Revista "MUNDO e MISSÃO"
Testemunhos da Vida Missionária
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Uma semana no país e comecei a estudar a língua, nada parecida com as línguas que eu havia aprendido até então (italiano e inglês). Devo confessar que quase desanimei, mas a única coisa certa era ter paciência, pois era necessário aprendê-la para comunicar-me com as pessoas do local e para o trabalho que viria a desenvolver. Depois de algum tempo estudando a língua, a cultura, os aspectos políticos e econômicos, a história e um pouco da geografia cambojana, foi possível compreender ainda mais esse povo. Padre François Pounchaud (MEP), diretor da escola, costumava dar ênfase à importância desses estudos para poder entrar na realidade de um povo e, a importância para uma boa inculturação. Ainda não havia terminado o estudo inicial da língua (um ano), quando comecei a ensinar a um grupo de 30 moças que estudavam artesanato em regime de semi-internato no centro das salesianas em Toul Kork (próximo de onde morava), utilizando materiais recicláveis. Muitas vezes me perdia com o meu khmer (é como é chamada a língua cambojana), as moças riam e, ao mesmo tempo, tentavam ajudar-me a pronunciar ou a entender as palavras. O objetivo destas aulas era ajudar a despertar a criatividade, a colaboração e fazer com que aprendessem algo que pudesse ser útil e lucrativo quando saíssem da escola, ao término do curso. Em 2001, comecei também a ensinar inglês básico em Toul Kork, e, aos sábados, ensinava artesanato nos dois centros (Toul Kork e Teuk Tlak). No início, as lições de artesanato não eram bem sucedidas, pois faltava criatividade àquelas garotas, algo que lhes foi "roubado" durante o período dos khmers vermelhos. Quando conseguiam concluir um trabalho, não havia o entusiasmo de terem conseguido. Conversando com elas, perguntava porque de não se alegravam com o que haviam feito. As respostas eram quase as mesmas e, em síntese, significavam a falta da auto-estima, da confiança em si mesmas. Com alguns meses de aulas, sempre incentivando cada uma delas e fazendo com que outras pessoas também vissem o trabalho que realizavam, acreditei ter visto uma pequena luz: as meninas passaram a gostar do que realizavam e já se podia ver nelas um sorriso de satisfação.
Foi um dos grandes presentes que ganhei durante o primeiro ano no Camboja. Não foi fácil, mas eu já havia posto as minhas "mãos no arado". Quanto às aulas de inglês, transcorriam bem. Elas eram um pouco diferentes daquelas convencionais: pareciam aulas do jardim da infância ou pré-alfabetização, em que, como recursos para ensinar, utilizava jogos, explorava o que já conheciam ou ainda ajudava a escrever as fonéticas das palavras inglesas em khmer, para facilitar o aprendizado. Quando era pequena, pensava em ser professora, mas, quando cresci, o pensamento desapareceu. Como gostava muito de desenhar, fiz um curso técnico em edificações. Mas foi uma realidade que eu havia deixado de lado, pois pensei não ser útil. No Camboja, me descobri ensinando e utilizando o desenho como um auxílio. E assim pude tirar minha "lição": todos somos capazes de doar ou pôr em prática os dons que nos foram concedidos pelo Senhor, no momento certo e na hora certa em que são necessários. Tive a oportunidade de colaborar com a New Humanity, Ong que pertence ao Pime, no projeto para os deficientes físicos e mentais, onde ajudava na preparação de materiais que auxiliassem o trabalho dos professores do centro. No Day Care Center, com os deficientes, como terapia ocupacional, ensinava trabalhos manuais. Esse trabalho foi interessante e importante para mim, pois descobri um lado da minha pessoa que julgava-se incapaz de trabalhar com pessoas portadoras de deficiências. E o tempo terminou. Em agosto de 2002, retornei ao Brasil. O que trouxe na bagagem? Muita experiência, muitos dons recebidos e uma certeza grande de, em nenhum momento, ter me sentido completamente só, pois foram momentos em que a fé foi colocada à prova, a saúde pregou peças e o telefone não completava ligações para o Brasil. E isso pode deixar alguém à deriva, mesmo com um mar de pessoas ao redor. Confiei na promessa feita por Jesus de estar com cada um de nós ("Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo" - Mt 28, 20). Se alguém me pergun-tasse sobre como foi o meu trabalho evangelizador, ou seja, se o realizei, responderei que não. Porém, se me perguntarem, se consegui testemunhar o Evangelho, direi que com as minhas atitudes e nos ambientes onde me encontrava, creio ter deixado cair algumas sementes no percurso e rezo ao Senhor para conduzir cada uma dessas sementes que passaram por mim ou com as quais tive contato. Era sempre maravilhoso, e também difícil, tentar explicar quem era o meu Deus para pessoas que só haviam ouvido falar em Buda e explicar os motivos que me levaram a deixar o meu país para estar lá. Dizer que era missionária nem sempre dava certo, pois não compreendiam o conceito, e a melhor resposta era sempre "estou aqui porque fui enviada a ajudar o povo cambojano que tanto necessita". Acreditava nessa resposta, como acredito que ajudar outras pessoas que necessitam faz parte do espírito cristão, faz parte de tudo aquilo que acredito ser a forma de aproximar pessoas e aproximá-las de Deus. Não acredito na forma de ajuda que somente faz ou financia, mas acredito na forma que para mim quer dizer ajuda mútua: arregaçar as mangas por um mesmo objetivo e mostrar que não há um outro interesse a não ser o crescimento da pessoa, humana e espiritualmente, através do testemunho que se pode oferecer. De uma coisa tenho certeza: a missão é um presente de Deus, um dom a ser compartilhado e deve ser acolhida com muita fé e responsabilidade. |
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