Revista "MUNDO e MISSÃO"
Testemunhos da Vida Missionária
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Antonietta D’Onofrio Cartão de Páscoa
Para a Páscoa do ano passado, fiz um cartão
com o “O sofrimento desemboca na alegria. Com minha colega, andamos por todos os corredores, desejando a paz a todos os pacientes e, a cada um, deixamos uma mensagem de conforto. Quando eu saía de um quarto, alguém me chamou. Virei-me e vi uma senhora, de uns quarenta anos, sentada no leito, chorando. Aproximei-me e ela disse: - “Li, neste cartão, que da escuridão chega a luz. Hoje eu estou na completa escuridão. Quero um pouco desta luz”. Entendi que estava lá para ouvi-la, sem dizer nada, para não incomodar sua dor com minhas palavras. Entre muitas lágrimas, ela me dizia: - “Estou aqui porque tentei matar minha filha de 4 anos e, depois, me matar. Agora, a minha pequena se submete a uma terapia intensiva em outro hospital...”. Abracei-a com força. Gostaria que ela entendesse que eu compreendia a sua dor, que eu partilhava do grande sofrimento que a sufocava e que estava para afundá-la de vez. Acompanhei-a por mais de uma semana. Soube, depois, que sua filhinha estava fora de perigo e que a situação familiar tinha melhorado. Finalmente, a mulher me disse que sabia que eu era uma freira católica e que, mais tarde, me procuraria fora do hospital. Hoje ela freqüenta a catequese. Alguns dias depois de ter distribuído meus votos de paz, estive visitando os doentes de outra ala do hospital. Uma senhora me interpelou: - “Você é aquela que deu os cartões de vida nova, não é, mesmo? Diga-me uma coisa: - o que é a Páscoa? Também eu gostaria de me tornar cristã”. Com essas palavras, começamos a conversar. Um dia depois, eu andava pela mesma ala e o enfermeiro quis me confiar o caso daquela senhora do dia anterior. O médico alertara a paciente que ela tinha um câncer incurável nos pulmões e que o quadro era irreversível. Continuei a acompanhá-la, até que, um dia, ela me confessou que vivia na expectativa de me ver e de falar comigo. Falávamos de Jesus e, a partir daí, ela ficou feliz. Após o fim de semana, encontrei a mulher na terapia intensiva. Ela me reconheceu, mas não pôde mais falar comigo. A família não era cristã e não lhe permitiu o batismo, mas estou certa que agora vive na paz de Deus, porque já ouvira a Boa Nova. Estas experiências, apesar de dolorosas, dão-me uma alegria indescritível. Meu trabalho permite aproximar-me de gente que, de outra forma, não poderia conhecer o anúncio da esperança, porque não está em contato conosco. Você dirá: - você nos fala de sofrimento e diz que está feliz? Trata-se daquela alegria que deriva do fato de poder compartilhar o sofrimento dos outros e fazer com que eles sintam que o sofrimento tem um significado. O sofrimento, quando visto e acolhido na paz, pode transformar-se em sofrimento redentor. A minha alegria é muito profunda quando, uma vez feito um caminho juntos, vejo o doente sereno e feliz por acolher Jesus, como Senhor da sua vida. É possível doar esperança Quantas vezes me pergunto, ao me aproximar dos doentes, qual a palavra certa que eles precisam ouvir naquele momento. Às vezes a encontro; às vezes, não.
Quando isso acontece, me pergunto: - será que é falta de vocabulário chinês, ou dificuldade de interpretar os sinais de uma cultura diferente da minha? Eu gostaria de saber como romper a barreira entre mundos diferentes para chegar ao sofrimento alheio, para conseguir chegar até lá onde o paciente está e dizer-lhe que ele não está sozinho no sofrimento, porque estou com ele, para ajudá-lo a levar aquela dor em nome de Jesus. E bem ali, frente à última palavra na existência humana, diante da morte, as nossas diferenças se anulam e nasce uma comunicação para além de qualquer palavra e de qualquer diversidade. Ainda hoje, depois de tantos anos de experiência em Hong Kong, vivo o desafio de não captar o que o moribundo não-cristão precisa ouvir. Às vezes, vivo este desafio e sinto o desejo de aprender a decifrar os códigos de uma cultura distinta para entendê-la, estimá-la, mas, sobretudo, amá-la. Decodificar não é simples, mas é o único modo para tornar possível uma presença missionária eficiente em um país totalmente diferente do nosso. Veja esse exemplo: - uma paciente não-católica, com perna amputada, queria se matar. Ela tinha um filho com deficiência física e não sabia como continuar a ajudá-lo, já que não poderia mais andar. Eu não sabia o que dizer. No fundo, ela esperava fazer um gesto de amor, pois sua ausência daria ao filho a chance de receber auxílio do governo. É parte da cultura chinesa salvar, antes de tudo, a família, o respeito que ela merece, principalmente nos aspectos econômicos e sociais. Entendi que não devia fazer nada, somente ficar perto dela. Ia visitá-la todos os dias, mas só por poucos minutos, para não incomodá-la com minha presença. Fiz isso por duas semanas. Ela só acenava com um gesto de saudação, sem dizer nada. Depois ela saiu do hospital. Dois meses depois, passando num corredor do hospital, ouvi uma voz que dizia, atrás de mim: - “Irmã, enfim veio me visitar!”. A partir daquele dia, quando chegava para trabalhar, encontrava a senhora me esperando, para contar tudo o que acontecera no dia anterior. Antes de ter alta, ela me deixou o endereço, para que fosse visitá-la. O anúncio da Boa Nova, às vezes, não pede palavras, mas empatia, amor, simplicidade, acolhimento. Ontem permaneci, por longo tempo, no pé de um leito de um jovem de trinta anos que, chorando, disse-me ter um tumor na cabeça. Respondi-lhe que eu o recomendava ao Senhor e, então, rezamos juntos, tranqüilizando-o e devolvendo-lhe a esperança. Muitas vezes, rezo com minhas coirmãs para os doentes mais necessitados e assim recomendo também aos leitores. Evidentemente eles têm necessidade da cura, mas sobretudo de esperança no Senhor, que é o autor da verdadeira vida. A visita aos doentes jamais é fácil, porque cada um deles é terreno sagrado, inviolável e único; mas a graça de Deus me assiste e agradeço a Ele por ter-me escolhido, com todos os meus limites, para anunciar, deste modo, a sua Boa Nova. |
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