Revista "MUNDO e MISSÃO"
Testemunhos da Vida Missionária
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Francisco de Assis, inquieto quanto ao seu futuro, entre sombras, interrogações, dúvidas e incertezas, descobre enfim sua vocação e missão, aos 26 anos de idade, em 1208. A inspiração veio do Evangelho de Mt 10,5, onde se narra o envio dos discípulos pelo mundo. E Francisco, que ainda não havia entendido o que Deus queria dele com o vigoroso apelo que o Cristo de São Damião, em 1205, lhe fizera: Francisco, vai e reconstrói a minha Igreja, não vês que ela está em ruínas? sente uma luz que lhe invade o coração e percebe que Deus precisava dele. Assim, no despojamento, na pobreza e numa vida itinerante e missionária, põe-se a caminho, a serviço do Senhor. Em 1212, deixa a Itália e vai além das fronteiras, ao Egito, no continente africano, para encontrar-se com o sultão, não para converter, impor ou impor-se, mas para criar um clima de aproximação, de diálogo e boa vizinhança. Entendia Francisco que não seria através das armas dos Cruzados que se provocaria a reconciliação ou a conversão. É neste espírito missionário que, em 1990, assumimos a Missão em Angola, para, a exemplo de Francisco, compartilharmos, como diz o Concílio Vaticano II, das alegrias e esperanças, das angústias e esperanças deste povo angolano, martirizado por uma guerra fratricida há 26 anos. Lá estão 12 frades, a exemplo dos 12 discípulos do Cristo, uns na Província de Malange, no interior e, mais tarde, também em Kibala, onde infelizmente, devido à guerra, a sede da missão foi invadida, atacada e saqueada. E por circunstâncias graves, tivemos de abandonar às pressas, em 1998, essa missão com suas 139 aldeias. Abrimos uma nova Missão em Luanda, capital. Fomos convocados a conviver com este povo negro e sofrido, para promover a dignidade humana, dar-lhe condições de vida, para combater a fome, a ignorância e as doenças e levar-Ihe o conforto da fé e da esperança. Este povo sacrificado pela guerra é um povo simples, religioso, acolhedor, bom e hospitaleiro. Uma guerra que dura mais de uma geração Na capital, há 4 milhões de habitantes, ao passo que, em 1975, antes da Independência, a população era cerca de 300 mil. Por que este inchaço? Devido ao grande êxodo do povo do interior que busca na capital mais segurança, já que o grosso do exército do Governo lá está: um milhão de militares, num país cuja população é de 13 milhões. Em Luanda, estão os refugiados de guerra, sem emprego, e não há uma infra-estrutura adequada para suportar tamanha multidão. Falta tudo: energia, água, saneamento básico, indústrias e hospitais. As ruas ainda são quase todas de terra. Devido à guerra, às minas e à falta de recursos, as terras tornam-se quase improdutivas. Tudo vem de fora e, assim, o custo de vida é altíssimo.
Outra missão localiza-se em Malange, no interior, a 430 km da capital. O acesso a esta Província de 120 mil habitantes é difícil. Por via terrestre, somente uma vez por semana e o trajeto leva 4 dias. Semanalmente, há necessidade de uma coluna militar para dar cobertura ao comboio de caminhões e carros que se dirigem para Malange. As matas são vasculhadas por uma rigorosa varredura militar, para não se cair em emboscadas, e a rodovia, com o asfalto em péssimas condições, é examinada por causa das minas. O aeroporto desta Província é um reflexo da guerra: todo danificado pelos bombardeios, não possui vidros, janelas ou portas, nem instalações sanitárias. Malange está numa área plana, bonita e com traçados modernos. Ruas largas, pistas duplas do tempo dos portugueses, jardins. Atualmente, a cidade prima pelos buracos e más condições. As melhores casas estão envelhecidas e as habitações nos bairros são todas de blocos de barro, cobertas de capim ou zinco. A Província não possui energia, as ferrovias não funcionam, não existem ônibus coletivos. Organismos de fora, como o Programa de Alimentação Mundial, a Caritas Internacional e as Organizações não-governamentais, enviam gêneros alimentícios, roupas, remédios e ajuda financeira para projetos agrícolas. Tudo está confiado à Igreja, que faz o atendimento à população. Nossa missão, entre outras tarefas, prepara as lavras (lavouras) para o cultivo do milho e mandioca, base da alimentação deste povo. Também há hortas comunitárias. Cada família recebe uma área de terra para o plantio, inclusive as sementes, e responsabiliza-se pela sua plantação. No entanto, em tempo de penúria, ou seja, de fome, a plantação é prejudicada, uma vez que a família lança mão das ramas da mandioca, das folhas do milho ou do feijão para se alimentar. As aldeias estão situadas ao longo das estradas ou embrenhadas nas matas. Em certas regiões, devido às minas, o acesso à população é impossível. Há moradores que andam 70 km a pé até a aldeia mais próxima, aonde o missionário chega, para um batizado, casamento ou participar de uma missa. O missionário, por falta de estradas e pontes, não tem acesso a todas as aldeias, que são mais de 250. Não raro, numa aldeia, convivem duas ou até três tribos diferentes. Os casebres desta gente não possuem mais que 4 ou 6 metros quadrados. Todos de sapé ou de pau-a-pique, entremeados com barro, cobertos de palha e chão batido. Uma ou duas divisórias: cozinha e quarto. Promiscuidade para se dormir. Na cozinha, à noite, abrigam-se o cabrito e a galinha. As capelas também são de palha ou de pau-a-pique. Os que visitam as aldeias são os missionários e as missionárias, sempre recebidos com festa, canto e palmas. É um povo acolhedor. A participação na liturgia é uma manifestação de fé: cantam, dançam, assobiam e vibram. É maravilhoso. Longe da cidade, seus produtos carvão e lenha são levados às costas, sobretudo pelas mulheres e adolescentes, até às praças, isto é, às feiras mais próximas: 10 a 20 km, para receber em troca um ou dois dólares. Outros submetem-se a pagar o frete. Há um único caminhão para transportar a lenha ou o carvão.
Nas estradas, nota-se um formigueiro de pessoas com seus produtos. Com o minguado dinheiro que recebem da venda, compram açúcar, sal, café, óleo, mas a porção não excede a 30 ou 50 gramas. Chegam a adquirir até um dente de alho ou um quarto de cebola. É a luta pela sobrevivência deste povo resignado que só conhece essa realidade. No interior, sobretudo, ele é maltratado pela guerra, acossado pela fome, martirizado pela dureza da vida, atormentado pela insegurança existencial, mas também é sustentado pela vontade de viver. Frei Atílio Abati é coordenador do Departamento de Evangelização Missionária em Angola África MISSÃO FRANCISCANA EM
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