Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

Stan é músico de jazz, ex-freqüentador dos botecos malfalados de Manhattan. Conrad era assistente do reitor da Universidade de Steubenville, em Ohio. François-Marie era traficante de droga no Canadá e, depois, discípulo do reverendo Moon. Francis era um skinhead inglês, enquanto Glen trabalhava como jornalista na CBS news e seu lema era “bad news are good news” (as más notícias são boas notícias).

Hoje, Stan usa os direitos de seus discos para pagar os enterros dos pobres de Nova York; Conrad passou meses na cadeia pelas sua incansável atividade de propaganda anti-abortista; François-Marie trabalha para arrancar os dependentes das garras da droga; Francis joga basquete com os detentos do cárcere de menores de Spofford e Glen escolheu anunciar a Boa Notícia. Suas vidas cruzaram-se no South Bronx – por anos o bairro mais violento e mal-afamado de Nova York – onde eles, junto com um pequeno grupo de outros corajosos (que hoje são cerca de cinqüenta), decidiram se colocar a serviço dos últimos entre os marginalizados da sociedade.

Stan, Conrad, François-Marie, Fran-cis, Glen e seus companheiros são frades franciscanos. Fazem parte da fraternidade da Renovação, nascida em 1987 por iniciativa de oito capuchinhos, que decidiram deixar sua comunidade para se dedicar a uma vida evangélica mais radical e o mais próxima possível à regra do fundador. Nasceu, assim, bem no meio do violentíssimo Bronx a fraternidade de São Crispim, onde se vive segundo o lema: “No money, no honey, one boss” (Nada de dinheiro, nada de doçuras, um só chefe).

Os frades de São Crispim são, hoje, um ponto de referência para os habitantes do bairro: garantem assistência material e conforto espiritual a todos que precisarem – jovens traficantes, mães solteiras vítimas da miséria, famílias desagregadas –, acolhem os sem- teto, celebram os funerais dos pobres e moradores de rua, distribuem comida às mães de família que moram nos cortiços assim como às prostitutas. São considerados “ a família daqueles que não a têm”.

Vidas novas

Suas histórias de extraordinária cotidianidade são compostas de inúmeros casos que vão desde as conversões, às vezes incríveis, dos próprios frades até centenas de exemplos de sua incansável obra, toda voltada para a recuperação, em qualquer condição, da dignidade de cada homem.


Flagrante de contrastes numa das cidades mais ricas do mundo

Os recursos dos frades, do ponto de vista econômico, são muito limitados; contudo, uma série de coincidências – que eles preferem chamar de “God-incidences” (incidências de Deus) – chegam sempre em tempo, quando a situação está à beira do desespero, para garantir não só a sobrevivência, mas também a ajuda aos outros. No South Bronx, a Providência que, normalmente, age de maneira discreta, algumas vezes decide passar dos limites, como quando frei Bob, em conseqüência de uma aposta com um incrédulo funcionário da prefeitura, comprou por um dólar um edifício inteiro contíguo à fraternidade, que não existia nos mapas e que foi destinado à acolhida de sessenta sem-teto.

O abrigo Padre Pio hospeda, cada noite, dezoito moradores de rua. Ali, os franciscanos recebem todo tipo de pessoas: mulheres abandonadas e brilhantes homens de negócios, caídos na miséria da noite para o dia, pessoas sem esperança que, às vezes, devem enfrentar incríveis mudanças na vida. Frei Harry lembra o caso de Roy, ex-dirigente do Anc de Nelson Mandela, procurado pela polícia sul-africana, refugiado nos Estados Unidos e ali caído na mais completa marginalização. A notícia de que Mandela havia chegado ao governo na África do Sul e o queria como ministro, pegou Roy exatamente enquanto se encontrava no abrigo dos capuchinhos.

O South Bronx, antigamente rico, ganhou a fama de gueto a partir dos anos 60. À medida que chegavam as famílias dos negros e dos porto-riquenhos, os brancos mudavam. Os serviços pioravam progressivamente, as patrulhas da polícia tornavam-se cada vez mais raras, as agressões o os roubos multiplicavam-se. Começou assim a queda do Bronx. Os proprietários assustados mandavam atear fogo a suas habitações para embolsar a indenização das seguradoras. Um terço do South Bronx (trezentas mil casas e apartamentos) foi engolido pelas chamas numa longa agonia de quinze anos. Entre as ruínas e nas esquálidas casas populares, encontraram lugar os novos paupérrimos ocupantes. Dominava a degradação material e moral. Em 1985, chegou a Nova York o craque e o Bronx tornou-se o campo de batalha entre as quadrilhas dos traficantes. Em 1990, foram cometidos mais de 48 mil crimes violentos. A violência familiar alcançou níveis altíssimos, enquanto a expectativa de vida de um jovem negro era menor que a de um habitante de Bangladesh.

Mas, no decênio 1990-2000, o Bronx transformou-se. As ruínas enegrecidas desapareceram quase totalmente. Novas construções estão substituindo as antigas casas populares. A política do prefeito Rudolph Giuliani, em dez anos, diminuiu 71% dos homicídios e 66% dos assaltos. A polícia está presente mais ostensivamente e os policiais de bairro conhecem quase pessoalmente os moradores do próprio setor. O número dos crimes é sempre alto, mas, sem dúvida, é possível viver no bairro. Porém, esses resultados não são fruto só da enérgica política de Giuliani, mas também da obra das comunidades religiosas, como os Franciscanos da Renovação e as Missionárias da Caridade de Madre Teresa, que desenvolvem um discreto papel de pacificação social, mas igualmente eficaz.

“Avvenire”

Quem sustenta a obra dos frades são as irmãs presentes em São Crispim e muitíssimos leigos: entre os 250 “associados”, contam-se donas de casa e enfermeiras, encanadores, médicos e até policiais.

Eles partilham com os religiosos os sucessos e os fracassos, que, infelizmente, não faltam: a dor pela terrível morte do jovem Luis, que tinha conseguido recuperar sua existência desastrada, mas não havia podido fugir da vingança dos ex-companheiros de quadrilha, pôs duramente à prova a fé de muitos, também entre os frades.

Ao contrário, a de Valentina, extoxicodependente, mãe de quatro filhos, é uma história com final feliz:

“Os frades e as irmãs de São Crispim nunca me julgaram. Traziam o alimento para as crianças também quando me drogava, depois rezavam por mim.

Um dia fui ao frei Stan para me confessar, esvaziar o saco, entregar a Deus as porcarias de minha vida; e sabe quanto durou minha confissão?

Três semanas! Ele me recebeu por seis vezes, cada vez por uma hora, durante três semanas!”.

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