Revista "MUNDO e MISSÃO"
Testemunhos da Vida Missionária
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Depois de um período de discernimento vocacional, entrou no seminário do Pime em Porecatu, no mesmo Estado, em 1962, onde fez os seus estudos iniciais para ser irmão consagrado. Em seguida, cursou pedagogia em Assis (SP), na área de orientação educacional e administração escolar. Já formado, foi vice-diretor e orientador pedagógico do colégio diocesano Santo Antônio, em Assis, sem deixar de alimentar no coração o desejo de servir à Igreja em terras de missão. Viu seu sonho se concretizar quando, em 1974, foi destinado ao Amapá na condição de irmão consagrado. Voltou, alguns anos depois, aos estudos em preparação ao sacerdócio missionário. Estudou teologia em Londrina (PR), junto a outros seminaristas do PIME. Teve o privilégio de ser ordenado padre pelo papa João Paulo II, quando o pontífice visitou o Brasil em 1980. A cerimônia foi realizada no estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro. UMA ANTIGA PAIXÃO: ÁFRICA Em 1983, padre Darci realizou, enfim, sua opção missionária, que era a de servir à Igreja nas missões além-fronteiras. E, assim, já com 41 anos de idade, aceitou o desafio de ir para a Guiné-Bissau, na África Ocidental. Ele foi o primeiro missionário brasileiro do Pime a ir para as missões além-fronteiras. Através do gesto corajoso e decidido, ele abriu as portas para nós, os outros missionários brasileiros, que sucessivamente íamos sendo destinados à África, à Ásia e à Europa. Durante os 12 anos em que se dedicou à causa missionária na Guiné-Bissau, Pe. Darci logo entendeu que o maior investimento, na obra da primeira evangelização, era a formação de catequistas autóctones. E, de fato, empenhou-se totalmente na preparação de subsídios catequéticos, adaptados à realidade local, e na criação de uma escola polivalente para a formação de catequistas (catequistado). Nessa escola, os alunos recebem formação litúrgica, doutrinal e catequética; noções básicas de agricultura; aprendizado sobre a transformação da castanha de caju (principal produto do país); higiene e saúde. O objetivo do catequistado é o de promover a pessoa humana, restituir-lhe a dignidade de filha de Deus e responsabilizá-la pela difusão inculturada da mensagem do Evangelho. O JEITO MINEIRO DE SER Apesar das andanças pelo mundo e do intenso contato com outras culturas, Pe. Darci jamais perdeu o seu jeito mineiro de ser. Durante a vida toda, manteve uma forte espiritualidade, enraizada na devoção popular e, nas deliciosas rodas de amigos, sempre encontrava uma estória ou piadas para contar. E, após mais de uma década na África, entretinha as pessoas, por horas a fio, relatando as aventuras missionárias e discursando sobre culturas africanas, um tema que tanto amava. Como bom mineiro, Pe. Darci “nunca perdeu o trem”. Como vimos, ele só começou a estudar no seminário aos 20 anos de idade, foi ordenado padre missionário aos 38, recebeu a destinação para a África aos 41 e faleceu aos 63 anos. Pela cronologia citada, parece que o nosso mineiro sempre correu atrás do tempo, mas, na reta final, no seu encontro com o Pai eterno, ele se antecipou. Fragilizado pela doença (malária, diabete e enfisema pulmonar), precisou voltar ao Brasil no dia 21 de maio, com alguns projetos já definidos: - celebrar o jubileu sacerdotal de prata no dia 2 de julho, festejar os 80 anos de vida de sua mãe, submeter-se a um bom tratamento médico e..., retornar à África neste mês de agosto próximo. Para a nossa surpresa, o Pai o chamou no primeiro dia de junho. Certamente, o jubileu sacerdotal foi celebrado no céu, em festa que reuniu outros amigos missionários que nos precederam. MEMÓRIA PÓSTUMA
Nas culturas tradicionais africanas, o termômetro para definir o quanto uma pessoa é amada e querida, é determinado pela intensidade emocional durante a celebração do seu rito fúnebre. Foi assim que dom Pedro Zilli (bispo brasileiro na Guiné-Bissau), em emocionada mensagem ao PIME e à família do Pe. Darci, afirmou: “quando a notícia do seu falecimento se espalhou pelas aldeias, grande foi a consternação que se abateu sobre a população local. Uns diziam: ‘perdemos um amigo’; outros emendavam: ‘Deus nos levou um missionário, um catequista’. De fato, apesar dos problemas de saúde, entusiasmo e capacidades nunca lhe faltaram. Realmente, Deus não o abandonou...”. A apoteótica manifestação de ternura do povo guineense ao Pe. Darci foi expressada carinhosamente durante a missa de 7.º dia, presidida pelos dois únicos bispos no país (dom José Camnâte e dom Zilli), concelebrada pelos missionários e pelo clero local. O Presidente da República e sua esposa, ministros de Estado e deputados dos vários Partidos, participaram da cerimônia. A multidão de fiéis e de simpatizantes lotou a catedral. Ao som de tambores, cânticos e danças, os amigos de Pe. Darci louvaram e agradeceram a Deus pelos doze anos de sua vida, doada a seu querido povo guineense. Repouse em paz!, Pe. Darci. Interceda junto ao Pai eterno, para que suscite no coração dos jovens a vocação missionária e que, dentre eles, surja o seu substituto nas missões além-fronteiras. HOMILIA DE DOM ALBANO Hoje, para falar da entrada de um missionário no céu, vou imaginar como deve ser a porta do paraíso. Dizem que São Pedro recebe a todos que, na entrada, devem dizer seu nome e a profissão, pois a santidade consiste no cumprimento perfeito do seu dever de estado. Se foi um pai na terra, a pergunta será: “como cuidou da família?”. Se mãe: “quanto amou todos os filhos?”. E assim por diante. Eis a conversa de São Pedro com Pe. Darci: – Qual sua cidade e profissão? – o missionário é alguém que tenha um amor universal; ame apaixonadamente a Jesus, a ponto de segui-lo pelo mundo todo; ame a Igreja de tal modo que deixa pai e mãe e vai aonde o Mestre mandar; continue a encarnação de Jesus, fazendo-se africano com os africanos, asiático com os asiáticos, brasileiro com os brasileiros; não tema o martírio, pois “não há maior amor do que dar a vida pelos outros”; evangelize humanizando e humanize evangelizando; alimente a quem tem fome e sede, visite os doentes e encarcerados... A esta altura, o Pe. Darci interromperá: – Tudo isso eu cumpri no Brasil e em Bafatá. Então a voz do próprio Jesus se fará ouvir: – Venha Darci! Pois tudo que você fez ao menor dos meus irmãos, foi a mim, Cristo, que fez. Entre na alegria de seu Senhor. Isto está hoje acontecendo, de fato, no céu. Perdemos um missionário na terra, mas ganhamos um intercessor no céu. Padre Darci, interceda por nós a Cristo para que Ele nos envie muitos missionários para ocuparem o seu lugar. Amém! Dom Albano Bortoletto Cavallin |
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