Revista "MUNDO e MISSÃO"
Testemunhos da Vida Missionária
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Irmã Francisca Coelho Silva, do Instituto Madre Cabrini, trabalha na Etiópia desde 1999. Aqui ela nos conta um pouco de sua experiência missionária num dos países mais pobres do mundo. Irmã Francisca, fale-nos sobre sua vida no Brasil e por que foi para a Etiópia. - Eu nasci em Aparecida do Norte. Na minha vida religiosa, trabalhei em São Paulo, no Nordeste, no sul do Brasil e em Moçambique. Sempre gostei muito da África, porque sentia que sua realidade ia ao encontro dos meus sonhos de missionária. Nosso instituto é essencialmente missionário, então, quando houve a possibilidade de irmos para Etiópia, pedi ir, e lá estou. Madre Cabrini, nossa fundadora, sempre sonhou ser missionária, ir para China, porém o papa mudou-lhe o itinerário, dizendo-lhe para ir, não para a China, mas para os Estados Unidos, onde havia diversos imigrantes italianos que estavam sofrendo muito. Assim começou o nosso instituto missionário. Hoje está presente na Itália, onde nasceu, Estados Unidos, Suíça, Filipinas, Rússia, Etiópia e outros lugares. A Etiópia foi escolhida por ser um lugar muito pobre. Somos quatro irmãs, nossa casa é em Dubbo, um dos lugares mais pobres da Etiópia, no sul em Wolayta, região onde existem muitos ex-escravos. O que faz esse país mais pobre é a questão da cultura,
muito forte. Eles fazem questão de se agarrarem à sua cultura
e com isso vão ficando atrasados em relação a outros. - Trabalhamos num pequeno hospital. Antes que o hospital ficasse pronto, morria gente como mosquito. Agora melhorou um pouco, apesar de as pessoas nos procurarem quando estão quase morrendo. O hospital foi construído pelo CUAMM (médicos missionários) que fazem um trabalho muito bom. Temos também, um Jardim da Infância; não um orfanato porque com a guerra, a maioria das crianças não têm pais, e ficaria muito difícil atender a todas. Temos comunidades rurais, cuidamos da formação dos catequistas e dos leigos para assumirem mais a Igreja e cuidamos da formação vocacional. Já temos onze candidatas à vida religiosa, e com elas estamos fazendo um trabalho de acompanhamento e discernimento vocacional. Desenvolvemos também projetos sociais e através deles as pessoas chegam até nós, para pedir ajuda. Há crianças que morrem de fome e criamos o projeto de adoção à distância. Temos grupos de meninas para prepará-las em vista do futuro, dando-lhes uma nova visão da vida e ensinando-lhes costura e bordado. Outras congregações religiosas que atuam na mesma área trabalham com artesanato. Na sua opinião, qual a causa da pobreza deste país? - Várias. Há falta de organização social e uma superpopulação. Por exemplo, onde moramos, há muita gente, mas não podemos dizer quantos, porque não são contados, não têm certidão de nascimento, não têm carteira de identidade, ninguém sabe quantos anos têm (calculam mais ou menos), e assim são quase excluídos da sociedade. Vivem quanto Deus quer e morrem quando Deus quer. Eles não sonham, nascem ali e se conformam. Há algum menino ou menina que sonha em ir para a Itália ou para os Estados Unidos, porém a possibilidade é extremamente remota. A mídia diz que há previsão de 10 milhões de mortos por fome, se organizações internacionais não intervierem. É verdade? - Se não fossem as instituições que ajudam, como, por exemplo, os Médicos sem Fronteiras e outras entidades, ou mesmo a gente, não sei como seria. O povo olha os brancos como se fossem a salvação da pátria; até as crianças pequenas, quando nos vêem, falam: "Olha os brancos!", e correm atrás, pedindo dinheiro, porque é a única salvação. Se uma criança está morrendo, eles não vão a algum órgão do governo ou a outras Igrejas, eles procuram à Igreja católica, pedindo que faça algo por eles. A Etiópia sofre com muita seca. A região onde mora tem floresta? - Lá tem muito verde. Dizem que no norte é muito seco. O sul é chamado de terra verde porque tudo é verde, lindo. Eles semeiam, cultivam, mas há a questão da superpopulação: cada pai tem muitos filhos, às vezes 12. Se este pai tem um pouco de terra, por maior que seja, ela vai servir apenas para sua família e olhe lá. Há bastante animais de corte: ovelhas, boi, vaca, cabrito, mas é pouco para tanta gente, ainda mais com os enormes gastos do funeral. Nós temos um bom café, mas não existe a mínima organização que permita geração de renda para o pessoal. Como é a religião do povo? - Em geral, é a ortodoxa e mulçumana. Lá não existe uma religião popular como aqui no Brasil, mas conservam-se costumes e rituais tribais. A questão da circuncisão, por exemplo, é algo fortíssimo, seja no homem como na mulher. Na menina é algo dolorosamente impressionante, mas eles não mudam. O governo local chegou a proibir, mas sem sucesso. Nós falamos, principalmente em relação às meninas, mas eles não aceitam e fazem escondido, se for preciso. Outro ritual é para quando uma criança tem problema de vista: eles queimam a fronte acima dos olhos para acabar com a doença. Assim, quase todas crianças da Etiópia têm uma profunda cicatriz na fronte.
Quais os missionários que lá trabalham e quais os contatos com os sacerdotes coptas e de outras religiões? - Há os padres capuchinhos da Itália. O contato com os padres ortodoxos não é muito intenso, porque eles são bem fechados. Os mulçumanos crescem a cada dia: é uma coisa impressionante porque eles constroem mesquitas por todos os lados e não sabemosquem financia. Numa síntese global, existe uma salvação social e moral para esse povo? - Sempre sou muito esperançosa, acredito que há possibilidade, talvez a longo prazo. Precisamos unir nossas forças, tanto as locais quanto as que chegam de fora, para que o trabalho seja mais eficiente. E outra coisa que acho muito importante para nós: acreditar no povo. Apesar de tudo, temos que acreditar. Sinto que, lá em Dubbo, as pessoas, que estão mais chegadas a nós, já podem sonhar algo. Que mensagem deixaria ao leitor da revista? - Que a única coisa que nos eleva é a esperança: quando esperamos no que existe dentro do nosso coração, conseguimos crescer. Portanto, nunca deixemos de ter esperança. Nós, da revista, insistimos no contato com missionários brasileiros que trabalham nas missões. Na sua opinião, essa iniciativa ajudaria a manter a esperança? - Claro que sim! Passar nossa esperança para eles, escrevendo, fazendo com que o jovem brasileiro e o jovem etíope sejam unidos, porque somos todos uma só família. Escrever seria bom, mais ainda se alguns jovens quisessem fazer um trabalho voluntário na Etiópia. Por exemplo, os que têm curso de enfermagem que se apresentem, porque é tão lindo poder dar alguma coisa nossa para eles! Como outros países deram uma mãozinha, nós também devemos fazer isso. E, aqui no Brasil, os jovens poderiam tentar conseguir algo para ajudar as escolas de lá, onde há tantas crianças que gostariam de estudar, mas não têm nenhuma possibilidade. Contato com Irmã Francisca Coelho |
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