Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

por José Caffulli

s primeiras luzes do amanhecer fazem a areia que coroa Guadalcanal, nas ilhas Salomão, parecer ainda mais branca. Em Tabalia, distrito de Honiara, capital do arquipélago, o canto dos papagaios anuncia o novo dia, enquanto um sino chama à oração. São 5h30m. De algumas cabanas saem uma centena de jovens entre 18 e 35 anos. Entram na capela e ajoelham-se para as Laudes. Em seguida, a Missa, às 6h15m.

E o dia vai transcorrendo com a reza da Hora Média, das Vésperas e da Completa. Não são uma comunidade de trapistas, nem sequer são católicos. Esta cena se repete todas as manhãs, desde 1925, na casa-mãe de Tabalia, como nas outras comunidades da Fraternidade da Melanésia (Melanesian Brotherhood), a maior e mais propagada congregação missionária anglicana, presente, atualmente, além de nas ilhas Salomão, nas ilhas Fiji, em Vanuatu, na Papua Nova Guiné e nas Filipinas.

"Tendo oportunidade de visitar a Melanésia, não se pode deixar de notar como a vida religiosa, nessa região, está em plena expansão. É um fato surpreendente já que, em outras partes do mundo, há uma crise de vocações". Quem afirma é Richard Carter, canadense, sacerdote anglicano membro da Fraternidade, seu assistente eclesiástico de 1994 a 2000. "São quatro as congregações anglicanas presentes nas ilhas Salomão: além da Fraternidade da Melanésia, as Irmãs da Melanésia (Sisters of Melanesia), a Companhia de São Francisco (Society of St. Francis) e as Irmãs da Igreja (Sisters of Church). Em todas essas comunidades, vive-se professando os votos de pobreza, castidade e obediência.

A demanda para ingresso nessas congregações é muito superior às reais possibilidades de acolhida e de formação, apesar de não ser uma opção fácil: é preciso aceitar a disciplina, aprender o autocontrole e o sacrifício, empenhar-se seriamente na oração e no serviço aos irmãos. Os jovens melanésios possuem um dom particular: são respeitosos, gentis, humildes e simples. A sua vida experimenta uma espontaneidade e uma alegria muito parecidas com as bem-aventuranças evangélicas. Vivendo entre eles, tem-se a sensação de como deveria ser a vida da comunidade cristã".

Quem são e como trabalham

Primeiramente, são fruto da Igreja inculturada. Seu fundador foi um melanésio, Ini Kopuria, nascido em Guadalcanal, em 1900. Foi aluno das escolas da missão anglicana de Pamua e da ilha de Norkfolk. Trabalhava como policial e, em 1924, estando hospitalizado para tratamento de um ferimento, teve uma experiência que revolucionou a sua vida: sente que Cristo lhe pede para deixar a sua profissão e empenhar-se na evangelização das ilhas da Melanésia. Depois de um período de discernimento, encontra-se com o bispo anglicano local, John Manwaring Steward, que o apóia e encoraja no projeto de fundar uma comunidade de nativos dedicados ao anúncio do Evangelho.

Em 28 de outubro de 1925, Ini Kopuria professa os votos religiosos diante do bispo. No ano seguinte, unem-se a ele os primeiros seis irmãos e intensifica-se o trabalho nas aldeias dispersas. Em 1932, une-se à Fraternidade o missionário anglicano Charles Elliot Fox, o primeiro "estrangeiro branco" em uma família religiosa que ainda hoje conserva um fortíssimo traço local. Atualmente, são 400 membros da congregação, 250 noviços e cerca de 10 mil pertencentes à terceira ordem (os Companions, que têm o carisma da oração e do sustento econômico das obras missionárias dos irmãos). Nas ilhas Salomão, atualmente, existem 27 comunidades, sendo quase 20 na Papua Nova Guiné.

Estão alojadas em casas pequenas, pobres, construídas em áreas distantes e afastadas das grandes estradas de comunicação. Os irmãos se locomovem à pé e em canoa, como seus pais e ancestrais. Cada comunidade é formada, em média, por seis religiosos, atualmente empenhados também em atividades de promoção humana (escolas para crianças e adultos, animação dos jovens). Sua missão é anunciar a Boa Nova de Cristo aos não-crentes. O reverendo Richard Carter explica: "Kopuria acreditava que a evangelização só seria bem sucedida se partisse dos valores e da cultura dos povos do Mar dos Corais. Assim, não se preocupou em tirar os jovens das suas aldeias, mas, quis levar Cristo no meio deles. A pregação do Evangelho não deveria ser a invasão de uma cultura estrangeira, mas uma flor desabrochando de dentro da cultura melanésia, longe anos-luz da mentalidade individualista do Ocidente".

Com uma área de 29 mil km2, as Ilhas Salomão, arquipélago formado por 6 ilhas maiores e 992 pequenas ilhas e atóis, possui uma população de, aproximadamente, 480 mil habitantes, composta por 93% melanésios, 4% polinésios, 2% micronésios e 1% de outros (2002). Destes, 95,7% são cristãos (38,2% anglicanos, 35,8% protestantes, 10,8% católicos, 10,9% outros), 3,9% de outras religiões e 0,3% sem religião (2000). A Igreja católica, na metade do século XIX, chega a estas ilhas com os padres maristas, seguidos pelos primeiros missionários do PIME, que sofreram uma grave adversidade, culminando com o martírio de Giovanni Mazzucconi, em 1855. Em 1897, a Santa Sé cria a prefeitura apostólica das ilhas britânicas Salomão. Os ingleses mantiveram o controle político de 1893 a 1978, e até hoje as ilhas Salomão fazem parte da Commonwealth. Segundo o Sínodo da Oceania (1998), os sacerdotes diocesanos e religiosos são pouco mais de 60, os religiosos são perto de 100 e os catequistas, perto de 1000.

O método

O irmão Ini Kopuria elaborou, inicialmente, um método missionário que pode ser considerado extremamente moderno, até hoje. Um grupo de irmãos começa estabelecendo-se numa aldeia. Em muitos casos, encontra uma realidade hostil e desconfiada, que, pouco a pouco se ameniza porque os irmãos vivem como melanésios entre os melanésios, caçando, cultivando, pescando, e, a mais, rezando e vivendo em paz e harmonia. Não pretendem a conversão, nem se confrontam com a religião ancestral - quando muito, explicam que a oração e a confiança em Deus podem afastar os demônios. Assim, seu testemunho vale mais do que mil palavras, e, as pessoas da aldeia se aproximam, se abrem e aceitam a amizade.

São esses os canais pelos quais o Espírito de Deus opera. E, o reverendo Carter continua: "Nestes mais de 75 anos de vida, os irmãos conseguiram converter ao cristianismo diversas aldeias, mesmo tendo dificuldade de garantir a vida sacramental para as comunidades, devido à distância e aos precários meios de locomoção". Um problema que persiste ainda hoje: grande parte da população das ilhas Salomão vive dispersa - além disso, há barreiras lingüísticas: são mais de 90 idiomas locais. Entre as particularidades da Fraternidade, uma pode causar estranheza: o compromisso dos irmãos não é ad vitam (por toda a vida). Os votos religiosos valem por 5 anos e podem ser renovados.

Ini Kopuria considerava que, depois de três anos de noviciado e cinco de serviço à Igreja, um jovem teria o direito de decidir entre voltar ao mundo para constituir uma família ou continuar no ministério. Trata-se de uma regra objetiva que leva em conta a importância que a cultura tradicional atribui à descendência natural. A liberação dos votos e o retorno à aldeia não são, dessa forma, motivo de vergonha e de fracasso. O Rev. Carter conclui: "O que importa é que os irmãos são verdadeiramente anunciadores da Boa Nova. Não proclamam o Evangelho através de documentos oficiais; não se apresentam como peritos neste ou naquele assunto; não exigem formalidades burocráticas; andam descalços, sem dinheiro, nem salvo-conduto. São acolhidos nas casas como amigos solícitos que sempre ajudam, curam, rezam, pacificam, alegram..."

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