isso significou ter que abdicar o meu modo de ver e de pensar, para, em atitude de escuta, e às vezes de tolerância, caminhar lado a lado com os jovens. Trabalho nem sempre fácil! Éramos cinco na equipe coordenadora do programa formativo.

Privilegiamos a reflexão e partilha bíblica, usando o método ver, julgar e agir, abrindo espaço à Doutrina Social da Igreja e aos temas de ética e valores culturais. O interesse dos jovens facilitou o caminho de formação, que visava reforçá-los na fé, nos valores morais e culturais. Os jovens adquiriam consciência crítica em relação ao sistema, compromisso com a justiça e a honestidade, e passavam da filosofia de “cada um por si e Deus por todos”, a uma atitude de solidariedade e serviço.

Uma jovem se tornou religiosa de uma congregação local e um jovem se tornou sacerdote missionário. Vivi o vigésimo ano da experiência missionária em Uganda, no norte do país, em Gulu, (340 km da capital), palco de uma guerra civil que já dura 18 anos. O grupo rebelde do “Movimento de Resistência do Senhor”, do sanguinário Joseph Kony, que enfrenta o exército ugandense, rapta crianças das vilas para engrossar suas tropas. Em Gulu, colaborei na Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese.

Iniciada pelo arcebispo John Baptist Odama, a comissão coopera com mulçumanos, anglicanos e ortodoxos, no esforço de conscientizar, mediar e educar a todos para uma cultura de paz. É uma das poucas vozes em defesa do povo e de denúncia de atrocidades. Ela organiza cursos para líderes das paróquias, jovens, estudantes e professores. Preparou extensa documentação sobre o conflito e publica mensalmente um boletim em defesa da paz e dos direitos humanos. Na despedida, alguém implorou: “Irmã, não esqueça de nós, não esqueça de falar ao mundo da nossa vida, se isso é vida, não esqueça de falar da nossa dor e da nossa morte”.

COMO ESQUECER ...

... as lágrimas de irmã Margareth, ugandense, religiosa da Congregação de Maria Imaculada, dizendo-me que sua sobrinha de apenas 11 anos tinha sido levada pelos rebeldes durante a noite anterior;


Cenas do trabalho missionário da Ir. Maria José em Uganda

... Maria, com os lábios cortados pelos rebeldes por dar alarme de sua chegada durante a noite;

... os gritos e soluços de Grace, jovem esposa que, correndo em nossa direção, disse-nos:

“Irmãs, meu marido acabou de ser morto em emboscada”;

... os dois jovens que haviam sido raptados, por duas vezes, e ficado mais de dois anos na floresta com os rebeldes, e ainda viviam no terror da vingança desses. Em suas costas havia marcas profundas de torturas e, nas pernas, balas alojadas. Seu único desejo era viver em paz e poder estudar;

... a procissão de mais de 50 mil pessoas (6 mil crianças) que vão, à noitinha, procurar refúgio, e se amontoam nos pátios dos hospitais e paróquias, conventos e estações de ônibus. Ficando em casa, elas podem ser raptadas pelos rebeldes.

OS CUSTOS SOCIAIS DA GUERRA

Dezoito anos de guerra deixaram mais de 100 mil civis mortos e custaram US$ 1.3 bilhão. A ajuda financeira à Uganda, nos anos de 2000-2001, foi de US$ 762.7 milhões. Deste total, 52.9% foram doados, o restante (47,1%) veio como empréstimo.

  • Sobre 1.4 milhão de habitantes de Acholi, no norte de Uganda, 900 mil vivem segregados nos “campos de proteção”, organizados pelo governo, que mais parecem “campos de concentração”, tamanha a miséria e a condição desumana em que vivem os refugiados. No campo, todos devem estar nas suas cabanas às 19h30. Toda desobediência é severamente punida.
  • A maioria das crianças não vai à escola por causa da insegurança, ou porque os pais não podem comprar comida. Das que freqüentam, muitas abandonam na 4.ª série primária.
  • Pelo menos 25 mil crianças já foram raptadas. Após a lavagem cerebral, os meninos aumentam as fileiras dos rebeldes e as meninas são dadas como “esposas” a eles. Todos, de uma forma ou de outra, são reduzidos à escravidão.
  • As crianças que conseguem escapar, levam traumas profundos, pois foram brutalizadas, estupradas ou torturadas, ou obrigadas a matar companheiros, os próprios pais ou outros familiares.
  • Viajar é um risco por causa das freqüentes emboscadas e das estradas minadas.
  • A economia da região está devastada. 98% do gado (mais de 300 mil cabeças) foi roubado no norte do país. Trabalho, só ocasional.

As mulheres carregam água, vendem lenha, carvão e fazem tijolos. Durante todo o dia, algumas só conseguem vender uma bacia de carvão, ao preço equivalente a 50 centavos de real.

SINAIS DE ESPERANÇA

Apesar do caos, há sinais de esperança: pobres partilham seu pão; existem centros de recuperação psicológica para traumatizados e associações de mulheres a se ajudarem reciprocamente, fazendo artesanato; há também o compromisso da Igreja, através da Comissão de Justiça e Paz, além de outras iniciativas.

Que o Espírito de Deus dilate o nosso coração para palpitar com a dor, o sofrimento, as alegrias e esperanças de toda a humanidade. Que nosso amor e solidariedade sejam gratuitos e sem fronteiras e que um dia “o Amor e a Verdade se encontrem e a Justiça e a Paz se abracem” (Sl 84).

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