Revista "MUNDO e MISSÃO"
Testemunhos da Vida Missionária
César A. dos Santos*
Imediatamente, expressou o desejo de levar a nossa comunidade até a Alemanha. E acreditamos que, se fosse vontade de Deus, encontraríamos um lugar com vocação para o nosso trabalho, onde poderíamos acolher os jovens. Seis meses mais tarde, chegava a Berlim o primeiro grupo de missionários: - 13 brasileiros ex-dependentes de droga, um voluntário alemão chamado Klaus Rautemberg e Nelson Giovanelli, o fundador da primeira comunidade. Assim nasceu a Fazenda na Alemanha: - cheia de idealismo e coragem. Os alemães ficaram tocados com o entusiasmo dos brasileiros, e logo começaram a ajudar, não só financeiramente, uma vez que a necessidade de reformas no prédio eram urgentes, mas sobretudo concretamente, quando alguns jovens, que sentiram algo de divino na experiência, vieram morar com o primeiro grupo. Também chegaram os primeiros recuperantes de droga. Dois anos depois, em janeiro de 2000, surgiria o setor feminino. Mas a experiência, que até então havia sido brasileira, precisaria passar pela purificação da cultura alemã, européia, secularizada, e ser traduzida. E Deus utilizou-se deste processo para fazer emergir, desse encontro, ainda mais forte, aquilo que havia inspirado: - que o Evangelho vivido pode libertar o homem de tudo o que o escraviza, e não só da droga.
Quando um grupo de pessoas se une e tem a presença de Cristo dentro dele, é Ele quem toca e converte as pessoas, e faz com que o trabalho cresça e apareça. E isso só poderia ser comprovado através dos frutos, com o tempo. Para nós, havia pontos fixos: - a psicologia pode nos ajudar; a psiquiatria será necessária em alguns casos, mas, imprescindível mesmo, é a vida em comunidade, centrada nas palavras do Evangelho, praticado sobretudo no trabalho diário. Esse estilo de vida é capaz de tornar alguém homem novo e pode dar as bases de uma mudança sólida, na alma e no corpo. Até porque, pela realidade materialista, secularizada, atéia, a alma é esquecida. Tudo é centrado no bem-estar material e passageiro, e esquece-se do espírito. Tanto que, na Alemanha, as terapias são basicamente de desintoxicação e não de mudança de vida. Muitos nos disseram: - “Vai dar em fiasco”. Até pessoas ativas da própria Igreja nos diziam: “É ingênuo demais pensar que o Evangelho pode tirar esses jovens da droga”. Para agravar a situação, na Alemanha os custos são altíssimos. A maioria das terapias é paga pelo governo. Na Fazenda, pelo contrário, cada um tem que trabalhar para poder jantar à noite. Realmente era inovação demais. Poderia uma Fazenda se sustentar pela providência e pelo próprio trabalho, sem a participação financeira do governo, como acontece nas demais terapias? Mas frei Hans Stapel, com clareza e determinação, disse: - “Vamos mostrar que podemos viver da providência e nos sustentar com os nossos próprios pés”. Oito anos se passaram. E a Fazenda da Esperança padre Werenfried está de pé. Mais de 200 jovens foram acolhidos, dos quais mais da metade nunca tiveram contato com a fé e vários vinham da Igreja luterana. Nunca arredamos o pé da certeza de que é Deus quem pode mudar a vida de alguém, e, por isso, precisamos dar Deus a eles. Lentamente, os jovens vão percebendo que existe algo diferente no ar. Não só nas pessoas com quem eles vivem, mas também na organização de tudo. E, por incrível que pareça, não há resistência à participação da liturgia. Perguntei a um jovem, recém-chegado e que nunca havia pensado o que seria Deus: - “Por que você participa da Missa?”. Respondeu: - “Eu sinto que aqui existe algo diferente que me faz bem, que traz proteção, e me faz sentir em família”.
Concluí imediatamente: - “Então você já experimentou quem é Deus!”. Uma coisa ficou clara para mim: - se o jovem vive nesse clima de Evangelho concreto (não somente pregado), ele pode experimentar a presença de Deus quando está na Missa e acaba se convertendo. Tanto é que já fizemos na Fazenda, nesses anos, mais de 20 batizados de jovens, fato raro na nossa região! A Fazenda se tornou um modelo de nova evangelização na Alemanha Oriental, onde reinou, por mais de 40 anos, o comunismo. Não viemos aqui para converter ninguém. Mas, sem perceber, o nosso método se encaixa dentro dos parâmetros daquilo que João Paulo II chamou de “nova evangelização”. A droga foi uma oportunidade para dar Deus à juventude sem Deus. É aquela história do mal que traz um bem. Muitos jovens querem viver conosco um tempo, não porque têm problemas com drogas, mas porque querem vivenciar nossa comunidade e descobrir nossa espiritualidade. Também para eles a Fazenda está aberta. E também para a Igreja local. O Cardeal de Berlim, dom Georg Sterzinsky, surpreendeu-nos com seu discurso aos responsáveis pelas Fazendas, em agosto de 2005. Concluo este artigo trazendo trechos do mesmo, como prova de que a primeira inspiração, de que o Evangelho vivido pode tornar alguém homem novo, é verdade e serve para todas as culturas. “(...) Há 7 anos, quando alguns padres, juntos com o Pe. Georg Schluetter, apresentaram-me o plano de começar uma Fazenda aqui – com o qual concordei – surgiram sérias dúvidas a respeito dele, inclusive por pessoas da própria Igreja. Não eram apenas receios em relação às finanças, que poderiam resultar num fiasco, mas também no conceito como um todo. Tanto nos círculos eclesiais, como no setor de trabalho social da Caritas, dizia-se que, se se quer ajudar dependentes de droga, precisa-se de acompanhamento profissional, que não seria oferecido pela Fazenda. Este era o argumento. Além disso, para dependentes de drogas deveria existir uma terapia medicamentosa em hospitais, e não numa comunidade aberta, que acolhe e recebe visitas, uma comunidade onde se vem e se vai voluntariamente. Todos diziam que nem se poderia chamar aquilo de terapia.
Agora mudou-se consideravelmente o juízo: - a Fazenda goza de uma avaliação positiva e se tornou reconhecida. Não se duvida mais dos resultados, mesmo se se questiona a sua estabilidade, se bem que isso é o mesmo com qualquer outra terapia. Sem dúvida, ainda existem os céticos, aos quais respondo que a característica dessa Fazenda, como entre todas as outras, é que eles querem fazer terapia na vida comunitária, acreditando na força de Jesus no meio. E pergunta-se se Jesus no meio teria um efeito terapêutico. Eu respondo: - ‘O que fala o Evangelho? A Salvação, não qualquer salvação, a salvação da humanidade é Jesus de Nazaré, isto é, sem Jesus Cristo não existe cura. Ao contrário, onde está Jesus Cristo, tem que existir a cura, porque o Pai o enviou para nos salvar – curar’. (...) daí eu procuro dizer que, na Fazenda, é diferente: - lá o solo, a base, é o espiritual – o solo frutuoso a partir do qual se faz a terapia, a base do qual as outras práticas serão desenvolvidas. O espiritual não é apenas um fator entre os outros, mas o que envolve todos os outros, o fundamental.” |
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