Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

Izabel Patuzzo

ou Izabel, uma paranaense. Fiz a profissão religiosa como Missionária da Imaculada há 18 anos. Participei de trabalhos pastorais em Mato Grosso e na região de Registro (SP). De lá fui destinada a Hong Kong, obedecendo ao carisma missionário da congregação.

China, uma paixão antiga

Minha escolha começou no noviciado, em uma paróquia paulistana que acolhe imigrantes chineses. Nela, eu catequizava filhos de tais imigrantes. Os chineses me cativaram pelos testemunhos de fé sob a perseguição comunista. Muitos deixaram a China por causa disso. Com eles aprendi a persistência na fé e a resistência diante de opressões. Então nasceu o meu desejo de um dia estar lá, servindo a Igreja. Os anos se passaram. Fiz os votos perpétuos em 1992. Dois anos depois recebi a destinação para a China.

Os primeiros passos

Em Londres, estudei inglês, a partir do qual poderia aprender chinês. Cheguei ao destino dois anos antes do fim do protetorado inglês, que aconteceu em 1997. Estava, finalmente, em um ambiente onde apenas 1% dos habitantes é formado por católicos. Durante dois anos, dediquei-me ao estudo do cantonês, dialeto falado pelas camadas populares em Hong Kong. No primeiro ano foi impossível me comunicar com a gente simples da paróquia. Depois, trabalhei na pastoral da saúde, visitando hospitais e doentes. Lá, nos hospitais em que temos permissão para trabalhar, mantemos um escritório, onde damos atendimento espiritual e aconselhamento a doentes terminais, católicos ou não. O primeiro trabalho missionário não é mostrar o Evangelho, mas testemunhá-lo: cuidar, atender e acompanhar o doente é também evangelizar.

Sincretismo religioso e materialismo

Na China, o budismo predomina, mas convive com elementos taoístas e com o culto aos ancestrais. O chinês queima incenso a Buda e, ao mesmo tempo, cultua em casa os antepassados. Freqüentemente participa de cerimônias taoístas. Apesar do atual materialismo chinês, as pessoas ainda se apegam às tradições religiosas, que são parte do dia-a-dia. Os festivais, por exemplo, são celebrações religiosas.

O do ano lunar, por exemplo, é como o Natal ou o Ano Novo para nós: - está intrinsecamente ligado ao agradecimento aos ancestrais.

Apostolado paroquial

Eu trabalho na paróquia Santo Estevão, fundada há 25 anos pelo PIME. Entre seus padres, que ainda trabalham em Hong Kong, está o padre Doimo, atual superior, e o padre Marazzi, primeiro pároco de Santo Estevão. Hoje ele se ocupa com portadores de deficiência na China, auxiliado pela irmã Maria Inês, da nossa congregação. No início, fomos acolhidas pelo PIME. O clero local não nos deu espaço, talvez devido à língua ou ao medo de trabalhar com estrangeiras. E existia o preconceito de que não dominávamos os métodos das religiosas locais. Até hoje mantemos um vínculo muito forte com o PIME, em Hong Kong e na China continental. No país todo, incluindo Macau e Hong Kong, há quatro missionárias brasileiras.

Duas são da Imaculada; as outras são irmãs Paulinas e estão em Macau. Nenhum padre brasileiro trabalha atualmente no país. Meu trabalho atual, partilhado com leigos, é preparar quatro grupos de catecúmenos, durante dois anos, para o batismo. É a prioridade básica da paróquia, porque é a formação da Igreja. Acompanho outro grupo, em nível de diocese, vinculado à pastoral operária. A questão do trabalho é muito séria em Hong Kong, porque os jovens carentes e sem profissão se sujeitam a serviços precários, sem contratos e sem o amparo da lei. A pastoral operária apóia, forma e dá orientação trabalhista. Vendo o testemunho da Igreja nesse caos social, muitos jovens se despertam para a fé cristã. A Juventude Operária Cristã está presente desde os anos 50, uma vez que a Igreja católica foi a pioneira no campo social.

Nosso pastor

É Joseph Zen, um salesiano de Xangai. Toda a sua família precisou deixar propriedades, abandonar Xangai e se radicar em Hong Kong, no advento do comunismo. Ele ficou isolado dos familiares por muitos anos, devido à perseguição. Então, teve que se posicionar contra a falta de direitos humanos, de imprensa e de liberdade religiosa na China. De certa forma, sua militância social ofusca a atuação meramente pastoral. É, no entanto, um educador. Foi professor no seminário de teologia. Antes de ser bispo, fez excelente trabalho na formação de clérigos e religiosas, ainda que de modo velado, porque não se pode fazer isso abertamente na China.

Uma presença antiga

As Missionárias da Imaculada estão na educação de Hong Kong há mais de 35 anos. Naquela época, o setor era carente na diocese. Fomos as primeiras a ter escola para meninas, na periferia. Mais tarde, fomos auxiliar nas paróquias. Hoje, tentamos uma presença permanente no continente, tema proposto no último Capítulo Geral. Lá trabalha a irmã Maria Inês, assistente social de portadores de deficiências. Além daquele trabalho, visitamos periodicamente dois leprosários abandonados pelo governo e lecionamos inglês, voluntariamente, em um projeto de um padre australiano, dos Oblatos de Maria. Há dois anos, em parceria com algumas congregações, ele transformou uma casa, na região central do país, em escola para crianças sem registro. Isso existe porque a política demográfica da China exige e assiste apenas a um filho por casal. As famílias não registram os demais por causa das multas. Então, eles não existem para o Estado.

Autonomia política e problemas sociais

O fim do protetorado inglês em Hong Kong gerou uma preocupação enorme: será que a China vai respeitar a autonomia da ilha? Ora, Hong Kong é uma região administrativa especial, com lei própria e uma realidade diferente. A cidade é administrada por um dirigente, escolhido pela assembléia legislativa, entre candidatos definidos pelo PC chinês. A grande luta do povo, que sai às ruas anualmente, é pedir que, em 2008, aconteça o sufrágio universal; ou seja, que ele possa eleger livremente o legislativo e executivo. Quando a China se abriu ao Ocidente, a rica indústria têxtil da ilha foi para o continente, ocasionando forte desemprego. Milhares de operários tiveram que trabalhar longe da família. Ficam fora de casa durante a semana toda e trabalham 14 ou 16 horas por dia, ganhando uma miséria.

O apoio da diocese

A diocese de Hong Kong apóia a Igreja chinesa, seja patriótica, como clandestina. Ela entende que a divisão não foi escolha dos católicos, mas uma imposição estatal. O clero e os cristãos das duas Igrejas sofrem o mesmo drama, porque ambas perderam a liberdade religiosa. No dia em que o país conhecer a liberdade religiosa, a divisão vai acabar. A Igreja de Hong Kong quer ser a ponte entre ambas, sem discriminações. Será um passo significante, pois o número de cristãos está aumentando, apesar da divisão interna. De qualquer forma, a nossa congregação luta por um espaço permanente, cada vez maior, no imenso e cativante país.

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Contato:
IZABEL PATUZZO
Tivoli Garden
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Tsing Yi – N.T – Hong Kong – China

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