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Angola - MISSÃO NO CONFLITO
Gabriele Bortolami
Um capuchinho italiano, missionário em Angola, faz a experiência
de Deus na guerra e pratica uma evangelização original
Na guerra
Minha experiência missionária começa em 1983, quando
fui para Angola, cheio de ideais, como todo jovem. Mas, imediatamente,
encontrei-me de maneira trágica com a guerra: ali os sonhos desapareceram
e tive que viver uma realidade dramática. Para mim, a missão
coincidiu com a guerra, porque vivo numa realidade onde o povo há
24 anos não sabe o que significa paz. Vivi sete anos nas florestas
do sul, para onde fui levado depois de uma emboscada. Foi o campo de prova
da minha vocação. Um dia chegaram os funcionários
da Cruz Vermelha com um avião e me disseram que podia ir embora
com eles. Respondi que ficava. Não acreditavam e me perguntaram
quem me obrigava a ficar. Tive que assinar quatro formulários em
que declarava que assumia toda a responsabilidade da minha decisão.
Para mim, era como assinar o documento do casamento ou da profissão
religiosa. Claro que depois não foi fácil: tive vários
momentos de revolta, sobretudo, diante da crueza da guerra. Porém,
uma coisa sempre resolveu: nunca considerar ninguém como inimigo,
mas como irmão.
A realidade me ensinou que não se vai para a África para
ensinar e sim para aprender. E se aprende vivendo. Quando você se
coloca à disposição, os outros também aprendem
com você. Uma característica da minha presença foi
dar a vida: "Disto compreendemos o amor: Cristo deu a sua vida por
nós; portanto, nós também devemos dar a vida pelos
irmãos" (1Jo 3,16). Dar a vida pelo outro foi o motivo condutor
da minha existência em tantos anos de floresta e também agora.
Deus na fome
Sepultei vários velhos missionários com minhas próprias
mãos, mas não sepultei seu passado. Com eles entendi uma
coisa: o importante é entrar na alma do povo, com a bagagem indispensável
do estudo da língua e do conhecimento profundo da cultura, da maneira
de pensar. Temos que renunciar a nossa maneira de pensar: assim conseguimos
resultados verdadeiros.
Da experiência da guerra ficou uma convicção: que
Deus tem uma predileção especial por mim. Podia ter morrido
50 vezes, mas ao contrário, num grande espírito de aventura,
Deus me tirou dessas situações. Acho que esta é a
coisa mais bonita: você vê alguém que está atrás
de você, que o ama, o protege e, no meio da fome, de vez em quando
faz você entender que ele existe e se manifesta. Durante certo tempo,
vivi com um menino mudo e lembro que, uma noite, estávamos cozinhando
água com um pouco de farinha que os vizinhos nos tinham dado por
misericórdia. Fazia uma semana que não tínhamos nada
para comer. Ele, através de gestos, me dizia: "Só farinha?"
e eu respondia: "Espera!". Apontava o dedo para o céu
para significar que Deus iria providenciar. E ele acreditava. Mas na hora
de pôr a polenta nos pratos, me olhou como que dizendo que Deus
ainda não tinha pensado em nós. E eu: "Espera".
Dali a pouco, na luz da fogueira, entrevemos algo que se mexia: era um
rato desafortunado que logo acabou na panela. Mais uma vez Deus provou
que me queria bem. Tive que trabalhar duro para sobreviver: recebíamos
um quilo de milho por um dia de trabalho na roça,. Era duro: o
dono do campo marcava o pedaço que devíamos fazer em um
dia e ficava nos observando.
Tivemos a sorte de encontrar um pneu, sobre o qual eu tinha dormido 15
dias antes de construir minha palhoça; nós o reduzimos a
cordas e, com enorme paciência, tecemos uma rede para pescar. Assim
conseguimos apanhar peixes.
Mas as coisas mais terríveis eram as doenças: malária,
disenteria, vermes. Às vezes, eu caía desmaiado de fraqueza,
depois de ter dormido uma semana sem perceber que a malária estava
me consumindo. Até que um dia pedi a um dos anciãos: "Mas
como vocês fazem para enfrentar isso?". Ele me mostrou raízes
para combater as doenças e, ao mesmo tempo, eu lhe ensinei a fazer
fogo, esfregando as pedras: tínhamos voltado à pré-história.
Com aquelas raízes eu me salvei muitas vezes e curei também
outros.
Liberdade
Deus me fez uma graça extraordinária, quando me fez ver
com evidência e experimentar que, dando toda a vida a ele, escolhendo-o
como tudo exclusivo e procurando viver de maneira coerente o Evangelho,
abre-se um panorama maravilhoso e você entende que se pode encontrar
o paraíso também no terror dos bombardeios, que se vive
a consolação também no meio da angústia dos
ataques e que a solidariedade de muitos o sustenta também no meio
da frieza dos militares. Encontrei-me numa outra dimensão e sinto
que ela se abre cada vez mais. Nela, não basta apenas crer, mas
amar. Este foi o motivo dominante da minha vida: conhecer através
de tudo isso o amor. Um amor extraordinário, que não amarra,
mas que me torna ainda mais livre. Conheci a liberdade, durante os vários
anos em que ela me foi tirada, como uma conquista onde se percebe que,
ao lado de você, na luta do dia-a-dia, há um Deus que o ama
com um amor fenomenal. Descobrir isso preenche a vida de uma maneira incrível.
Ajudava muito receber, de vez em quando, uma carta que me dizia: "Agüenta.
Você tem a possibilidade, no meio das trevas de uma guerra que não
pára, de acender uma pequena luz, de ser também para os
outros sinal de esperança". No meio da fome absoluta, onde
os cachorros em vão esperavam o osso que nós mastigávamos;
no meio também da vergonha de não conseguir esconder a nudez,
porque a roupa estava rasgada, via-se que existe a presença de
Deus que está próximo, que acompanha e protege.
Os catequistas
Vivo com 250 catequistas, pessoas fora do comum que, até ultimamente,
quando não recebiam nenhuma ajuda, continuaram fiéis. Às
vezes, são obrigados a fugir, para se refugiar num país
vizinho: nesse êxodo levam consigo a fé e continuam a cultivar
as comunidades. Eu aprendi com eles a ser humilde e viver com a plena
disposição de colocar o outro em primeiro lugar. Eles são
a chave indispensável que me abre as portas da aldeia onde eu entro
- e devo entrar na ponta dos pés - com a humildade de quem aprende
e propõe, e procura perceber em tudo o maravilhoso mistério
da encarnação: este Deus que por nós se despoja de
tudo, se faz homem e se torna como nós, come como nós, dorme
como nós, fala como nós e pensa como nós.
Às vezes, somos tentados a ficar amarrados às raízes
do contexto cultural de onde viemos, mas, na minha experiência,
entendi que ao cortar as raízes da minha cultura para viver no
perfeito nada, na inutilidade aparente, Deus - através de mim -
se faz vivo, se faz carne.
Foram confiadas a nossa comunidade de cinco capuchinhos 240 aldeias, espalhadas
num território de 17.000 km2. Muitas vezes me encontro sozinho.
Descobri um segredo para levar para frente toda essa realidade: os catequistas.
Através deles, acompanho as comunidades que, com dificuldade, consigo
visitar uma vez por ano. Organizei-me, dividindo o território em
14 zonas, cada uma sob a responsabilidade de um catequista, no qual ponho
toda a confiança. Viver essa experiência com os catorze e
depois ir com eles às aldeias me fez descobrir que eles são
realmente os protagonistas da pastoral missionária hoje.
Entre eles distribui também a responsabilidade dos vários
aspectos da vida da comunidade. Por exemplo, a economia, vivida de maneira
africana, onde tudo é colocado em comunhão e aquilo que
é necessário para um, se torna dispensável para o
outro. Também a animação do catecumenato, que nós
fazemos em três anos. Não nos limitamos a aprofundar intelectualmente
as verdades ou a aprendê-la de cor, conforme a típica tradição
oral africana, mas propomos uma experiência de vida.
Nas nossas comunidades, existe quem entende de medicina, há muitos
que estudaram nas escolas das missões, mas não têm
nada. Procuramos criar centros de saúde, onde se distribuem os
remédios que me chegam, fazendo uma ficha dos pacientes. Valorizamos
também a medicina tradicional, recuperando o conhecimento das plantas
que o povo tem. Há quem anima as aldeias a construir a própria
capela, que se torna sinal para todos da dignidade da fé cristã.
E eles sentem muito isso. Toda a comunidade participa: fazem os tijolos,
recuperam o material sempre precioso na nossa situação (nada
se perde!) e constróem seu lugar de culto.
Procurei aproveitar os anciãos das aldeias, que são poços
de sabedoria para que nos ensinassem toda a riqueza que possuem. Nas comunidades
há um ancião encarregado de presidir as reuniões
de maneira a criar o clima certo, para conciliar conflitos, animar as
pessoas. Eu vi que é a misericórdia que prevalece. Aprendi
que não devo ser exigente, duro, cobrando o cumprimento de uma
lei que, às vezes, é difícil de ser vivida completamente,
mas que devo ser elástico, amar, ser paciente e misericordioso.
Andando a pé
Minha missão acontece de maneira itinerante. Vou a pé de
aldeia em aldeia, fico fora mais de um mês, fazendo centenas de
quilômetros, indo ao encontro do povo onde ele está. Passando
de uma aldeia para outra, estou sempre acompanhado por uma multidão
de jovens que tocam, dançam, cantam, carregando tudo o que eu levo.
E quando entramos numa aldeia, eles transformam tudo em festa: os habitantes
saem da rotina e entram eles também na festa. É o estilo
de são Francisco.
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