Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

Fundador dos
dehonianos alcança os altares

Os padres, irmãos e leigos dehonianos vivem o ano de 2005 com muita alegria. É que este é o ano da beatificação do Pe. Leão Dehon, fundador da Congregação dos Sacerdotes do Sagrado Coração de Jesus. A cerimônia de beatificação será no dia 24 de abril, durante celebração eucarística na Praça de São Pedro, em Roma

por Terêzia Dias

á 162 anos nascia em La Capelle (França) Leão Gustavo Dehon, filho de ricos proprietários rurais. Era o dia 14 de março de 1843. Naquele dia, ninguém poderia imaginar que o bebê, recebido com tanta alegria pelos pais Alexandre Dehon e Estefânia Vandelet, teria tanta importância na história da Igreja, tamanha influência na sociedade de seu tempo e seria beatificado, reconhecido como homem santo, sempre a serviço de Deus, da Igreja e da sociedade.

Dehon cresceu na sociedade pós-revolução francesa, marcada por grandes transformações políticas, econômicas e culturais, na qual a Igreja havia perdido poder e influência e o cristianismo era diariamente confrontado com novas idéias científicas e filosóficas. Neste ambiente, ele foi, aos poucos, descobrindo a vocação sacerdotal e construindo o caminho de santidade, exemplo não apenas aos membros de sua congregação, mas a toda humanidade.

“O apelo à contemplação e a resposta operante às dificuldades e desafios da Igreja e da sociedade constituem as duas faces da única realidade de consagração de pe. Dehon e são o segredo de sua força interior e de sua prodigiosa atividade”, observa pe. José Ornelas Carvalho, superior geral da Congregação dos Sacerdotes do Sagrado Coração de Jesus (scj).

“Radicado no amor de Deus, que ele sente como fundamento e ponto de união de toda a sua existência, Pe. Dehon viveu uma vida de dinamismo e entusiasmo, como também de numerosas dificuldades, dúvidas, hesitações e faltas. O sofrimento, a força e a tenacidade estiveram sempre unidos à paz e à bondade, atitudes que lhe mereceram o título de très bon père (pai muito bom). O segredo dessa paz e dessa capacidade de amar, acolher e confortar e, ao mesmo tempo, de reagir, lutar, sonhar e planejar encontra-se em sua união pessoal com o Coração de Cristo”, analisa o superior dehoniano.

Um coração para amar

Leão Dehon foi ordenado sacerdote em 19 de dezembro de 1868, em Roma. Em 1878, fundou a congregação, primeiramente chamada Oblatos do Coração de Jesus e, a partir de 1884, de Sacerdotes do Sagrado Coração de Jesus. Sua finalidade é viver uma espiritualidade bem específica: a reparação ao Sagrado Coração de Jesus. Ela se fundamenta em cinco elementos: centralidade do mistério do Coração de Jesus, como amor revelador do amor do Pai; participação na oblação de Cristo, na Eucaristia celebrada e adorada, compartilhando seus sentimentos pelo Pai e pelos homens; acolhimento da Virgem Maria como modelo da disponibilidade na fé; sentir com a Igreja e compartilhar com ela o ardor no anúncio do Evangelho; e ser profeta do amor e servidor da reconciliação, atento aos apelos da humanidade.

Esse carisma concretiza-se num estilo de vida pessoal que tem por missão “instaurar o Reino do Coração de Jesus nas almas e nas sociedades”. Toda a vida de pe. Dehon foi inspirada na contemplação amorosa do Coração de Jesus.

Por isso, ele quis amar e reparar, oferecendo-se como Jesus e com Jesus. Cultivou uma vida de intimidade com o Senhor.

Buscou sempre cumprir a vontade do Pai. Aceitou com alegria todas as provações e sofrimentos. Trabalhou incansavelmente para estabelecer o Reino de Deus na terra. Essa foi sua herança para a família dehoniana. Ao morrer, em 12 de agosto de 1925, em Bruxelas (Bélgica), voltou o olhar para a imagem do Coração de Jesus, e balbuciou: “Por ele vivi, por ele morro”. Antes, havia escrito um testamento espiritual, com orientações finais, no qual explicita: “Deixo-vos o mais maravilhoso dos tesouros, o Coração de Jesus”.

Apostolado social

Padre Dehon sonhava com uma vida dedicada ao estudo e à oração. Porém, Deus lhe pediu uma vida bem agitada, preocupada com os desafios de seu tempo e inserida na realidade ao redor. Desde a juventude, Leão Dehon aproximou-se dos mais necessitados, como nos tempos de estudante em Paris, quando se engajou na Sociedade São Vicente de Paula e tornou-se catequista dos marginalizados e analfabetos.

Mais tarde, como vigário paroquial na Catedral de São Quintino (França), foi tocado pelo degradante contexto social daquela cidade industrial e denunciou corajosamente os erros e as injustiças, preocupando-se com os jovens e os operários, a quem dedicou muitas obras e grande parte de suas energias. Através da palavra falada e escrita, conscientizava sacerdotes e seminaristas a respeito da questão social, instruindo-os para que fossem ao encontro do povo.

“A situação de injustiça e degradação em que vivia a classe operária de seu tempo provocou em Pe. Dehon uma dupla reação:

- uma obra de assistência imediata para fazer frente às situações de maior carência; o compromisso para debelar as causas da injustiça e da miséria política, social e cultural. Ele se tornou um dos principais intérpretes e ardente promotor da Doutrina Social da Igreja, especialmente das encíclicas de Leão XIII entre os séculos 19 e 20 e participou ativamente do movimento social cristão”, comenta Pe. José Ornellas Carvalho. A imensa e incansável atividade fez de Pe. Dehon um profeta e um apóstolo da ação social.

Um grande desafio

O milagre reconhecido pela Congregação das Causas dos Santos para promulgar a beatificação de Pe. Dehon aconteceu no Brasil, na cidade de Lavras (MG). No dia 31 de maio de 1954, o eletricista Geraldo Machado da Silva foi internado na Santa Casa de Misericórdia, com dores no abdome. O diagnóstico médico foi perfuração no intestino e conseqüente peritonite. Operado imediatamente, seu estado se tornou cada vez mais grave, por causa da toxemia peritoneal.

Sem esperanças, a equipe médica pediu que chamassem o sacerdote para dar-lhe os últimos sacramentos. Às 19 horas, Padre Silvestre Muller, scj, depois de administrar-lhe a unção dos enfermos, colocou a relíquia de pe. Dehon sobre o peito do doente e rezou, junto com outras pessoas (inclusive o médico), pedindo a cura. De madrugada, Geraldo deu sinais de melhora e, em poucos dias, ficou totalmente curado.

Ele viveu mais 23 anos e nunca mais apresentou os sintomas do processo ulceroso no estômago e nos intestinos. Para os membros da Congregação dos Padres do Sagrado Coração de Jesus, a beatificação de pe. Dehon representa o desafio de atualizar a herança que ele deixou. “A Família Dehoniana sente-se chamada a enriquecer a Igreja através de uma atenção especial ao mistério central do Coração de Jesus, que gera a solidariedade para estar a serviço do Reino de Deus”, assegura pe. José Ornelas de Carvalho.

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