Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

O Sangue dos Mártires
Costanzo Donegana

O povo da Guatemala foi um povo mártir: sobre ele abateu-se, de maneira brutal, a violência da repressão da ditadura militar (e também da guerrilha), entre as três décadas de 60 e 90. Houve mais de 55 mil mortos documentos pelo relatório da Igreja "Guatemala nunca mais"; mas, sem dúvida, o número real foi maior.

Outros países da América Central foi maior. Outros países da América Central (El Salvador, Nicarágua) sofreram naquela época, mais foi na Guatemala onde a violência ultrapassou todos os limites. Ela abateu-se sobretudo sobre as populações indígenas, destruindo não só vidas, mas também a cultura, a família, a vida comunitária, a identidade social e religiosa, a natureza.

Reproduzimos simplesmente alguns testemunhos do relatório "Guatemala nunca mais": achamos que a força terrível das palavras das testemunhas vale mais que qualquer comentário. "Antes de assina-la, pregaram-na numa cruz que fizeram, fixaram-lhe alguns pregos bem grandes nas mãos e no peito, depois a levaram para a casa para queima-la. Foi encontrada queimada ainda na cruz: seu bebê estava a seu lado, também queimado."

"A mulher estava grávida. Com uma faca abriram sua barriga para tirar o bebê. E mataram os dois. Das menininhas que brincavam entre as arvores perto da casa as cabeças com machete".

"Meu pai e minha mãe morreram, seus restos ficaram na montanha. Deixavam as crianças em pedaços, contando-as com machete. Os doentes, inchados pelo frio, se encontravam

com eles. Às vezes, davam-lhes fogo. Sinto muita dor no meu coração, não tenho mais ninguém, meus pais não estão vivos e sinto como uma faca no coração.

Fomos arrastando os mortos, devíamos enterra-los e tínhamos medo. Os cadáveres não ficaram todos juntos, ficaram espalhados por ai, perdidos na montanha (...) quando chegava a patrulha, dividiam-nos com machete e alguns ficavam em quatro pedaços."

"Ai Deus, que tristeza! Me dá vontade de tomar um trago de pinga para tirar a tristeza. Ai Deus! Chorei amargamente. A comunidade foi destruída, só duas famílias permaneceram, os outros foram embora. Antes havia festa, havia brincadeiras, vinha o padre batizar, alegria, vinham vender pão, matavam gado para vender carne; a festa, porém, por causa desta violência, acabou. O tempo da festa está perdido."

MAS DO MARTÍRIO NASCE VIDA NOVA

"O sangue correu, o sangue foi derramado aqui na santa terra, foram lançados as sementes da paz e da justiça, da verdade, da igualdade, do respeito; é disto que precisamos agora: que se leve em conta os que se ofereceram pelo povo maia, povo indígena, povo não indígena, pelos pobres. Pedimos a Ajau, o criador do céu e da terra, e aos irmãos defuntos, que ofereceram suas vidas, que intercederam por nós todos aqui na sagrada terra. Não se pode mais ver esta dor." "Nos já podemos procurar ajuda e no unir, porque acreditamos que a vida continua ainda."

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