Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

Pe. Costanzo Donegana e Pedro Miskalo

Revista MUNDO e MISSÃO entrevistou o bispo auxiliar de Manaus, dom Mario Pasqualotto, que oferece uma visão da Igreja na Amazônia

Como foram os seus primeiros contatos com a realidade amazônica, tão diferente da sua terra natal?


Dom Mario Pasqualotto
Bispo Auxiliar de Manaus

esembarquei em Macapá, como missionário do PIME, italiano, em 8 de dezembro de 1967. Quatro dias depois, a bordo de um teco-teco, vislumbrei a vastidão da floresta e do rio Amazonas até Parintins, local de minha destinação. Em seguida, fiquei uns meses em Manaus para aprender a língua e os costumes locais. Em abril de 68, voltei a Parintins, onde auxiliaria o Pe. Amadeo Bortolotto, pároco de Barreirinha. Foi uma experiência belíssima, porque eu era jovem, muito entusiasmado. No começo, trabalhei com os índios Sateré-Mawé, mais ou menos um ano e oito meses.

Nem deu tempo de aprender a língua deles, exceto frases incompletas, por falta de gramática. Quando o pároco foi chamado à Itália, assumi praticamente a paróquia, com problemas e dificuldades econômicas, sozinho, por muito tempo. Depois, o Pe. Enrico Uggé chegou para me ajudar. Com os jovens, encenávamos dramatizações sobre a História da Salvação, a Paixão do Senhor, e outras peças que apresentávamos até em Parintins. Montávamos cursos bíblicos e de catequese no interior. Em mutirão com o povo, levantamos uma igreja nova em Barreirinha, orgulho da comunidade que, aos sábados, se reunia para caldeiradas memoráveis. Fiquei lá dois anos e meio.

Por que saiu?

Fui chamado à Itália, mas voltei a Parintins em 1976, como vigário-geral da prelazia. Um mês depois que saí, em 1981, ela foi elevada à categoria de diocese. Voltei à Itália, como reitor de seminário. Quatro anos depois, eis me em Barreirinha, como coadjutor e, em seguida, como pároco. Até que enfim poderia fazer uma experiência com a própria responsabilidade. Infelizmente, ela durou poucos meses, porque fui chamado de novo à Itália, onde fiquei mais cinco anos. Depois, retornei a Maués, onde a experiência com o povo foi maravilhosa.

Instalamos a Rede Vida, um salão paroquial novo, fábrica de telhas, centro de costura para mulheres ..., tudo feito com o povo. Duas vezes por ano, fortalecíamos as comunidades do interior com a semana catequética. Fazíamos festas: Natal, Dia das Mães, Pentecostes, mês da bíblia, mês vocacional. O povo repetia no interior tais eventos religiosos. Parintins tornou-se modelo para outras dioceses, graças às lideranças leigas, a começar pela Congregação Mariana e pelo Apostolado da Oração.

Normalmente, a sagração episcopal é o coroamento de um belo apostolado. Como ocorreu a sua?

Ao saber que o arcebispo de Manaus, dom Luiz Soares Vieira, tentava falar comigo em maio de 1999, desconfiei que seria convidado ao episcopado e procurei evitar o encontro. Por telefone, ele insistia até que, um dia, achou-me em casa.


Pedro Miskalo entrevistando o Dom Mario Pasqualotto

Naquela noite, briguei com Deus:

- “Senhor, agora que estou com 60 anos, velho, você me chama?

Não sei trabalhar na cidade. Sou caboclo, sou índio. Além disso, estrangeiro”. A contragosto, fui a Manaus e dom Luiz foi direto ao assunto. “Dom Luiz – respondi – não dá! Até meu linguajar é de caboclo. Não tenho experiência. Isso não é pra mim”. “Olha – ele revidou -, você não sabe o que é sofrer sozinho! Se aceitar, vamos fazer tudo juntos. Você pode morar na minha casa ou onde achar melhor”. A sinceridade daquelas palavras e a proposta de uma vida em comunhão me desarmaram. Era 13 de maio de 1999, festa de N. Sra de Fátima, exatamente no mesmo dia e hora em que meu pai, 11 anos antes, falecia. Fui sagrado bispo em agosto.

E a comunhão, prometida por dom Luiz, acontece de fato?

Aí está a beleza do episcopado. E logo os padres perceberam nossa sintonia e o trabalho em conjunto.

Um dos padres me disse: - “A unidade de vocês dá segurança para nós.

A maior graça que a diocese de Manaus tem é a união dos dois”. Há três anos, chegou dom Sebastião Matera Coelho, maranhense, bom homem, tranqüilo, sereno, maravilhoso. Uniu-se tanto a nós que todos nos chamam de “trindade”. Moramos na mesma casa. A cada segunda-feira, definimos, juntos, os compromissos de cada um.

Fale-nos de alguns desafios

São muitos, mas estamos felizes com nosso clero, bastante unido e pelo qual rezamos sempre.

Às vezes, digo aos padres: - “Vocês são heróis de verdade”.

No domingo à noite, cansados, depois de três ou quatro missas, batizados, palestras e..., sozinhos. Incentivamos a vida em comunidade para diminuir a solidão e aumentar a partilha. No momento, temos 24 padres diocesanos, os demais são religiosos. Em 16 anos, dom Luiz ordenou 8 padres. De alguns anos pra cá, todo ano, um é ordenado, em média. No próximo, teremos três ou quatro novos. Entretanto, o clero também envelhece. E a diocese aumenta cerca de 70 mil pessoas por ano. Manaus passa de 2 milhões de habitantes, com um perímetro urbano de 40 quilômetros ao longo do rio e 22 quilômetros em direção à floresta, ao norte. A paróquia do PIME, por exemplo, chamada de São Bento, tem 19 comunidades. É como se fossem 19 paróquias, porque, calculo, há, no mínimo, 150 mil habitantes.

A dos xaverianos, tem 23 comunidades. São perto de 300 mil pessoas para 5 padres apenas. Há cidades novas, com 25 a 30 mil habitantes, sem um padre sequer. Em algumas, trabalham irmãs inter-congregacionais. Em tais cidades há pouca juventude, pois os jovens invadem Manaus em busca de escolas e trabalho. Inúmeras universidades se espalham pela cidade, com enorme população universitária. Até de Tabatinga, jovens estudam em Manaus. Parintins tem uma unidade da Universidade Estadual da Amazônia, que acolhe também alunos de São Gabriel da Cachoeira. De lá e de outros lugares afastados muitos jovens indígenas se suicidam, por falta de perspectivas, ou caem no problema crônico da embriaguez ou de outras drogas.

Há mercado de trabalho para tantos formados?

Só encontram emprego em Manaus as pessoas com certa especialização ou preparação técnica. Quem não tem, monta uma barraquinha. Este é outro desafio enorme. Entre pequenas e grandes indústrias, temos em Manaus cerca de 500, com aproximadamente cem mil empregos diretos e muito mais indiretos. Creio que cerca de 800 mil pessoas dependem do Distrito Industrial. Se um dia acabar a Zona Franca, vai haver uma miséria sem tamanho.

Com tal explosão demográfica e expansão industrial, expandiram-se também seitas?

Esse é outro desafio. Mas a presença delas se explica: onde não há padre, entra imediatamente o pastor para marcar presença. Em Manaus, há ruas com duas, três ou até quatro igrejas da Assembléia de Deus. Eles dizem que bastam cem fiéis para manter um pastor. Na rua principal, a Igreja Universal do Reino de Deus construiu um templo enorme, com amplas escadarias e um salão imenso embaixo. Ao nosso ver, porém, ela parou de crescer em Manaus.

Uma ocupação de terra tinha dez mil casas com aproximadamente 40 mil pessoas, sem uma igreja católica, mas com 36 templos protestantes. Até católicos diziam que freqüentavam os templos por falta de igreja católica. Quando cheguei, em 1999, fiz um mutirão de visitas com três irmãs; depois, em agosto de 2000, convoquei carismáticos, CL, Focolare, Nova Aliança, paróquias. No dia 19 daquele mês, sábado, fizemos uma grande celebração, bem próximo da área de ocupação e, no domingo, aqueles grupos católicos foram casa por casa, dois a dois. Às 4 da tarde, em quatro pontos diferentes, celebramos 4 Missas contemporaneamente. Hoje, temos seis igrejas na ocupação, com padres fixos.

Além de serem pastores, muitos bispos precisam ser também administradores.
Como é isso em Manaus?

Em nossa diocese há uma bela equipe leiga de administração que ajuda as paróquias. Em algumas, treinamos o pessoal para aderir à informática. No ano passado, fizemos um diretório econômico-administrativo, recurso que raríssimas dioceses do Brasil têm. Mas quase todos os bispos da Amazônia são obrigados a se transformar em esmoleiros na Europa, uma ou duas vezes por ano, para procurar recursos, pois suas dioceses são muito pobres. A situação de algumas é realmente lamentável. Algumas instituições diocesanas de Manaus têm parceria com o Estado. Uma é a Caritas. O governo do Amazonas construiu um Centro de Desenvolvimento Humano que promove projetos sociais. É com ele que a diocese faz convênios. As parcerias são importantes quando há clareza e sinceridade de intenções.

Como é o Plano de Pastoral da arquidiocese?

Chama-se APA – Assembléia Pastoral Arquidiocesana. É um plano muito ativo, que se renova entre três e quatro anos. É um trabalho muito bem feito, a partir da base. A equipe central avalia a trajetória feita e planeja ações futuras. Isso denota um ano e meio de trabalho. A assembléia de pastoral é só a celebração do que a base já encaminhou para as comunidades. Ela escolhe seis projetos de pastoral, dois de cada linha.

Ultimamente, definimos três pontos mais urgentes: - família, pastorais sociais, periferia/interior.

As famílias são um desafio à parte, pois 80% delas, em Manaus, estão desintegradas. Os 18 endereços da Pastoral do Menor, na cidade, já são insuficientes. Neste ano, teremos a 8.ª APA. Ésobre Aparecida. Um padre salesiano, com excelente capacidade de síntese, está preparando os livretos que deverão ser estudado nas bases.

Uma palavra sobre a preservação ambiental

No estado do Amazonas já existe, graças a Deus, a consciência da preservação da natureza. Cerca de 95% do estado é ainda floresta e é por isso que ele obtém muito empréstimo internacional. Isso se torna cada vez mais difícil em outros estados da Região Norte.

O PIME NO ESTADO DO AMAZONAS

Em 1948, os primeiros missionários do PIME chegaram da Itália e iniciaram a missão na periferia de Manaus, cidade que tinha cerca de 250 mil habitantes. Logo, os padres animaram as comunidades com catequese, formação da Congregação Mariana, Apostolado da Oração e pastorais sociais, como a construção de um ambulatório, que funcionou até 1990, quando o Governo construiu um hospital nas proximidades. Jardim de infância, Ensino Fundamental e Magistério ficaram sob a direção das Missionárias da Imaculada, ligadas ao PIME. Várias paróquias e capelas, construídas pelo Instituto, foram entregues ao clero diocesano.

O PIME também implantou em Manaus uma escola de Marcenaria e Carpintaria e a Escola Agrícola Rainha dos Apóstolos, para os jovens indígenas. A prelazia de Parintins, com 75.654 km² cobertos de água e florestas de extensos municípios (Barreirinha, Manicoré, Maués, Nhamundá, Boa Vista dos Ramos,...) foi confiada ao PIME. Ao longo do tempo, os seus missionários vêm se dedicando à promoção e evangelização de indígenas, formação de lideranças e animação vocacional para prover a região de clero local. Também implantaram ambulatório médico e evangelização à distância, através da Rádio Educadora de Parintins.

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