Revista "MUNDO e MISSÃO"

Religião - Islamismo

Ares de calmaria na terra das pirâmides

Hélio Pedroso

Na noite de 31 de dezembro, através da televisão, o mundo inteiro viu os festejos que, em todos os continentes, saudavam o novo ano. Uma das festas mais bonitas, sem dúvida, foi a do Egito: muita luz, grande alegria e músicas, dando a nítida impressão de que o país vive às mil maravilhas. De fato, o Egito começou o ano 2000 com um bem-estar econômico crescente, com empresas ocidentais prontas a investir no país, com grande afluxo de turistas, raros após o atentado de Luxor, em 17 de novembro de 1997.
A realidade, porém, não é o que se tenta apresentar na mídia: basta evocar os conflitos que continuam entre coptas e fundamentalistas islâmicos. Naquela entrada do ano 2000, enquanto as luzes iluminavam as milenares pirâmides, aconteciam, por motivos banais, confrontos violentíssimos, na cidade de Al-Kusheh, entre uma comunidade copta e outra muçulmana. O desentendimento teve início naquele mesmo dia e continuou por vários outros, também com a polícia que, em lugar de separar os oponentes, abriu fogo contra os cristãos. Conforme divulgaram as agências internacionais, houve 51 mortos, dos quais 48 coptas e 2 muçulmanos; a imprensa local fala de 21 mortos, 30 feridos e 80 lojas destruídas.
O confronto entre coptas e fundamentalistas muçulmanos reabriu uma chaga - a "questão copta" - que parecia curada, mas que continua envenenando as relações entre muçulmanos e cristãos.

Os coptas

Os coptas consideram-se os legítimos egípcios, descendentes dos tempos dos faraós, anteriores à entrada dos árabes muçulmanos. Converteram-se ao cristianismo, logo nos primeiros séculos, e formaram uma Igreja muito importante, com solenes ritos, grandes santos, um monaquismo muito difundido e uma estrutura eclesial própria. Separou-se no quarto século do cristianismo.
Com a vinda dos muçulmanos, a partir de 640, foram perdendo a importância política, diminuíram como população e, atualmente, seriam 14% juntando outras denominações cristãs. Os números, todavia, são contraditórios: conforme os coptas, eles seriam 20% da população, outros porém, talvez mais realistas, falam somente de 7%, enquanto as estatísticas oficiais indicam 14%.
Atualmente, são discriminados como cultura e etnia. A queixa é que, embora sendo cidadãos como os muçulmanos, praticamente não têm nenhuma presença significativa no governo, no poder judiciário e no exército; além disso, onde existem pequenas comunidades coptas, elas são alvos de grandes pressões vexatórias para que se convertam ao islã ou se mudem. Até pouco tempo atrás, a política dos governos locais era fazer desaparecer os coptas. Devido a essa situação, muitos migraram para os Estados Unidos e os que ficaram fiéis ao cristianismo são alvo de perseguições, marginalizados pela sociedade civil (escola, saúde e emprego), vivendo em favelas e grutas, trabalhando como lixeiros e alvo de confrontos com muçulmanos.
O problema agravou-se com a fundação, por parte de extremistas muçulmanos, da Jamaa Islamya ou Fraternidade islâmica que quer transformar o Egito num estado fundamentalista regido pela sharia. Essa fraternidade, responsável, entre outros, do assassinato dos turistas em Luxor e do presidente Anuar Sadat, tem sido fortemente combatida pelos últimos governos, através de condenações à morte e prisões perpétuas e parece ter recuado um pouco. Seus chefes fundadores, na cadeia, agora querem colaborar com o governo que, porém, parece querer continuar sua política de combate ao fundamentalismo. A Amnesty Internacional, que colocou o Egito entre as nações que menos respeitam os direitos humanos, insiste que os Estados Unidos devem cortar substancialmente sua ajuda econômica e militar ao país, até que haja mudanças significativas nesse aspecto.
Nessa confusa intriga de política, religiões e interesses pessoais de poderosos e fundamentalistas, desde 1992, mais de 1200 coptas foram assassinados.

A questão copta

A questão está aberta porque os coptas pedem mudanças para si e o acréscimo na constituição de cinco pontos importantes: novas normas sobre a construção e manutenção das igrejas; participação de coptas no governo executivo; participação de coptas na organização eleitoral; introdução do ensino de história e civilização coptas e criação de universidades coptas e, por fim, a participação nos meios de comunicação, especialmente, na televisão. Esses pontos foram apresentados ao governo alguns anos atrás.
Em 1997, o atual presidente Hosni Mubarak frisou solenemente, num discurso, que os coptas são cidadãos integrantes da sociedade, com os mesmos deveres e direitos, que o Egito, que quer ser um estado moderno e tolerante, respeita todos e que a "religião é para Deus e a pátria para todos". Apesar dos belos discursos, continua a intolerância contra os coptas.

Egito hoje

Atos de violência como os de Al-Kuscheh prejudicam o Egito: os turistas escolhem outras rotas e os investidores estrangeiros, com receio de que o país se torne fundamentalista, buscam outros mercados. Há um medo difuso de que não volte a paz, apesar de toda tradição de sua cultura.
Além disso, sua importância no quadro internacional não lhe permite solucionar seus problemas sem interferência de potências estrangeiras. A ameaça de um corte na ajuda econômica-militar por parte dos Estados Unidos e a acusação de que o país não respeita os direitos humanos instaurou, pelo menos superficialmente, uma aparência de paz e tranqüilidade. A perturbação social e política, porém, continua no âmago das duas culturas.
Todavia, nesse quadro negativo, existem "sementes de esperança", isto é, sinais de diálogo e compreensão mútua entre cristãos coptas, católicos e muçulmanos não fundamentalistas. A comunidade católica, numericamente insignificante, está fortemente presente nas atividades de assistência hospitalar, escolas e colégios e consegue conversar com muçulmanos e coptas. Na missa do último Natal, da qual participaram turistas de várias tendências religiosas e representantes consulares de vários países, houve uma declaração de condenação contra o fundamentalismo e a intolerância religiosa, pronunciada por autoridades muçulmanas: "É um erro confundir o islã com grupos de alienados. A solidariedade não admite barreiras religiosas e o governo deve reconhecer essa lei de convivência".

  • Território: 1.001.440 Km2
  • Habitantes: 64.466.000
  • Capital: Cairo (12 milhões)
  • Língua: Árabe
  • Forma de Governo: República
  • Religiões: muçulmanos 82%
  • Cristãos 14%
  • Outras e tribais 4%

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