Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

Chiara Castellani

specializei-me em ginecologia-obstetrícia porque um dos grandes sonhos da minha vida, que consegui realizar, era o de ajudar a nascer crianças. Mas, desde quando perdi o braço direito (vide box), ajudo quem hoje me substitui naqueles gestos maravilhosos e essenciais que acompanham o parto. Quando me embrenho pelas matas para consultar as mulheres grávidas, procuro sempre estar acompanhada pelas parteiras tradicionais, que aqui são chamadas sage femme, mulheres sábias, muitas vezes já anciãs, geralmente analfabetas, todavia guardiãs de um saber ancestral que remonta às suas avós e que é transmitido através de anos trabalhando junto.

Na maternidade de Kiamfu-Kinzadi, esta herança de sabedoria antiga sobre plantas medicinais e técnicas secretas de ajuda ao parto também foi transmitida de uma mãe para sua filha. Maman Sengi, anciã e cardiopática, ainda é a accoucheuse, a parteira, de Kiamfu-Kinzadi. Dias atrás, porém, encontrei só sua filha Gilberthe Masonga, que sempre a acompanhava nos partos noturnos, mas que, desde quando Mamãe Sengi adoeceu, atende as parturientes sozinha, levando junto sua filha ainda pequena. Na língua kikongo, Masonga significa sabedoria, e Gilberthe é digna depositária deste saber, que exprime também em seu comportamento silencioso e reservado, com poucas palavras e gestos essenciais, como os que eu aprendi na universidade com o professor Ernesto Moneta, enquanto ela aprendeu com sua mãe analfabeta.

Entretanto, foi de mulheres como Gilberthe que aprendi, já quando estava na Nicarágua, a beleza e o esforço do nascer e do fazer nascer numa choupana com as paredes de folhas de bananeira e o teto de palha. Naquele dia, trabalhamos junto medindo o desenvolvimento do útero com uma fita métrica de alfaiate e a freqüência cardíaca fetal com o velho estetoscópio de Pinard, de madeira, hoje em dia largamente substituído pelos aparelhos de ultra-som. Procurando identificar os casos a serem transferidos para o hospital de Kimbau, encontramos, no final da tarde, Maman Nzola Meso, em término de gravidez, com risco de ruptura uterina, tendo já cinco filhos, sendo o penúltimo um parto cesariano.

Na manhã seguinte, Gilberthe me acorda apressada, gritando:

- “Nzola Meso está em trabalho de parto!...”.

Chovia torrencialmente e não havia mais tempo para levá-la ao hospital. Tínhamos que atendê-la precariamente, sobre um colchão de palha, eu com um braço só, Gilberthe semi-analfabeta e Deus, a quem invocamos juntas, porque não poderia nos abandonar. Enfim, depois de muito esforço, nasce uma linda menina de 2 quilos e meio, que recebe o nome de Maria Bambina.

Era uma promessa que eu havia feito, ainda na Nicarágua:

- minha amiga Maria, obstetra italiana que ensinava procedimentos mais seguros às parteiras tradicionais de Matagalpa, acaba morrendo de linfoma.

Ao transmitir a triste notícia à sua mãe, na Itália, esta me pede:

- ‘Quando você fizer um parto difícil de uma menina, por favor, chame-a de Maria Bambina’ (Maria Menina, em italiana).

E, sempre que nos falamos, ela me repete o mesmo pedido. E eu, mantenho sempre a minha promessa. Mais uma Maria Bambina no mundo, para manter sempre viva a lembrança e a saudade de uma grande Maria...

hiara Castellani, nascida na Itália, em 1956, é médica ginecologista, responsável pelo Hospital de Kimbau, na Rep. Democrática do Congo. Trabalhou na Nicarágua na década de 80, em plena guerra entre sandinistas e os “contras”, quando atendia e operava os feridos à luz de vela. Na década de 90, transfere-se para a África, onde, em 1992, num acidente com o jipe em que viajava, perde o braço direito.

Mas, nada abate esta mulher que se entrega inteiramente nas mãos de Deus:

- “Prometo viver na pobreza e na obediência, para servir o Teu povo.

Eu pus minha esperança na Tua graça, Senhor. Ajude-me a identificar minha vida com a de Jesus Cristo”.

Visite as outras páginas

[P.I.M.E.] [MUNDO e MISSÃO] [MISSÃO JOVEM] [P.I.M.E. - Missio] [Noticias] [Seminários] [Animação] [Biblioteca] [Links]

Voltar