Revista "MUNDO e MISSÃO"

Testemunhos da Vida Missionária

ÁFRICA

Argélia: os frutos dos mártires

A vida da Igreja católica na Argélia tem feições, devido ao seu tipo de atividade e de testemunho, que a diferenciam totalmente das Igrejas em qualquer outra parte do mundo. São somente dez mil cristãos, em sua quase totalidade estrangeiros, num país com 30 milhões de muçulmanos. Nos últimos oito anos, mais de cem mil argelinos foram mortos, vítimas do ódio de um grupo de fundamentalistas islâmicos. Mas não somente os muçulmanos foram mortos: cristãos também. Entre eles: um bispo, muitos padres, religiosos, religiosas e leigos engajados em atividade no país. A situação chegou a tal ponto que a simples presença na Argélia de um missionário constituía para ele um grave perigo de vida. Todos, portanto, tiveram a liberdade de escolha: ou permanecer no pais ou voltar para a própria terra. Nem o bispo nem os superiores os obrigavam a permanecer. A resposta de todos, sem nenhuma exceção, foi admirável: "Se os nossos irmãos muçulmanos correm risco de vida, queremos compartilhar o mesmo risco com eles. Não podemos fugir nesta hora."

O bispo de Argel, Henri Teissier descreve o que significou para a Igreja local a experiência, melhor ainda, a opção pelo martírio. "Foi o sinal da nossa fidelidade ao povo da Argélia. Este povo atravessa uma etapa difícil de sua história: não era possível deixá-lo no momento do perigo. Alguns de nós foram eliminados. Mas não morreram só os cristãos. Até chefes religiosos muçulmanos foram mortos porque não compartilhavam a visão fundamentalista que os grupos armados esperavam que eles tivessem. Também mulheres, crianças, intelectuais, jornalistas, camponeses. Nós ficamos aqui para permanecer com eles. Não queríamos ser vítimas da violência, mas viver com este povo. E muitos compreenderam.

Antes, eles nos viam como pessoas que não tinham nada a ver com eles. Depois, viram que ficamos, mesmo quando muitos muçulmanos deixaram o país. Quando morreram os primeiros religiosos, disseram: "Vocês são nossos irmãos". Quando tomei posse como bispo de Oran, em 1973, a catedral estava cheia de cristãos, mas todos estrangeiros. Não havia um argelino. Depois da morte de dom Claverie, assassinado pelos fundamentalistas, tomou posse dom Alphonse Georger. Tivemos que organizar duas cerimônias, pois os argelinos eram muito mais numerosos que os próprios cristãos".

Continua dom Teissier: "É preciso encontrar o caminho da paz entre cristãos e muçulmanos, para o bem do islã, do cristianismo e de toda a humanidade. Estamos avançando: já existe uma estrutura de encontro entre o Pontifício conselho para o diálogo inter-religioso, a universidade de Al-Azar e organismos muçulmanos internacionais. O papa já está vivendo esse desafio em suas viagens."

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