Revista "MUNDO e MISSÃO"

Religião - Islamismo


Mesquita de Solimano em Istambul - Turquia

O que é uma MESQUITA?

Pedro da Rocha

O mundo está vivendo momentos difíceis entre o Oriente muçulmano e Ocidente cristão. Enquanto do lado islâmico se fala em guerra santa contra o grande Satã (o Ocidente e os Estados Unidos em particular) dando a impressão que esta seria uma guerra de religião, o Ocidente quer distinguir a guerra contra o terrorismo – embora de matriz islâmica – da religião muçulmana. Fica difícil, porém, para o povo aceitar esses atos de terror e a guerra como atos comandados por Deus, quando sabemos que Ele é o mesmo e único Deus para cristãos e muçulmanos.

O fanatismo religioso é um absurdo em religiões que pregam a paz e harmonia com Deus e, por conseguinte, com os homens, mas, na vida diária, a prática da religião mistura-se com a cultura de cada povo e essa cultura é formada de múltiplos fatores como nacionalismo, história, situações sociais, etc.

Aqui, queremos mostrar, baseado num estudo de Kalil Samil, jesuíta árabe, como funciona a mesquita e o que representa para os muçulmanos essa construção, às vezes muito rica, às vezes simples, mas de importância fundamental para as comunidades islâmicas.

Geralmente, estamos acostumados a ver na mesquita uma igreja muçulmana como uma igreja católica, edifício dedicado somente ao culto de Alá. Mas a mesquita é uma construção mais complexa no conjunto do islã.

Na tradição árabe, existem dois termos para indicar a mesquita: masgid que em espanhol foi traduzido mezquita e entrou em todas as línguas européias e giâmi’ que é a denominação mais difundida no mundo árabe. O primeiro nome deriva da raiz sgd cujo significado é “ prostrar-se” e o segundo da raiz “gm” que significa “ reunir-se”. A mesquita (giâmi) é o lugar onde a comunidade muçulmana se reúne para tratar de todas as questões que lhe interessa, questões religiosas, sociais, políticas e locais e também para rezar; portanto, a mesquita tradicional é composta de dois espaços; aquele para rezar, masgid, e outro para tratar dos problemas da comunidade.

A sexta-feira é o dia em que a comunidade islâmica se reúne, na mesquita, ao meio-dia, para a oração pública e, em seguida, realiza-se o khutbah, isto é, o discurso que não é um simples sermão religioso. Nesse discurso, aprofundam-se as questões sociais, políticas, morais e tudo o que interessa à comu-nidade islâmica. A sexta-feira, portanto, mais que um dia de descanso, como é o sábado dos judeus ou o domingo dos cristãos, é o dia da comunidade islâmica que se reúne como comunidade. Dependendo do país onde os islâmicos se encontram, a sexta-feira pode ser até um dia de trabalho, mas todos fecham seus negócios pelo menos na hora do khutbah.

DICIONÁRIO ISLÂMICO
• Aiatolá: membro mais alto na hierarquia
xiita do clero muçulmano
• Califa ou vigário do Profeta: chefe político e religioso da comunidade islâmica sunita
• Emir: título leigo do chefe militar ou civil,
como governador e general islâmicos
• Imã: guia político-religioso das comunidades muçulmanas
• Jihâd: guerra no caminho de Alá.
Tradicionalmente entendida como guerra santa contra os infiéis
• Muezim: religioso que do alto dos minaretes clama os fiéis para a oração cinco vezes ao dia.
• Sunnah: tradição baseada nos exemplos da vida de Maomé É uma complementação do Alcorão e fonte do Direito muçulmano. Os seguidores são chamados sunitas e, no universo islâmico, têm uma prática mais tolerante
• Ulema: doutor ou teólogo do islã
• Xá: soberano e chefe político entre os árabes
• Xeque: chefe de tribos árabes ou título honorífico dos membros das famílias reais
• Xiismo: corrente teológica islâmica radical. É seguida por 10% dos muçulmanos

Na história muçulmana, quase todas as revoluções, os levantes populares começaram após esses discursos na mesquita.

A Jihâd que, normalmente é traduzida como “guerra santa contra os infiéis”, num sentido mais literal, significa “guerra no caminho de Alá”, e obriga todo islâmico a defender sua comunidade e o que ficou decidido e proclamado no khutbah.

Por causa desses possíveis envolvimentos políticos, nos países onde o governo não é muçulmano ou, embora muçulmano, não é fundamentalista, agentes especiais são enviados para observar e vigiar, nessa hora, as mais importantes mesquitas do país. Em outros lugares, onde a ligação do governo com islã é mais estrita, o testo do khutbah deve ser apresentado às autoridades civis, antes de ser lido e ter a sua aprovação. Nas mesquitas financiadas pela Arábia Saudita (que são maioria nos países europeus), os imãs ou chefes das mesmas são impostos pela monarquia saudita, razão pela qual ela tem total controle sobre essas mesquitas.

Uma vez inaugurada, a mesquita torna-se um espaço sagrado que supera o fato de ser simplesmente um lugar religioso porque, sendo sagrado, deve ser respeitado e venerado e, portanto, somente a comunidade decide quem pode ser admitido dentro desse espaço e quem não pode, porque sua presença o profanaria. Espalhados nas cidades grandes e pequenas onde há muçulmanos, existem outros lugares pequenos para oração, que podem conter umas cinqüenta pessoas. Eles podem ser quartos ou salões no térreo de um edifício, lugares mais discretos que servem especialmente para a oração do meio-dia, em lugar das estradas e calçadas.

Alto-falantes versus minaretes

As mesquitas possuem, geralmente, uma torre ou minarete, cuja altura superior às casas que a rodeiam tem a função prática de fazer chegar mais facilmente aos fiéis a voz do muezim que os chama para as cinco orações diárias. Às vezes, numa ou outra oportunidade, os minaretes assumiram também uma função simbólico-política, como a de afirmação da superioridade do islã sobre as outras religiões.

Com o avanço da técnica, ultimamente, estão sendo usados alto-falantes, ainda mais quando a mesquita se encontra no meio de bairros não muçulmanos e os muezins aproveitam desse instrumento para alongar suas orações. Essas inovações são contrárias à tradição muçulmana ou sunnah e os países islâmicos mais rigorosos condenam a prática. No Egito, o uso dos alto-falantes está limitado a dois minutos e proibido na primeira oração do dia.

Uma pergunta legítima é como as mesquitas se sustentam. Elas, geralmente, se financiam com as esmolas dos fiéis, enquanto as mesquitas do mundo ocidental são financiadas, em sua maioria, pela Arábia Saudita que adquire assim o direito de impor-lhes os seus imãs e a sua ideologia. A Arábia Saudita segue a linha xiita do islã, ou seja, a linha mais radical, chamada wahhabita.

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