Revista "MUNDO e MISSÃO"
Teologia
por José Ariovaldo da Silva, ofm AUMENTAM OS MINISTÉRIOS LITÚRGICOS ASSUMIDOS POR LEIGOS
Leigos exercem o ministério pastoral de testemunho do evangelho em atividades cotidianas, tanto profissionais como sociais, na condição de povo sacerdotal. Muitos assumem, por toda parte, serviços litúrgicos intra-eclesiais, como comentaristas ou animadores, cantores e instrumentistas, membros de equipe de acolhimento, ministros extraordinários da comunhão eucarística, da palavra ou do batismo, testemunhas qualificadas da celebração do matrimônio, ministros da celebração da esperança, por ocasião da morte de um cristão, presidência nas celebrações dominicais sem padre, ministros de celebrações junto aos enfermos, ministros de bênção, dirigentes de via-sacra e da novena de Natal etc. “Quanto mais viva e participativa a comunidade, mais serviços e ministérios vão surgindo para acompanhar seu crescimento e a diversidade de suas celebrações litúrgicas” (cf. Ione Buyst, Equipe de Liturgia, Petrópolis, Vozes, 2000, p. n.º 24 e 68). E, porque são um dom de Deus a serviço do povo, tais ministérios são desempenhados em comunhão e participação. TRABALHAR
EM EQUIPE: A emergência de equipes de liturgia, a partir da renovação do Vaticano II, não é uma “moda” apenas ou uma concessão ao espírito democrático da época. Quem assim pensa, está enganado. As equipes fazem parte de um modelo de Igreja resgatado da mais antiga tradição cristã pelo Concílio, o que transparece na Constituição sobre a Liturgia: a) É todo o povo dos batizados, membros da comunidade reunidos pela Palavra de Deus, e atuando pela força do Espírito Santo, que se reúne para celebrar o ministério pascal (cf. SC 6). Quem celebra é toda a assembléia, e não o padre, ou qualquer outro ministro e nem mesmo a equipe. Como ensina o concílio: “As ações litúrgicas são celebrações da Igreja (...), isto é, o povo santo (...), as celebrações pertencem a todo o Corpo da Igreja...” (SC 26). Por isso, até os livros litúrgicos devem prever também as partes que competem a toda a assembléia (cf. SC 31). Assim sendo, qualquer ministério deve ser entendido como um serviço prestado à assembléia. E a participação de todo o povo celebrante será o critério de avaliação da atuação dos diferentes ministérios. b) Todo este povo de batizados é também apresentado como Corpo de Cristo, ou como esposa de Cristo, associada a ele e à sua missão. Qualquer ministério é exercido em nome de Cristo e no Espírito dele. É Cristo mesmo que atua, através de sua presença viva e dinâmica, em cada um dos ministérios e na assembléia como um todo (cf. SC 7). E se, portanto, somos o “corpo comunitário” de Cristo, nenhum ministério pode ser entendido ou vivido num sentido autônomo, independente dos demais. Conseqüentemente, a atuação dos ministros na celebração (padre, leitores, cantores, instrumentistas, etc.) deve ser feita “de comum acordo” entre todos, como bem nos orienta a Instrução Geral sobre o Missal Romano (cf. nn. 91-111 e n.º 352), o que demanda reunião prévia para combinar a melhor maneira de atuar como um serviço ao povo. c) As assembléias litúrgicas são chamadas a serem “retratos” vivos do mistério, do ser profundo da Igreja. “Revelam, manifestam o fato de a Igreja ser povo santo, Corpo de Cristo no Espírito (cf. SC 26). A maneira como os ministérios se relacionam entre si e com os demais, mostra claramente qual o modelo de Igreja seguido em nossa comunidade ou paróquia: se o modelo da Igreja-comunhão proposto pelo Concílio, ou se o modelo de Igreja piramidal pré-conciliar” (Ione Buyst, op. cit.., p. n.º 70).
d) Não se trata de uniformidade no Corpo de Cristo e na assembléia litúrgica. Ao contrário, cada participante atua e é atingido “conforme a diversidade de carismas, dons, ofícios, ministérios...” (cf. SC 26). Todos agem em conjunto, mas cada um tem sua responsabilidade própria. “Por isso, o monopólio (quando padre ou outro ministro assume sozinho praticamente todas as funções) deve ser considerado coisa ‘de antigamente’. Da mesma forma, ninguém tem o direito de se omitir da função que lhe compete, de não reconhecer ou de impedir o exercício da função ministerial de outra pessoa: ‘Nas celebrações litúrgicas, seja quem for, ministro ou fiel, ao desempenhar a sua função, faça tudo e só aquilo que (...) lhe compete’ (SC 27). Quanto mais repartirmos as tarefas, mais estaremos vivendo e manifestando a Igreja, toda ela ministerial” (Ione Buyst, op. cit., p. n.º 70). UMA
IGREJA TODA MINISTERIAL, Igreja toda ela ministerial, toda ela missionária dentro da sociedade: são expressões que usamos em nossos meios eclesiais do Brasil e da América Latina em geral. E as relações no interior desta Igreja são definidas como sendo de “comunhão e participação”. Sua raiz é a intercomunhão na própria Santíssima Trindade, entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Desta perfeita comunidade devemos aprender como nos relacionar. “Na prática pastoral, a ‘comunhão e participação’ se traduz concretamente em reuniões para informação e formação, assembléias de todos os níveis de Igreja (...), conferências (...), comissões, trabalhos em equipe (...). Sabemos como é difícil, custoso e demorado trabalhar assim. É difícil chegar a um consenso; é custoso aprender a dialogar em igualdade, sem imposição, nem submissões. Mas sabemos também que é a única maneira de se chegar à comunhão e participação de todos (...). As equipes de liturgia podem aprender com esta forma de organização e podem também, exercitando, dia a dia, semana a semana, o diálogo e o trabalho em comum, colaborar para o crescimento da comunhão e participação em outros setores da vida eclesial e social. Na assembléia litúrgica, o trabalho dos ministérios litúrgicos em conjunto torna-se sinal e antecipação do Reino” (ibid., p. n.º 70-71). Já começamos a perceber desafios pela frente... Um deles: há que se superar possíveis vícios de um exercício ministerial litúrgico às vezes por demais autônomo, isto é, desvinculado e desentrosado do conjunto dos ministérios, de pessoas que atuam na celebração, sem ter participado de uma prévia reunião de preparação com toda a equipe. Há que se superar isso, para que as celebrações espelhem de fato que a Igreja é: Povo sacerdotal de Deus e Corpo de Cristo.
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