Revista "MUNDO e MISSÃO"

Teologia

 


por Joshuah de Bragança Soares

ão deixa de ser curiosa, para um ocidental, a imagem de um clérigo russo, de cabelos compridos, trajando uma longa batina, levando um bebê no colo e a esposa ao lado. Será que o sacerdócio na Igreja Russa é tão diferente do sacerdócio católico? No essencial, não há diferenças; no acidental, sim, e diferenças marcantes.

Características comuns

As várias alusões nos Atos dos Apóstolos e cartas de São Paulo, ensinam que o sacerdote é, na comunidade cristã, o canal único e necessário dos sacramentos e da graça divina, ou seja, sua missão é “colocar-se diante do altar imaculado, pregar o Evangelho do Reino, anunciar a palavra da verdade, oferecer os dons e sacrifícios espirituais, renovar o povo de Deus na fonte da regeneração” (Oração da imposição das mãos). O sacerdote recebe este poder do bispo, pelo rito de imposição das mãos, com a oração sacramental de transmissão da graça do Espírito Santo.

Nas Igrejas do Oriente, o sacerdote é um ícone de Cristo – outro Cristo; nas igrejas do Ocidente também se diz: sacerdos alter Christus (o sacerdote é outro Cristo). O rito latino acentua que esta função é eterna: sacerdos in aeternum. No rito bizantino, após dar a comunhão ao recém-ordenado, o bispo consagrante diz: “Receba este penhor e o conserve puro e imaculado até o último suspiro, porque disto lhe pedirá contas no seu segundo e terrível advento, Nosso Senhor, Salvador e Deus, Jesus Cristo”. Quanto à eternidade desta função, a única exceção é que, em seu realismo, as igrejas permitem que um sacerdote possa ser dispensado da sua função, podendo ainda ser exonerado quando se tornar indigno.

As diferenças acidentais, porém marcantes

A forma de desempenhar funções sacerdotais foi regulamentada, nas diversas igrejas apostólicas, e subseqüentemente nos concílios, conforme os usos locais. Daí surgiram as profundas diferenças acidentais do sacerdócio nas várias igrejas. A maior diferença é o celibato obrigatório. Na tradição latina, a porta de acesso ao sacramento da Ordem é o celibato compulsório, desde o sínodo de Elvira (ano 300).

No rito bizantino, dá-se o contrário: o candidato que não é monge só pode ser admitido às ordens sacras depois de casado. Assim exigem os cânones do sexto concílio ecumênico (Nicéia, ano 787). Por motivos históricos e políticos, Roma não foi rigorosa com os cânones deste concílio, convocado pela imperatriz Irene, numa época em que o Ocidente, sob forte pressão do imperador Carlos Magno, ficou um pouco à margem deste sínodo.

Clero claro e clero escuro

Enquanto Roma impunha, aos candidatos ao sacerdócio, a condição do celibato, no Oriente o celibato era voto só da vocação monástica. Existem, assim, na igreja bizantina, dois tipos de clero: o clero claro (diáconos e padres casados, assim chamados porque podem trajar hábito de cor mais clara) e o clero escuro, (diáconos e padres assim chamados porque só trajam a veste monástica de cor escura). Embora no Novo Testamento e nos primeiros séculos da Igreja, houvesse bispos casados, no Oriente firmou-se a tradição de eleger bispos só entre o clero escuro, de modo que os sacerdotes casados nunca podem ser bispos.

Evolução das ordens sacras

Depois do sétimo concílio ecumênico, não houve mais condições de reunir concílios propriamente universais, por causa do grande cisma entre Roma e Constantinopla. Assim, até o século 16, a Igreja Romana manteve 4 Ordens Menores: ostiário, leitor, exorcista e acólito; e quatro Ordens Maiores: subdiaconato, diaconato, presbiterato e episcopado. O Oriente manteve os ministérios de leitor e subdiácono, considerando como Ordens Maiores o diaconato, presbiterato e episcopado. Na Igreja Romana, o antigo regime mudou a partir do Concílio Vaticano II com uma ligeira aproximação da tradição bizantina. Em lugar das quatro ordens menores, instituiu-se o ministério de leitor e acólito. O subdiaconato deixou de ser ordem maior e o Sacramento da Ordem passou a abranger, como no Oriente, o diaconato, presbiterato e episcopado.

Um grande problema para a Igreja nos tempos modernos era o celibato obrigatório. No Concílio Vaticano II, o bispo brasileiro Salomão Ferraz, convertido do protestantismo e verdadeiro precursor das reformas conciliares, apresentou um estudo sobre o celibato opcional. A sua tese foi arquivada porque o papa Paulo VI, valendo-se da sua autoridade supra-conciliar, vetou a discussão do tema do celibato no Concílio, mas ele mesmo, instituiu o diaconato permanente para candidatos casados. Com as inovações, a formação dos candidatos às ordens também teve que ser adaptada, aliviando-se o requisito de sete anos de formação filosófica e teológica, prevalentemente fechada em seminários. Passou-se a insistir no preparo pastoral, como acontece nas igrejas ortodoxas.

Os ritos de ordenação

Como as igrejas do Ocidente ficaram separadas das orientais, primeiro, pela conquista maciça de povos cristãos orientais pelo Islã e, depois, pelo grande cisma do segundo milênio, o desenvolvimento da teologia, tradições e rito de ordenação tomaram rumo e forma diferentes. Em Roma e no Oriente, a ordenação é feita pela imposição das mãos e transmissão da graça do Espírito Santo (carisma sacerdotal). A ordenação católica tinha dois momentos de grande emoção: a prostração do ordenando ao solo, diante do altar, enquanto a comunidade recitava a ladainha de todos os santos, e a unção das mãos.


Sacerdote bizantino paramentado para uma celebração

Os ritos orientais não herdaram estes atos, mas têm os seguintes ritos, também de grande emoção:

1) apresentação do ordenando, que é conduzido, dando três voltas ao redor do altar, enquanto são cantados os hinos sacramentais (invocação dos santos mártires e associação do sacerdócio ao mistério da Encarnação;

2) entrega oficial dos objetos de culto ao ordenando, que é aclamado cada vez com a expressão Axios (é digno);

3) o ordenando, de joelhos no canto do altar, recebe o Espírito Santo, pela oração sacramental.

O peso esmagador do mistério sacerdotal

O candidato, nos últimos dias de preparação, pressente o peso esmagador da responsabilidade sacerdotal: sem deixar de ser igual a todo o mundo, torna-se diferente, sem deixar de ser ovelha, passa a ser pastor, sem deixar de ser discípulo, passa a ser mestre, sem deixar de ser guiado, passa a ser guia. Os escritores eclesiásticos exaltam a dignidade sacerdotal com hinos apoteóticos. Assim João Crisóstomo, Efrém, o Sírio, Silvano, o Atonita, mostram o lado místico e angélico do sacerdócio.

Como Simeão, o Novo Teólogo, o ordenando deverá ver o Espírito Santo descer como um facho de luz sobre si na hora da ordenação e sempre que celebrar a Eucaristia. No entanto, o candidato não pode esquecer o lado meramente humano, que às vezes imporá restrições à sua escolha. Optar pelo clero casado ou monástico? É um dilema. Buscar o casamento às pressas para poder receber as Ordens Sacras? É um problema sério. Mais grave ainda é ter que escolher a esposa dentro da sua própria religião, se bem que esta norma, hoje, fique a critério do bispo. Como Cristo, ele ficará suspenso (e crucificado) entre o céu e a terra. Um grande mistério.

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