Revista "MUNDO e MISSÃO"
Política
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Embora conserve o mesmo sistema de controle policial sobre o povo dos tempos de Mao Tsetung, a China aderiu, faz tempo, ao mundo capitalista. A convivência dos dois sistemas não parece fácil por Bernardo Cervellera
O que caracterizava o povo chinês, na época de Mao Tsetung, era o nivelamento entre as várias camadas sociais: todos eram, em média, pobres e a unidade de trabalho, à qual cada um pertencia, garantia alimentação, casa, remédios e escola para todos. Agora, tudo mudou.
Nos anos 80, Deng Xiaoping abriu o mercado chinês aos investimentos estrangeiros; nos anos 90, Zhu Rongji acabou com a igualdade e a sobriedade maoístas. As leis do trabalho de 94, que visavam reforçar as empresas particulares, decretaram o fim das seguranças que antes existiam. Os operários agora podem perder o emprego, ter seu salário e sua aposentadoria reduzidos; saúde e escola estão a cargo das pessoas e não mais do Estado. Os dados mais recentes falam de 170 milhões de desempregados, dos quais 120 milhões entre os camponeses que tentam deixar suas terras e buscar qualquer emprego, com qualquer remuneração, nas cidades. O que já aconteceu no Brasil, agora, está acontecendo na China. O consumismo tomou conta do país. Os ricos (10% da população) esbanjam dinheiro. Há restaurantes em Xangai e Cantão, onde são servidos pratos baseados em receitas da época Ming, onde os alimentos vêm misturados com pó de ouro ou de jade para garantir, conforme a tradição, a imortalidade. Mulheres chinesas buscam a cirurgia plástica para arredondar os olhos como os das mulheres ocidentais. Mas, tudo isso é uma fachada que esconde o drama que o povo chinês está vivendo. Três professores universitários publicaram os resultados de uma pesquisa que mostram que mais de 200 milhões de chineses não estão contentes com a situação em que se encontram. O abismo que está se criando entre ricos e pobres e o desemprego que aumenta ameaçam criar uma crise social maior que a de 1989, que terminou com o massacre da praça Tiananmen. Sinal desse descontentamento é o altíssimo número de suicídios no país: 287 mil em um ano. Para reforçar o poder, o presidente Jiang Zemin pediu aos empresários que entrassem no partido comunista. Mas a resposta foi a saída de operários e camponeses do partido. Nas manifestações, costuma-se gritar o seguinte slogan: "Mao Tsetung nos fez trabalhar no campo; Deng Xiaoping nas cidades e Jiang Zemin tornou-nos desempregados". A raiva dos camponeses, pobres e escravos dos impostos Como conseqüência das reformas econômicas, os camponeses tornaram-se mais pobres nos últimos seis anos. O China Economic Times diz que mais da metade dos 900 milhões de camponeses vive com menos de um dólar por dia.
Essa situação é devida às políticas erradas (preços e produção controlados pelo governo), à corrupção e aos numerosos impostos que os agricultores têm que pagar sobre os animais que possuem, a água, as estradas e até sobre a educação. Nos últimos anos, foram numerosas as manifestações de protesto dos camponeses contra o governo, nas quais a polícia teve que intervir e reprimir. Calcula-se que, nos próximos anos, metade da população camponesa deverá emigrar para as cidades, para poder sobreviver - a não ser que o governo resolva dar mais liberdade aos agricultores, para que utilizem a terra livremente (sem produções e preços fixados de antemão), e permita que se tornem proprietários das terras onde trabalham. Corrupção e jogos de poder As reformas econômicas que estão acontecendo na China criam, cada vez mais, desigualdades. A entrada do país na Organização Mundial do Comércio (OMC) e a previsão de uma mais acirrada concorrência internacional levam as indústrias privadas e estatais a reestruturar a produção e abaixar os custos. Como resultado, muitas indústrias, especialmente as estatais, foram fechadas, porque deficitárias, e muitos funcionários, especialmente os mais velhos, ficaram desempregados. São cada vez mais freqüentes as manifestações de desempregados das antigas indústrias estatais. Essas manifestações, como as dos camponeses, estão mostrando outro problema: a corrupção. As indústrias estatais fecham por causa dos chefes que enriqueceram às custas da comunidade. No campo, os secretários do partido aliam-se aos chefes das aldeias para criar impostos em continuidade e assim sugar dinheiro dos camponeses ou se apropriam dos financiamentos públicos para seus interesses particulares. A luta contra a corrupção, há muito tempo, está em primeiro lugar nas assembléias nacionais e nos congressos do partido, mas, além de algum quadro intermediário, nenhum dos figurões jamais arriscou a prisão. Há anos, pedem-se reformas políticas para eliminar o partido único, criar comitês de controle, reformar o sistema dos impostos. Tudo é sempre adiado. Um sinal da corrupção: na cidade de Pequim, cerca de 90% do dinheiro arrecadado pelos impostos vêm das pessoas das classes baixa e média. Mas os ricos possuem 80% da riqueza da cidade. Adaptação Alberto Garuti de "Avvenire" |
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