Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

por Maria De Giorgi


Caminho do Centro Shinmeizan

uando parti para a missão no Japão, em 1985, não imaginava que o Senhor me haveria de conduzir pelo difícil e entusiasmante caminho do diálogo inter-religioso. O Japão é um país de ricas tradições religiosas, ainda que esteja vivendo atualmente um processo de secularização sem antecedentes e sua sociedade corra o risco de perder valores fundamentais, transmitidos há séculos. O Cristianismo, apesar de ser praticado apenas por uma minoria, sempre foi muito ativo no âmbito educativo e sócio-assistencial. Promovida pelo Concílio, a renovação religiosa incentivou, com coragem, o diálogo e a colaboração entre as tradições religiosas no Japão. Nós, cristãos, descobrimos que, somente junto a outros crentes, podemos lutar contra o secularismo e o indiferentismo religioso que está queimando as novas gerações.

Por isso, é necessário que todas as religiões – em plena fidelidade à própria identidade e no respeito às diferenças de cada uma delas – dêem-se as mãos e trabalhem unidas para promover a dignidade de todos os homens e as mulheres do mundo. Depois de dois anos de estudo da língua japonesa, comecei o meu serviço missionário no Centro de Espiritualidade e Diálogo Inter-religioso, chamado Shinmeizan, que estava nascendo, naquele momento, num pequeno vilarejo da província de Kumamoto, na ilha meridional de Kyushu. Fundado em 1987 pelo Pe. Franco Sottocornola, xaveriano, com a colaboração do Venerável Tairyu Furukawa, chefe do templo budista Seimeizan Schweizer, o Centro Shinmeizan, que em japonês significa “a montanha da verdadeira vida”, é um lugar de encontro e de diálogo aberto aos fiéis de todas as religiões. Aqui no Japão, aprofundei minha fé, minha vocação e vi amadurecer meu caminho missionário, graças também ao relacionamento com pessoas de cultura, religião e sensibilidade muito diferentes das minhas.

O contato com o mundo japonês, e particularmente com a religião budista, não mais me deixou ser a mesma. Senti que a visão que eu tinha desse mundo, tão diferente do meu, precisava de uma profunda transformação. Tomei consciência da relatividade de cada experiência humana e, ao mesmo tempo, da sua unicidade. O esforço para entender o Budismo, a partir de seu interior, sem ceder aos preconceitos e às interpretações já feitas, precisou de uma ascese rígida e difícil. Gosto de chamar de “ascese” o caminho do diálogo inter-religioso, porque aceitar sair de si, para ir ao encontro do “outro, diferente de si próprio” é um processo de progressivo despojamento dos referenciais pessoais. Contudo, este caminho levou-me a tomar consciência, de maneira mais profunda e rica, do cristianismo e da sua novidade irreduzível.

Pessoalmente, nunca percebi contradições entre o compromisso missionário de anunciar o Evangelho e o engajamento no diálogo inter-religioso. Acredito que o primeiro é condição indispensável para o segundo: é na minha identidade cristã mais profunda que encontro as razões para dialogar com o outro, completamente diferente de mim mesma. São as exigências de ser discípula de Jesus que me empurraram para além de meus confins culturais e religiosos, para me colocar à escuta e acolher o outro, mas também para oferecer o bem maior que eu mesma recebi: Jesus Cristo e o seu Evangelho. Posso dizer que, em todos estes anos, minha identidade cristã e missionária nunca foi obstáculo para o encontro e o diálogo com o crente de outra tradição religiosa. Melhor ainda, pois eu diria que foi a premissa e a condição. Pude experimentar quão atuais e profundas foram as palavras de Paulo VI, o grande mestre do diálogo, na encíclica Ecclesiam Suam: “A Igreja deve entrar em diálogo com o mundo em que vive. A Igreja faz-se palavra; a Igreja faz-se mensagem; a Igreja faz-se colóquio” (ES 67).

Testemunho e Diálogo

onhecido como “País do Sol Nascente”, no grande continente asiático, o Japão representa uma das nações mais ricas e, tecnologicamente, mais desenvolvidas do mundo. Os japoneses estão entre os povos que mais lêem e mais trabalham, mas talvez sejam também os mais agnósticos, embora encontrem suas grandes referências religiosas tradicionais no Budismo e no Xintoísmo. O trabalho parece ser a única razão de vida do povo japonês. O ritmo de produção e a organização social regulam, com efeito, toda a sociedade. Um bispo japonês adverte: “mas temos que formar pessoas capazes de transformar a sociedade japonesa segundo os ideais evangélicos”. Também as antigas religiões estão sendo atacadas pelo secularismo moderno.

A este importante povo que, ainda que inconscientemente, está à procura de um suprimento para a alma, as Missionárias de Maria Xaverianas apresentam, desde 1959, a mensagem evangélica, com a mesma constância e a coragem de seu protetor, São Francisco Xavier. Ele trabalhou no Japão, entre 1549 e 1552, onde obteve muito sucesso. As missionárias são uma pequena presença de testemunho e anúncio do Evangelho, realizado através do trabalho com creches, com grupos de evangelização, no serviço aos anciãos e no diálogo inter-religioso. Tudo é feito em nome daquele Mestre que, um dia, estabeleceu como programa para seus discípulos o de serem sal, luz e fermento de toda e qualquer realidade humana. O centro Shinmeizan, “a montanha da verdadeira vida”, (onde trabalha a irmã Maria De Giorgi), destaca-se como local privilegiado de experiência de diálogo entre Cristianismo e Budismo.

A missão encontra, no imenso continente asiático, seu maior desafio. Nós afirmamos, juntamente com outros, que a proclamação de Jesus Cristo constitui o centro e o principal elemento da evangelização. A proclamação de Jesus Cristo na Ásia significa, antes de tudo, o testemunho dos cristãos e das suas comunidades sobre os valores do Reino de Deus: uma proclamação que se efetua através do comportamento e do testemunho cristão. Para os cristãos da Ásia, proclamar Cristo significa, principalmente, viver como ele, em meio ao próximo de outra fé e de outras crenças, agindo com a força da Graça. Proclamar o Evangelho através do testemunho e do diálogo: é esta a primordial tarefa da Igreja na Ásia.

Os bispos asiáticos “Rumo ao terceiro milênio” (1990)

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