Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

24 de julho de 1985: o padre italiano Ezequiel Ramin, 33 anos, era assassinado durante uma missão de paz no Estado de Rondônia. Estava no Brasil há apenas um ano.

por João Munari

TERRAS DE LATIFÚNDIO

Rondônia, meados dos anos 80. O sul da Amazônia vivia em plena efervescência. Ao longo da BR364, que liga Cuiabá a Porto Velho, 1.700 quilômetros de chão, buracos e poeira – e, no tempo das chuvas, de crateras, lama e atoleiros – as vilas viravam cidades da noite para o dia: Pimenta Bueno, Ouro Preto, Jaru, Ji-Paraná, Cacoal, Ariquemes... Os bispos tinham lançado um apelo para que as congregações religiosas se sensibilizassem diante da necessidade de ajudar aquelas regiões.

Ainda em meados dos anos 70, os combonianos, vindos do Espírito Santo, estavam entre os primeiros a responder ao apelo. Conheciam a caminhada das comunidades de base. Trabalhavam para construir uma Igreja que combina fé e vida, celebração e compromisso social. Toda a Igreja do Brasil puxava nessa direção. Quando, em 1984, o pe. Ezequiel chegou a Cacoal, encontrou uma caminhada já feita. Havia comunidades fortes e lideranças bem conscientes de suas responsabilidades. Não teve dificuldade de se inserir. A idade, pouco mais de 30 anos, dava-lhe o entusiasmo que o desafio exigia. Além do mais, Ezequiel tinha uma sensibilidade, por certas questões, superior à de tantos outros padres.

“FAZENDA CATUVA, PROIBIDA A ENTRADA”

Foi quando, em uma região entre Mato Grosso e Rondônia, na área pastoral de Cacoal, apareceu uma placa: “Fazenda Catuva, proibida a entrada”. Coisa estranha: 250 famílias trabalhavam aquelas terras há mais de dois anos, convivendo com os únicos possíveis donos, os índios Suruí, com os quais, porém, as famílias tinham conseguido estabelecer relações de respeito e amizade. Porém apareceu a placa e, com a placa, uma cerca e uma porteira; e gente armada, do outro lado, inibindo qualquer tentativa de aproximação. Os donos? Dois irmãos, Omar e Osmar, fazendeiros. No papel, proprietários de 2.499 hectares. Na prática, tentando abocanhar 50 mil hectares (alguém falava até em 100 mil); passando por cima dos índios, das famílias de posseiros e de suas roças.


Comemoração do Dia do Lavrador em Cacoal - RO

A questão chegou à paróquia. Pe. Ezequiel tinha chegado há pouco tempo. Tinha demonstrado sensibilidade pelos problemas do povo. Havia coisas que o incomodavam profundamente: as desigualdades sociais, sobretudo; os muitos que não têm nada e os poucos que têm tudo; as injustiças; a arrogância de quem tenta se impor pelas armas ou pela manipulação das leis. Em várias oportunidades tinha tocado nesses assuntos, inclusive nas homilias e celebrações. Era de seu estilo trazer a Palavra de Deus para a realidade das pessoas. O povo ouvia. Alguns simpatizavam, outros o criticavam. Uns poucos manifestavam publicamente seu desapontamento, tanto que o padre passou a gravar suas homilias, para que suas palavras, distorcidas, não fossem usadas como armas contra ele.

Eram palavras fortes: “Não aprovamos violências, embora recebamos violência. O padre que está falando, recebeu ameaças de morte”. Logo em seguida afirmava: “Querido irmão, se minha vida te pertence, vai te pertencer também minha morte”. Justificava: “Ninguém aqui vai querer reivindicações irreais. É irreal pedir comida para a própria família? Ou só quem é poderoso é que tem filhos que precisam comer?”. Ele sabia que estava mexendo com coisas sérias, mas dizia estar movido por um ideal. “Tenho uma paixão que me persegue como um sonho”. Dava também os elementos que alimentavam essa paixão: “Aqui, muita gente tinha terra. Ela foi vendida. Tinha casa, foi destruída. Tinha filhos, foram mortos. Tinha aberto estradas, foram fechadas. A estas pessoas eu já dei minha resposta: um abraço!”.

OS IMPASSES DA FAZENDA CATUVA

Na Fazenda Catuva, o confronto entre posseiros e jagunços se fazia cada vez mais acirrado. Os padres acompanhavam de longe. Pretendiam realizar um encontro com os posseiros para orientá-los. Combinaram que, no dia 25 de julho, Dia do Lavrador, aproveitariam a ida de algumas lideranças a Cacoal para conversar. Queriam saber se haviam acontecido fatos novos. Estavam tentando alguns caminhos jurídicos. Tinham esperança que conseguiriam acalmar os ânimos por vias pacíficas. No dia 23 de julho, uma terça-feira, o Pe. Ezequiel, juntamente com o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Cacoal, Adílio de Souza, a ele muito chegado, foi visitar algumas comunidades do interior: celebrou como de costume, fez reunião com a coordenação, ouviu problemas. Voltou à noite, na hora do jantar.

Em casa, o assunto era a programação do dia seguinte. No dia do lavrador teria muito movimento na paróquia. Um ato público percorreria as ruas da cidade, com cartazes e palavras de ordem para mostrar a situação explosiva do campo. Eram esperadas de 800 a 1.000 pessoas só do interior. Os padres José e João e o irmão Mario, colegas de Ezequiel, conversaram entre si e com ele, que acabava de chegar. Tudo estava caminhando normalmente. “Foi na hora de deitar que Ezequiel me avisou que, no dia seguinte, ele e Adílio iriam à Fazenda Catuva, passando por Ji-Paraná”, lembra o padre José. Uma idéia estranha, aquela. Não lhe pareceu nem oportuna. A conversa entre os padres não demorou. Depois de uns 10 minutos, o padre José, convencido que havia esclarecido as coisas com o Pe. Ezequiel, deu-lhe boa noite e os dois foram dormir, dizendo que no dia seguinte retomariam a questão.

UMA VIAGEM SEM VOLTA


Painel denunciando a morte de Pe. Ezequiel Ramin

Evidentemente, os colegas não conheciam Ezequiel. Ele era assim: radical em certas coisas e “teimoso” como poucos em suas decisões. O superior lhe tinha recomendado, exatamente naqueles dias, que fosse prudente em sua ação pastoral, mas a resposta de Ezequiel tinha sido evasiva: “Você faz tempestade em copo d’água”. Às 5h30 da manhã, o barulho do carro, o Gurgel da paróquia, dizia que Ezequiel estava saindo. Ezequiel e o sindicalista amigo, Adílio de Souza. Direção? A Fazenda Catuva. Foram ao encontro dos posseiros. Na volta, na saída de uma curva, o ataque. Sete homens armados, em posição de tiro, esperavam. Dois deles abriram fogo, a uns trinta metros de distância. O Pe. Ezequiel foi atingido.

Disse: “Pára, pára pelo amor de Deus”. Saiu do carro, pelo lado do motorista, afastando-se dos atiradores. O companheiro saiu em direção contrária, alcançando a mata. Ezequiel caiu uns 50 metros depois. Alguém chegou e, à queima-roupa, descarregou nele a espingarda. O outro sobreviveu. O corpo do padre foi levado a Cacoal. Os pais quiseram que fosse transportado à Itália, para ser sepultado ao lado de outro irmão, morto pouco antes num acidente de carro. Cacoal não esquece a tragédia. Faz questão de lembrar, todos os anos. Em 24 de julho, com toda a diocese, voltou a fazer memória. Voltaram às lutas da época, aos ideais que moviam os padres e as comunidades. Pediram a intercessão do mártir. Voltaram a carregar aquela camisa ensangüentada que fica pendurada na igreja principal, ao lado do altar! E que fala mais alto do que qualquer outra palavra.

Missionários Combonianos
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