Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

 

uando criança, eu gostava de trabalhar, mas não de estudar. Terminado o primário, dei um chute nos livros. Então, meu pai me pôs para trabalhar com ele, como servente de pedreiro. Ele achava que seria um castigo para mim, mas eu gostava, também porque podia ajudar a família. Eu, desde pequeno, desejava ir para a África como missionário, porém, não tinha vontade de ser padre, pela minha aversão aos estudos.

Mas, um colega meu foi para o seminário e, quando voltou de férias, sua maneira de viver me impressionou: senti vontade de ser padre. Falei com meu pai, que se mostrou contrário, porque não queria passar vergonha, visto que eu não gostava de estudar. Mas, eu insisti e, depois de dois anos, com a sua permissão, entrei no seminário dos Servos de Maria. Pouco depois, veio a Segunda Guerra Mundial: eu sofri muito, porque não quis me alistar no exército e vivia foragido como desertor. Os alemães me procuravam para me fuzilar, mas consegui me salvar.

SEM NADA

Quando concluí a filosofia, o superior perguntou quem de nós queria ir para o Brasil e eu me prontifiquei. Tinha 24 anos. Mandaram-me estudar no Seminário Maior de São Paulo, onde fiquei quatro anos. Em seguida, fui enviado como professor a um seminário em Santa Catarina. Depois de alguns anos, vim para o Acre. Naquele tempo era uma vida pesada, mas eu fora acostumado a passar fome durante a guerra na Itália, a sofrer de tudo, a fugir debaixo das bombas. Enviaram-me a Brasiléia, sozinho e sem nenhuma orientação:

"O que vou fazer agora? Estudei latim, grego, hebraico: para que vão me servir agora?", me perguntava. Para morar, tinha um casebre de madeira com teto de palha, quase caindo e com buracos. Para comer, no início, ia à casa da família do prefeito. O meu grande inimigo foi a malária: peguei-a no primeiro dia em que cheguei ao Acre e até agora tive 84 ataques de malária. Não passava 15 dias sem malária. Quando o bispo me apresentou ao povo, estava com malária, mas eu não lhe disse nada.

Quando foi embora, fiquei sozinho, naquelas condições: "Sonhei com a missão, eis que agora estou aqui! Agora sim é a missão!", disse comigo mesmo. Num dos primeiros dias, estava desanimado, não sabendo o que fazer. Lembrei que tinha trazido comigo uma harmônica; fui pegá-la e a abri no meio da pracinha e comecei a tocar. Chegou a meninada, sempre mais, sempre mais; nunca tinham visto uma harmônica. Disse a eles: "Hoje à noite vou fazer novena, convidem todas as mães". E elas foram.

A igreja era velha; precisava fazer uma nova. Chamei a meninada e com eles fiz o alicerce. Enquanto estávamos trabalhando, chegou um menino que disse: "A mamãe manda uma garrafa de vinho para o senhor". Fiquei alegre, imaginando que tipo de vinho podia ser. Coloquei-o de lado para tomar sozinho. Mas era açaí! E sem açúcar, porque a mulher pensava que eu tivesse. Mas, na minha casa não havia nada, a não ser uma lata para tomar banho e para beber. Um dia me disseram que tinha chegado ao porto um barco cheio de cimento.


Pe. Paolino Baldassari entre alguns amigos

Eu fui e disse ao comandante que estávamos construindo a igreja e não tínhamos cimento. Ele respondeu que me dava 100 sacos, mas eu deveria providenciar logo os carregadores, porque o barco devia viajar no mesmo dia. Como fazer? Comecei sozinho e, quando me virei atrás, vi uma fila de pessoas, também todos os marinheiros, descarregando o cimento. A construção da Igreja foi uma maneira de entrar no povo. Na Semana Santa, durante a Hora Santa, à noite, notei que havia 104 homens.

Eles queriam um padre que trabalhasse junto e eu, que gostava de trabalhar, me realizei assim. Faltava a água; comecei a cavar um poço e a meninada ajudando. Um dia, chegaram algumas irmãs americanas e perguntaram: "Onde está o pe. Paolino?". "Lá embaixo", responderam. Uma delas exclamou: "Mas este é um padre da Santa Igreja Católica?" - e teve pena de mim. Deu-me um cheque de 500 dólares, comentando: "Está bem ser pobre, mas assim é demais". Devia comprar a mesa e as cadeiras, mas eu, com aquele dinheiro, paguei os operários.

AS DESOBRIGAS

Naqueles anos, o povo estava quase todo na mata. Por exemplo, o município de Sena Madureira, onde agora trabalho, tem 28 mil habitantes e a cidade, 20 mil. Naquela época, o município tinha 30 mil, mas a cidade, só 1.500. O bispo me dizia: "Você é missionário, porém, vive na cidade". Com isso, me empurrou para fazer as desobrigas, que são, até agora, uma das maneiras de realizar minha missão. As distâncias eram imensas e eu ficava fora seis meses, andando a pé, a cavalo e de barco. Atualmente, continuo, mas as desobrigas duram só dois meses.

Por muitos anos me ajudaram duas enfermeiras italianas, que cuidavam da parte de medicina e também espiritual, preparando o povo aos sacramentos. O povo era avisado com antecedência sobre a minha chegada, o tempo de permanência e o programa. As desobrigas aconteciam sobretudo entre os seringueiros. Eu vi que eles tinham uma tradição religiosa que vinha do Nordeste. Só que, se a primeira geração tinha sido muito religiosa, a segunda já havia perdido um pouco e a terceira havia esquecido quase tudo: além disso, ninguém deles sabia ler.

Pensei em fazer escolas, para que aprendessem a ler e escrever e eu poderia ensinar o catecismo. Era o ano de 1958, quando o Brasil havia vencido a primeira Copa do Mundo. No município não havia nenhuma escola. Então, escrevi uma carta dura ao Diretor de Educação do Acre, dizendo: "O Brasil é campeão do mundo de futebol. Quanto tempo o Brasil vai ficar campeão de analfabetismo, em especial o nosso Acre?". Ele perguntou o que eu queria dizer com isso e eu pedi que construísse logo seis escolas.

Mas, exatamente naquele período, me tiraram de Brasiléia e me enviaram a Boca do Acre e, assim, não pudemos realizar aquela idéia. As escolas vieram depois, construídas em mutirão, porque nem a prefeitura estava interessada, nem os patrões. Um deles me disse: "A mim interessa que o seringueiro não saiba ler".

MÉDICO E DEFENSOR DOS POBRES

Em Boca do Acre o grande problema eram as doenças. Eu tinha estudado um pouco de medicina, porque desde jovem queria ser padre médico. Durante meus estudos em São Paulo, aproveitava o tempo livre para aprender num consultório médico. Até 1954, o Direito Canônico proibia a um padre exercer a medicina. Quando vim ao Acre, em 1955, pedi ao Superior Geral e ele me deu a autorização. Em Manaus, não havia faculdade de medicina; então, comecei a pedir livros e a estudar com a ajuda do médico local.

A situação da saúde era grave e o médico se assustou: numa família de onze, sete morreram numa semana por febre amarela. O médico foi embora, dizendo: "Paolino, tu fica. O pouco que sabia, eu te ensinei. Eu não fico nem morto". Deixou-me tudo e eu tive que me virar com grandes dificuldades. Tive que improvisar também como parteiro. Um dia, chegou um homem chorando, porque sua esposa estava com dificuldade para dar à luz. Eu nunca tinha assistido a um parto. A mulher estava muito fraca, com a pressão muito baixa, porque passava fome.

Pensei que ela não suportaria o esforço. Mas me veio uma idéia: pedi cachaça e dois ovos, bati e misturei tudo e dei à mulher. A pressão subiu. Peguei o livro e ajudei o parto até que a criança nasceu. Veio um período em que sofri muito, porque defendia os seringueiros. Chegaram os sulistas, que se proclamavam católicos, mas compraram a terra por nada. Começaram a jogar fora os pobres seringueiros; se resistiam, mandavam os militares. Tentavam comprar o bispo, dom Moacir, com favores e eu chamei sua atenção, para não cairmos nas unhas deles.

Eu organizava os seringueiros para que se defendessem. Eu dava as sugestões e depois fugia para o interior. Uma vez, ao voltar, havia uma confusão total: nos jornais se falava que pe. Paolino estava armando os seringueiros. Com um colega meu descobrimos duas leis que defendiam os seringueiros, mas não eram aplicadas. Mandei mimeografar 400 cópias e as grudei na parede da casa dos seringueiros. Quando os sulistas leram isso, começaram a ficar com medo, porque perceberam que o seringueiro não sairia mais.


Cristo dos seringueiros - obra boliviana

Então, começou uma onda contra mim e os fazendeiros e os seringalistas que vendiam as terras organizaram uma reunião com o bispo. Eu estava com vinte seringueiros. Foi uma acusação contínua contra mim: que era subversivo, comunista. O pior foi o prefeito. Mas se levantou um seringueiro, que disse: "Senhor prefeito, eu tinha minha terra que meu pai e meu avô trabalharam. Você derrubou minha terra e botou seu gado!". Um do Incra lhe deu razão e me defendeu.

O bispo ficou calado o tempo todo, mas depois conseguiu fazer arquivar, pelo governador, um processo em que eu era acusado de ter organizado um levante de seringueiros. Eu falava claramente contra as injustiças e defendia os direitos dos pobres. Era o período da ditadura militar. Fazia isso nas reuniões, na igreja e também na rádio, que um dia foi fechada por ordem do governador. Porém, nunca fui preso. Trabalhei também com os índios, sobretudo os kulinas.

Eu vivia no meio deles, trabalhava o roçado com eles. A Funai me perseguiu, me jogou fora das terras deles com proibição de voltar antes de 10 anos. Eu estava me empenhando ao máximo para aprender sua língua e até fui fazer um curso de antropologia em Manaus: um dos professores foi Darci Ribeiro. Depois a Funai me permitiu voltar entre os índios. Minha linha era essa: o índio não deve ir à cidade, onde aprende tudo o que não presta. Eu tinha intenção de fazer chegar o "progresso" aos índios, mas no lugar onde eles estavam, na escola onde eles mesmos deviam dar aulas.

Mas meu sonho se acabou: os índios têm terra, mas vão todos à cidade e voltam para a aldeia doentes. Atualmente, uma das minhas atividades maiores é a medicina, com largo espaço aos remédios naturais, que comecei a aprender com os índios e depois aprofundei, produzindo também alguns livros. Mas é um trabalho muito mais profundo do que a simples medicina, porque, por exemplo, converso com um casal e ajudo a resolver problemas do relacionamento, da família, a evitar aborto. Inspiro-me na frase de Jesus: "Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância" (Jo 10,10).

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