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Falamos de Deus com nossos seqüestradores
Teresa Bello
Quatro anos atrás, a irmã Teresa Bello era seqüestrada
na Serra Leoa junto com seis coirmãs. Ela fala da situação
do país e descreve sua dramática experiência
Cheguei a Serra Leoa em 1990. Já em 1994, os rebeldes tinham-se
introduzido no sul do país e o conflito, que dura até hoje,
em pouco tempo, começou a se alastrar. Não é uma
guerra combatida por motivos raciais e sim uma luta sustentada por enormes
interesses financeiros: a posse das minas de diamante de que o país
é rico. Podemos dizer que a riqueza da Serra Leoa é a causa
de tanto sofrimento. Na época em que fomos seqüestradas, eu
estava trabalhando numa escola superior muçulmana, onde lecionava
educação familiar e moral. Eu gozava de bastante liberdade
em meu trabalho, podia falar dos valores das várias religiões,
do relacionamento entre católicos e muçulmanos. Os estudantes
se mostravam interessados. Sempre nos relacionamos bem com os muçulmanos
de nossa comunidade: muitas vezes, pessoas abastadas, que viviam naquela
região, vinham a nossa igreja e traziam ofertas consistentes, talvez
porque vissem que nos comprometemos diretamente com o povo, partilhando
com ele tudo o que tínhamos.
Assim convivemos em paz e harmonia com os muçulmanos de nossa comunidade
até a guerrilha chegar.
A Serra Leoa e a guerrilha
A guerrilha na Serra Leoa ataca diretamente o povo humilde e parece esquecer-se
das autoridades, do exército e da polícia. Ela ataca e destrói
as aldeias onde vive a população indefesa. A gente simples
vive no terror, obrigada a mudar de um lugar para outro para fugir à
fúria dos guerrilheiros. Quando eles não matam, criam graves
problemas para o povo, destruindo as colheitas. Freqüentemente, agem
com requintes de crueldade contra os prisioneiros, amputando-lhes as mãos
ou os pés: isso se torna muito mais trágico, se pensarmos
que Serra Leoa é um país agrícola e que essas pessoas
nunca mais poderão trabalhar e prover seu sustento.
Nosso seqüestro aconteceu na cidade de Kambia, onde morávamos,
às sete da manhã. Tínhamos acabado de chegar a casa,
voltando da missa, e estávamos começando a tomar café,
quando entraram uns vinte guerrilheiros armados que nos mandaram sair
todas (éramos sete), ordenando que começássemos a
andar. Era 25 de janeiro de 1995. Conosco havia cerca de cem pessoas.
Parte dos guerrilheiros estava conosco, para evitar que fugíssemos,
outros estavam na aldeia, queimando casas e matando pessoas.
Eram homens acostumados a matar sem motivo nenhum. Às vezes, faziam
isso só para dar uma demonstração de força,
como aquela vez em que, depois de três dias de caminho, mataram
três jovens que tinham tentado fugir. Foram atrás deles e
os alcançaram, levando-os depois até a aldeia onde nós
estávamos. Ali os executaram, diante de todos. Assim, deram uma
lição a todos os demais jovens que eles recrutaram nos vários
povoados e que teriam sido tentados de imitar os três que tinham
fugido.
Dois meses na floresta
De Kambia, onde fomos capturadas, caminhamos durante uma semana, percorrendo
mais de 200 quilômetros. Durante todo esse tempo, nunca ouvimos
dizer que o exército ou a polícia estivessem nos procurando,
perseguindo nossos raptores.
De repente, nós irmãs mais um grupo de outras pessoas deixamos
a estrada principal e seguimos mato adentro. Fazia muito calor, estávamos
cansadas, física e psicologicamente. Atravessamos muitas aldeias.
Cada vez, repetia-se a mesma cena: entrávamos numa aldeia bem conservada
e limpa e saíamos deixando atrás da gente tudo destruído.
Uma vez, chegamos a um povoado que acabava de ser atacado por outro grupo
de rebeldes: os mortos estavam em todo lugar e precisava ter muito cuidado
para não pisar neles.
Finalmente, chegamos ao campo base dos guerrilheiros e ali ficamos 55
dias num morro inteiro, totalmente ocultado pela floresta. Os rebeldes
eram muito duros conosco. Mas, assim mesmo, conseguimos dialogar com alguns
deles.
A parte do campo onde nós estávamos presas, tornou-se ponto
de referência para alguns jovens guerrilheiros. Eles vinham nos
visitar freqüentemente e quando nos encontravam rezando, punham-se
a rezar também.
Alguém chegou a nos pedir explicitamente que lhe falássemos
de Deus. Um deles quis aprender a rezar o terço. Compreendemos
que era possível testemunhar Cristo e ser verdadeiras missionárias
mesmo numa situação como aquela. Éramos fracas e
indefesas, mas é através dessa impotência que o Senhor
opera grandes coisas.
Ameaçadas de morte
Em seguida, começaram as tratativas. Para que fôssemos libertadas,
eles queriam um rádio transmissor muito poderoso e muitas outras
coisas. Durante toda essa fase, o nosso bispo, que esteve sempre em contato
com os rebeldes, foi muito firme. Nunca prometeu nada em troca de nossa
libertação.
Nesse período, houve um ataque ao campo por parte das forças
militares fiéis ao governo. Foi uma verdadeira batalha. Combateu-se
o dia inteiro e o campo foi bombardeado várias vezes. Os guerrilheiros
pensaram que nós fôssemos espiãs e nos isolaram. Fomos
consideradas traidoras e nos ameaçaram de morte. Foi preciso muito
tempo para que os guerrilheiros se convencessem de que não tínhamos
nada a ver com o ataque por parte do exército.
Libertadas. Os guerrilheiros pedem a bênção
Dois meses depois, dia 20 de março, no começo da noite,
disseram-nos que deveríamos partir. Caminhamos pela floresta, das
8 da noite às 8 da manhã, quando encontramos o nosso bispo
que tinha vindo ao nosso encontro. Os nossos seqüestradores não
somente não ganharam nada, mas antes de ir embora, ajoelharam-se
e pediram a benção ao bispo.
Esse acontecimento foi uma verdadeira graça para cada uma de nós.
Constatamos que Deus opera de uma maneira misteriosa em situações
aparentemente incompreensíveis. Alguns daqueles homens que nos
raptaram, os mesmos que vimos destruir, incendiar e matar, muitas vezes
vieram sentar-se e falar conosco para nos contar sua insegurança
e sua profunda necessidade de Deus. Eles certamente não queriam
essa guerra. Se pudessem voltar atrás, certamente o fariam. No
dia de nossa libertação, deixaram-nos com uma mensagem que
nos pediram que difundíssemos: uma exortação aos
governantes do mundo ocidental para que deixassem de vender armas à
Serra Leoa.
SERRA LEOA
- SUPERFÍCIE: 72.000 km2
- POPULAÇÃO: 4,5 milhões de hab.
- CAPITAL: Freetown
- RELIGIÕES: Islamismo: 60%, Animismo: 30%, Cristianismo: 10%
- RENDA PER CAPITA: US$180
- EXPECTATIVA DE VIDA: a mais baixa do mundo: Homens: 44 anos Mulheres:
50 anos
- ANALFABETISMO: entre os mais altos do mundo: 69%. Já não
se fala de Terceiro Mundo, mas de Quarto Mundo. Desde 1990, uma série
de golpe de estado sacudiu a vida política do país. A
guerrilha, que continua até hoje, deixou milhares de mortos e
mutilados e centenas de milhares de refugiados. Forças ocultas
estão lutando pela posse das ricas minas de diamantes que o país
possui
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