Revista "MUNDO e MISSÃO"
Testemunhos da Vida Missionária
![]() |
|
Lúcia Dabela Marinho e Lilian Marinho de Souza
Deus me acompanhou todo esse tempo com grande carinho de Pai-Mãe. Os 12 primeiros anos no norte da República de Camarões ajudaram-me a concretizar o nosso carisma. Doei ao povo daquele país africano o que restava de minha juventude! Doei o meu jeito brasileiro de ser missionária. Os catequistas me diziam: “Irmã, estamos gostando do jeito da senhora fazer pastoral”. Entre outras descobertas, o generoso povo da região ensinou-me a desenvolver a capacidade de saber sofrer. Aprendi, dos que se convertem ao cristianismo, a levar a sério a vida cristã e a necessidade de perdoar. Agora, retornando à missão, sinto-me mais segura que a primeira vez, pois já conheço um pouco aquela realidade. A alegria e o amor pelas missões na África também são maiores. Dessa vez, fui destinada para Ambam, extremo sul de Camarões, numa região de floresta tropical. Naquela área, nova para mim, deverei aceitar outros valores em mim mesma, porque a realidade do sul é muito diferente da do norte. As minhas perspectivas são duas, no momento: - quero aprender bem a língua da etnia onde irei ficar e quero assumir, identificar-me, amar e me adaptar à nova realidade. Estou feliz porque me confiaram a abertura de um Centro de Formação de Catequistas e um pequeno internato para adolescentes que vão estudar na cidade. Este foi um pedido do próprio Bispo, que está na diocese somente há um ano e que nós, Missionárias da Imaculada, assumimos de coração para servir a Igreja e o povo.
Ir. Lilian Marinho de Souza também é do interior da Amazônia: - é de Nhamundá, na divisa entre Amazonas e Pará. Ela foi para os Camarões há poucos meses e nos conta seus primeiros passos de missionária além-fronteiras
Dizia comigo mesma: - aqui e agora encontrei a África dos meus sonhos, África de irmãos negros, com casinhas tão diferentes das nossas; um país de homens que usam longas roupas (a maior parte da população é muçulmana); mulheres que carregam bebês nas costas e, ao mesmo tempo, bacia na cabeça; crianças com o rosto grudento; vacas, bodes, porcos, carneiros desfilando livremente e livremente sujando por toda parte. Um pedaço de África contaminada pelo inseto transmissor da malária, centenas e centenas de pessoas portadoras do vírus HIV, uma sociedade com o rosto sofrido, uma realidade de extrema pobreza humana. Bibemi é uma pequena vila perdida no meio da savana, com aproximadamente 4 mil habitantes. Pelo menos 11 tribos ocupam o território, cada qual com sua língua tradicional, mas o foulfouldé é o idioma mais utilizado pela população. A poligamia é uma realidade cultural bastante enraizada. Uma adolescente de 15 anos é considerada mulher para ser entregue, como esposa, a um homem. O sistema sanitário é precário. O grau de escolaridade é baixo. A população sobrevive das plantações de milho, amendoim e algodão. A alimentação básica é a farinha de milho com molho de algumas folhas específicas; para alguns, é o peixe seco. Na realidade, a população se alimenta uma vez por dia. Nesta terra dos meus sonhos, meu coração de missionária se sentiu como o coração de Cristo: - pleno de amor e de compaixão. Tantas vezes olhava ao meu redor e me perguntava: o que estou fazendo aqui? Aos poucos fui tomando consciência da realidade e hoje posso dizer: - estou aqui por amor à vocação que recebi de Deus, e para viver com essa gente a solidariedade humana. Experimentei o peso da mudança. Percebi olhares que acolhem, mas também olhares de preconceito, de medo do que é novo, do diferente, de ansiedade diante da realidade da vida e de silêncio interior... Por ser estrangeira, com hábitos diferentes, vinda de uma cultura minimamente parecida, experimentei o que chamamos de ‘choque cultural’. Nós, missionários, estrangeiros, começamos a vida apostólica aprendendo a maneira de nos comportarmos, de nos vestirmos, de falarmos, de nos alimentarmos. A cada dia, exercitamos a paciência, a prudência, o respeito ao desconhecido, até porque o que conta aqui é nosso testemunho de vida, bem mais do que o trabalho. Atualmente estou vivendo na fase da aprendizagem. Ensinam que a jovem missionária, quando chega num lugar, deve observar tudo em silêncio, com grande atenção, e ter muita paciência, pois o tempo é uma escola importante. Então, vai brotando o desejo, a busca, a curiosidade para aprender a acolher o novo, o diferente, o desconhecido. Percebo que começo a sentir o gosto da caminhada. Hoje me sinto em casa, participante deste povo sofrido, mas, ao mesmo tempo, misterioso. Aos poucos, vou conhecendo as pessoas para construir amizades e, de certa forma, a vida começa a tomar outras cores e o gosto africano. Em nível de Igreja, tudo é muito recente. A própria igreja, enquanto construção, tem apenas 10 anos, visto que, até recentemente, o Presidente da República era muçulmano e não permitia qualquer construção de templos para os cristãos. Sendo um país de Primeiro Anúncio, os desafios para a Igreja Católica são bem visíveis. Os passos são lentos. Temos uma Igreja com rosto predominantemente masculino, porque aqui em Bibemi todos os líderes e catequistas são homens. Raras mulheres sobem ao presbitério para fazer as leituras litúrgicas, por exemplo. Dá para entender, então, algumas diferenças da participação feminina na vida eclesial, em relação ao Brasil. Esta terra me convida a descobrir e a viver na fé o meu ideal missionário. Na verdade, para nós, latino-americanos, que carregamos uma experiência de missionariedade, de pastoral no estilo Encarnação-Páscoa-Pentecostes e na dimensão profética e libertadora, aqui, hoje, tudo isso se transforma num grande desafio, num sonho e num processo de conversão diária, visto que Deus tem o seu tempo e a sua hora. Missionárias
da Imaculada |
Visite
as outras páginas
[P.I.M.E.] [MUNDO e MISSÃO]
[MISSÃO JOVEM] [P.I.M.E.
- Missio] [Noticias] [Seminários]
[Animação] [Biblioteca]
[Links]